OPINIÃO
09/03/2016 15:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Intolerância demais, bom senso de menos

Quem acompanha o noticiário político, sabe: desde a última eleição presidencial, em 2014, instalou-se no Brasil um clima de extrema intolerância, principalmente quando se trata de política. Ambos os lados, defensores do governo e opositores, disparam ataques a todo o momento, tanto através das redes sociais quanto do mundo analógico. Pior: além de manifestarem-se espontaneamente em seus perfis e rodas de conversa, os militantes têm cada vez mais buscado o confronto.

Rovena Rosa/Agência Brasil

Quem acompanha o noticiário político, sabe: desde a última eleição presidencial, em 2014, instalou-se no Brasil um clima de extrema intolerância, principalmente quando se trata de política. Ambos os lados, defensores do governo e opositores, disparam ataques a todo o momento, tanto através das redes sociais quanto do mundo analógico.

Pior: além de manifestarem-se espontaneamente em seus perfis e rodas de conversa, os militantes têm cada vez mais buscado o confronto.

Na internet, comentam, cheios de fúria e de maneira nada respeitosa, críticas feitas pelo "outro lado".

No mundo real, quem é visto com uma vestimenta do "outro lado" é hostilizado; se algum figurão do governo está num local público, é xingado.

Chegou-se ao ponto de hostilizarem, dentro de uma livraria em São Paulo, o ex-senador petista Eduardo Suplicy, que havia sido convidado para um evento sediado no estabelecimento.

Os ânimos, que já estavam exaltados, alcançaram animosidade ainda maior com o ocorrido do último 05 de março: a condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal.

Após o depoimento, Lula declarou que poderiam tê-lo convocado para depor, até mesmo em Curitiba, e ele iria de bom grado, pois gosta muito da cidade.

Não obstante o gracejo do ex-presidente, o correto seria mesmo ele ser convocado para depor, pois a condução coercitiva só deve ser utilizada quando o depoente se recusa a comparecer para prestar depoimento.

A justificativa da PF e do MPF de que a medida foi tomada para tentar evitar protestos e conflitos é muito fraca, ainda mais quando se leva em conta que o depoimento poderia ter sido tomado de maneira mais sigilosa.

Em janeiro deste ano Lula depôs à PF e não houve problema algum.

Os conflitos e protestos que tentaram evitar acabaram acontecendo, e o método utilizado pela PF e MPF acabou dando força não apenas a Lula, que após o depoimento fez um inflamado e contundente discurso de defesa transmitido pela tevê, rádio e internet, mas também a uma parte da militância petista - aquela parte que ainda acredita na inocência do atual governo e do presidente Lula.

Como consequência, o PT conclamou os seus para ir às ruas em defesa do seu "tudo isso que está aí": governo Dilma, Lula e, claro, o partido. A data escolhida para as manifestações a favor foi o dia 13 de março, domingo, para quando foram marcados, com meses de antecedência, protestos contra o mesmo "tudo isso que está aí".

Se tivesse o mínimo de bom senso e responsabilidade, o PT se oporia a qualquer manifestação de sua militância no dia 13.

Se a militância petista for para as ruas neste domingo, o resultado é certo: pancadaria.

O governo já se manifestou pela escolha de uma nova data, porém, alguns diretórios estaduais do PT estão levando em frente a ideia que pode resultar em confrontos ou algo ainda pior.

Sensatez deveria ser uma característica inerente a todos, mas principalmente aos políticos.

Infelizmente, bom senso tem sido cada vez mais um artigo raro na nossa sociedade.

Mas, como diz o ditado, a esperança é a última que morre, e fica a torcida para que os petistas decidam fazer suas manifestações em uma outra oportunidade.

Em tempo: o senador mineiro Aécio Neves gravou um vídeo convocando manifestantes para os protestos do dia 13 de março.

Na gravação, o senador aparece cercado por diversos políticos.

É curioso notar que, entre eles, estão Cássio Cunha Lima (senador, PSDB), que teve o mandato de governador da Paraíba cassado em 2008, por compra de votos; e Agripino Maia (senador, DEM), que está sendo investigado por lavagem de dinheiro e corrupção pela Lava Jato.

Não se pode esquecer, é claro, do próprio Aécio, citado várias vezes por delatores da Lava Jato, entre outros escândalos nos quais se envolveu - o mais notório sendo o aeroporto que ele autorizou construir na fazendo de um tio-avô, no interior de Minas Gerais, quando governava o estado.

Nada tenho contra o senador mineiro convocar sua militância, mas ele deveria selecionar melhor quem aparece com ele em vídeos e fotos - além de pensar melhor a respeito dos próprios atos.

Já que tem pretensões de presidir o Brasil, outra coisa que Aécio Neves deveria fazer, além de tentar inflar manifestações contra o atual governo, é pensar a sério sobre o país e apresentar propostas para sairmos da crise econômica e política.

Mas acho que aí já é pedir demais.

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