OPINIÃO
03/06/2014 12:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

<em>A verdade sobre o caso Harry Quebert</em>, de Jöel Dicker

2014-06-02-hq.jpg A trajetória de A verdade sobre o caso Harry Quebert (Intrínseca, 576 págs., tradução de André Telles), segundo romance do escritor suíço Jöel Dicker, impressiona. Publicado em setembro de 2012 na França, o livro alcançou o topo da lista de mais vendidos no país, desbancando o maior sucesso editorial dos últimos tempos, o romance erótico Cinquenta tons de cinza. O mesmo aconteceu na Espanha e na Itália, mas nesses países o "destronado" foi Inferno, mais recente obra de Dan Brown, há anos um dos autores mais vendidos em todo o mundo.

O sucesso não era somente de público, mas também de crítica. Jornais e revistas europeus chegaram a ver, no livro de Dicker, características que o aproximariam de autores como Philip Roth e Vladimir Nabokov. Resultado: a Penguin Books norte-americana comprou os direitos de publicação da obra pelo que, em nota de divulgação, declarou ser a maior aquisição da história da editora, em termos financeiros.

A trama de A verdade sobre o caso Harry Quebert é situada na pequena cidade de Aurora, nos Estados Unidos. Lá, nos idos de 1975, uma garota de 15 anos, Nola Kellergan, desaparece, e seu destino se torna um mistério até o ano de 2008, quando, por acaso, seus restos mortais são encontrados no jardim da casa de Harry Quebert, um famoso escritor que décadas atrás decidiu adotar a cidade como lar.

Preso como suspeito do assassinato não apenas de Nola, mas também de Deborah Cooper, uma senhora que viu a garota ser perseguida por um homem e que, momentos depois de avisar a polícia, abrigou por alguns momentos a menina em sua casa, Quebert vê toda a opinião pública se voltar contra ele. Principalmente depois de o país tomar conhecimento de que foi encontrado, com os restos mortais de Nola, os originais de As origens do mal, romance que catapultou sua carreira e é considerado como sua obra-prima, com uma dedicatória: "Adeus, Nola querida".

Acuado, Quebert admite que teve um caso com Nola. A partir daí, seu livro, até então um romance sobre a história de amor entre um homem e uma mulher, passa a ser visto como a relação entre um pervertido de 34 anos e uma garota de 15. É o fim não apenas da carreira do grande escritor, mas também de sua vida: se for comprovado que ele é mesmo o autor dos crimes, sua punição será a pena de morte.

Ao tomar conhecimento das notícias, o jovem escritor Marcus Goldman, amigo e pupilo de Quebert, que está passando por uma crise criativa e não escreve uma linha sequer há mais de um ano, decide ir para Aurora apoiar seu mestre, e começa a fazer uma investigação paralela à da polícia, certo de que Harry é inocente. A cada descoberta, Goldman descobre que vários cidadãos de Aurora, aparentemente pessoas tranquilas e sem segredos, têm muito a esconder.

Repleto de reviravoltas, o romance de Jöel Dicker mistura diversos elementos literários, e talvez seja essa a causa do seu sucesso estrondoso: há um crime e, como consequência, uma investigação; há uma relação amorosa (Quebert e Nola); há um forte laço de amizade entre dois personagens (Quebert e Goldman); há humor (a mãe preocupada e por vezes quase delirante do jovem escritor); e até mesmo autoajuda, com os conselhos sobre vida, literatura e boxe que Harry Quebert dá a seu pupilo.

Mas talvez seja a própria literatura a personagem principal de A verdade sobre o caso Harry Quebert. As investigações de Goldman acabam se tornando um livro em potencial, e ele aceita a proposta de seu editor - o inescrupuloso e oportunista Roy Barnaski - para escrevê-lo. Esse livro - e todo o seu processo de apuração e escrita -, cujo título é, justamente, A verdade sobre o caso Harry Quebert, muda a vida de muitas pessoas, o que pode ser uma metáfora utilizada por Dicker para mostrar o poder que a literatura pode ter em nossas vidas.

Romance ambicioso, A verdade sobre o caso Harry Quebert tem algumas falhas, talvez provocadas pela pretensão de seu autor. Há alguns trechos que poderiam ser melhorados e talvez um excesso de reviravoltas, mas nada que tire o seu brilho. Algumas dessas "falhas" provavelmente foram propositais, como o tom melodramático de alguns diálogos entre Nola e Harry, ou o tom pastelão de algumas conversas entre Marcus e Perry Gahalowood, sargento da polícia estadual que, apesar da implicância com o jovem autor, o ajuda nas investigações.

Como diz Quebert, no epílogo do romance, "Um bom livro, Marcus, não se mede somente pelas últimas palavras, e sim pelo efeito coletivo de todas as palavras que as precederam. Cerca de meio segundo após terminar o seu livro e ler a última palavra, o leitor deve se sentir invadido por uma sensação avassaladora. Por um instante fugaz, ele não deve pensar senão em tudo que acabou de ler, admirar a capa e sorrir, com uma ponta de tristeza pela saudade que sentirá de todos os personagens. Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter terminado".

Esse é, na maioria dos casos, o retrato perfeito dos leitores de A verdade sobre o caso Harry Quebert.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.