OPINIÃO
23/03/2016 19:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O debate político está cada vez mais carente de maturidade

Acompanhar apenas veículos e pessoas cujas opiniões refletem as suas não é o melhor caminho. É preciso buscar a pluralidade, ler, assistir e ouvir "o outro lado", para dessa forma chegar às suas próprias conclusões. Precisamos lembrar que ainda existem, no Brasil, jornalistas e intelectuais experientes, sensatos e responsáveis, preocupados não com o número de leitores que têm, mas com a qualidade das informações e das análises que produzem. Somente eles podem nos dar uma melhor noção do que está acontecendo. E é a eles, não a incendiários, que devemos recorrer.

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Business concept illustration of two businessmen in fencing stance holding sabers.

O ministro do STF Teori Zavascki determinou, na noite desta terça-feira (22), que o juiz Sergio Moro envie a investigação envolvendo o ex-presidente Lula para o STF. A decisão é consequência de uma ação movida pela Advocacia Geral da União relacionada à conversa gravada entre o ex-presidente e a presidente Dilma Rousseff.

O argumento da AGU não poderia ser mais óbvio: somente o STF tem autonomia para autorizar a divulgação grampos envolvendo a presidente de república. Além disso, a AGU afirma que, ao divulgar uma conversa da presidente da república, Moro colocou em risco a soberania nacional.

Com a sua decisão, o ministro Zavascki corrige, portanto, um dosdeslizes cometidos pelo juiz Moro, que deveria, de imediato, ter remetido não apenas essa gravação ao STF, mas todas as que envolvem pessoas com foro privilegiado, em vez de divulgá-las.

Mal a notícia foi divulgada e o linchamento virtual do ministro Zavascki teve início. A falta de discernimento de algumas pessoas é tão grande que, poucas horas depois, já havia manifestantes em frente em frente ao apartamento do ministro em Porto Alegre. É realmente assustador.

Para os que exigem o impeachment da presidente e a prisão do ex-presidente, Teori Zavascki é um "petralha". O curioso é que os "petralhas" também têm o que reclamar do ministro.

Além de ter homologado a delação premiada do senador ex-petista Delcídio do Amaral, que caiu como uma bomba no governo, foi ele quem autorizou: a prisão desse mesmo senador; a prisão do ex-deputado-ex-petista André Vargas; e o arquivamento de investigações contra os senadores tucanos Aécio Neves e Antonio Anastasia, ambos citados por delatores da operação Lava Jato.

Essa tentativa de linchamento da reputação do ministro é mais uma prova de que o debate político está cada vez mais carente de maturidade. Parte da militância ignora - ou escolhe ignorar - a existência de leis e trâmites judiciais, os quais devem ser seguidos rigorosamente - sob pena de cometer ilegalidades e, quem sabe, anular todo um processo, toda uma investigação.

Ganha cada vez mais espaço, nas redes sociais e no mundo analógico, o fanatismo. Quem emite uma opinião contra a oposição ou uma crítica a certos aspectos da condução do processo investigatório é automaticamente tachado de governista, de "petralha". Quem se pronuncia contra o governo e o PT é imediatamente chamado de golpista, de "coxinha".

Diante de tal situação, a calma, o bom senso e o respeito são artigos cada vez mais necessários.

Ser contra o impeachment não significa ser a favor do governo. O impeachment não é a única saída - e não é, nem de longe, a melhor. Há outras opções, como aguardar o andamento da ação contra Dilma e Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral, que pode resultar na cassação da chapa e na convocação de uma nova eleição direta para presidente, caso o TSE conclua o julgamento ainda este ano.

Apontar deslizes cometidos pelo juiz Sergio Moro não significa ser contra a operação Lava Jato. Apenas denuncia uma preocupação com a correção em um processo investigatório cuja dimensão e importância não tem precedentes na história deste país.

Da mesma forma, quem exige o impeachment ou a renúncia da presidente Dilma não pode ser chamado de golpista. O atual mandato da presidente é especialmente indefensável, e todos os protestos e insatisfações são justos. O que se condena são os excessos, as ofensas e a falta de respeito.

* * *

O momento que estamos vivendo é muito difícil e extremamente complexo. Há muitos interesses em jogo e muitas articulações nos bastidores. É preciso lembrar que os políticos envolvidos no escândalo da Petrobras, tanto do governo quanto da oposição, estão lutando pela própria sobrevivência.

Se, por um lado, o governo é acusado de tentar obstruir as investigações, elementos da oposição só veem uma forma de escapar da Lava Jato: dar à população alguns bodes expiatórios para, em seguida, abafar a operação. Que ninguém se engane: é esse o motivo da pressa em votar o impeachment da presidente Dilma.

É por isso que ponderação e imparcialidade devem ser buscadas a todo custo. Tanto por parte daqueles que têm o dever de nos informar quanto daqueles que têm espaços para fazer análises e divulgar opiniões. Mas, principalmente, por quem se informa.

Acompanhar apenas veículos e pessoas cujas opiniões refletem as suas não é o melhor caminho. É preciso buscar a pluralidade, ler, assistir e ouvir "o outro lado", para dessa forma chegar às suas próprias conclusões.

Precisamos lembrar que ainda existem, no Brasil, jornalistas e intelectuais experientes, sensatos e responsáveis, preocupados não com o número de leitores que têm, mas com a qualidade das informações e das análises que produzem.

Somente eles podem nos dar uma melhor noção do que está acontecendo. E é a eles, não a incendiários, que devemos recorrer.

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