OPINIÃO
21/10/2014 19:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Estamos perdendo

Sabe-se que não existem santos na política, e que nela impera o vale-tudo. Mas é preciso ter limites, principalmente quando o cargo disputado é o de presidente da república.

Andre Penner/AP
Aecio Neves, presidential candidate of the Brazilian Social Democracy Party, PSDB, right, greets Brazil's President Dilma Rousseff, presidential candidate for re-election of the Workers Party, PT, during a presidential debate in Sao Paulo, Brazil, Tuesday, Oct. 14, 2014. Rousseff and Neves will face each other in a presidential runoff on Oct. 26. (AP Photo/Andre Penner)

Independentemente do resultado desta corrida presidencial, é necessário que uma data entre para a História das eleições deste país: 18 de outubro de 2014.

Ela será o marco - pelo menos até o momento em que este texto é escrito, madrugada do dia 19 de outubro de 2014 - de uma eleição que já entraria para a História por outros motivos, a saber: um dos candidatos (Eduardo Campos) morre tragicamente às vésperas do início da campanha; um escândalo de corrupção sem precedentes (na Petrobrás) tem detalhes divulgados; e um partido de esquerda (o PT) promove a campanha de desconstrução de um adversário (Marina Silva) de nível mais baixo desde 1989.

O 18 de outubro ficará conhecido como o dia em que esse mesmo partido de esquerda conseguiu o que muitos consideravam impossível: cruzou a linha de baixarias do segundo turno da eleição de 1989 (entre Fernando Collor de Mello e Luís Inácio Lula da Silva) e fez da atual campanha a mais suja e abjeta desde a redemocratização do país.

Sobre o dia 18 de outubro de 2014, um sábado, os historiadores e cientistas políticos poderão dizer que, no segundo turno da eleição presidencial, um ex-presidente da república (Lula) - talvez o melhor e mais popular da história deste país -, insinuou, num comício em favor da candidata à reeleição do seu partido (Dilma Rousseff), que o candidato adversário (Aécio Neves) bate em mulheres.

Mas isso foi o de menos. Antes de o evento ter início, um "mestre de cerimônias" leu um texto escrito por uma psicóloga ligada ao partido. Entre outras coisas, a psicóloga afirmou que o adversário tem um "transtorno mental", e se referiu a ele como "cafajeste", "ser desprezível" e "playboy mimado".

Após o discurso do ex-presidente, como que para fechar com chave de ouro, um rapper convidado afirmou que o candidato adversário fazia festas regadas a "pó royal", uma gíria para se referir à cocaína.

Um partido que outrora empunhava as bandeiras da ética e da honestidade recorrer a tais subterfúgios é de uma falta de escrúpulos gritante. Resultado do desespero de quem se vê prestes a perder o poder.

Os nossos historiadores e cientistas políticos terão dificuldades para encontrar palavras que definam com exatidão o quão grotesco foi esse episódio. Ainda que as insinuações correspondam à realidade - o candidato adversário repudia todas elas, claro -, é moralmente inaceitável que esses "fatos" - se é que são mesmo fatos, já que não existem provas - sejam trazidos à baila somente agora, poucos dias antes da votação.

Sabe-se que não existem santos na política, e que nela impera o vale-tudo. Mas é preciso ter limites, principalmente quando o cargo disputado é o de presidente da república.

Seja lá quem vença esta eleição, sairá moralmente derrotado. Porque ambos os candidatos percorrem o caminho da troca de acusações, em vez do caminho do debate de ideias. Mas o peso dessa derrota será maior para o PT, ainda que vença nas urnas. Eleição não é briga de criança, mas foi o PT quem começou a baixaria - e é ele quem vem quebrando os recordes da insensatez. O candidato Aécio Neves não tem outra escolha a não ser rebater as acusações e revidá-las com denúncias envolvendo o PT.

De tudo isso, eis o que realmente importa: nós, cidadãos brasileiros, é que estamos perdendo. Miseravelmente.

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