OPINIÃO
23/02/2015 23:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Carnaval entre livros

Dependente literário em tratamento, me comprometi a reduzir a aquisição de livros, mas vez por outra tinha minhas recaídas. Para não aborrecê-la, às vezes comprava alguma coisa e não a avisava. Compreensiva, ela não se chateou. Apenas falou que eu poderia ter-lhe dito, não haveria problema.

É domingo de carnaval e, na falta de espírito carnavalesco para acompanhar a festa e de verba (alô, Brasília!) para fazer uma viagem, decidimos arrumar meus livros.

Na verdade, começar a arrumar. Não obstante vendas e doações feitas recentemente, são muitos os livros acumulados nos últimos doze anos, período em que comecei a adquiri-los, recebê-los e ganhá-los com frequência.

O primeiro passo é retirá-los da estante maior, que ela me deu de presente anos atrás. Depois, começamos a limpá-los, um a um.

E também a estante, claro. Depois de aspirar a poeira acumulada embaixo e atrás dela, a deslocamos alguns centímetros para a esquerda, para que à sua direita possamos colocar uma menor, que já estava vazia, à espera dessa faxina literária.

O terceiro passo é guardar os livros. Se ela não me fizesse desistir da ideia de organizá-los peculiarmente, numa ordem cujos critérios apenas eu conheço, seria um processo bastante lento.

Ela diz que, se procedermos da forma que desejo, "vamos passar o dia inteiro nisso". Como tínhamos de sair para almoçar em poucas horas, concordei. Ao menos da boca para a fora. Ao mesmo tempo em que limpávamos os livros, eu tentava disfarçadamente organizá-los da tal maneira peculiar.

De uma terceira estante, que ficou para ser arrumada em outra oportunidade, tirei as obras de Philip Roth, Paul Auster, J.M. Coetzee, George Orwell e Christopher Hitchens e as coloquei na menor. Dela também saíram títulos de Haruki Murakami e Scott Fitzgerald.

Antes que me acusem de citar apenas estrangeiros, foram transferidos, também para a menor, livros de Erico Verissimo, Lygia Fagundes Teles, Miguel Sanches Neto, Daniel Galera, Bernardo Carvalho, Vanessa Bárbara e Sérgio Rodrigues, entre outros autores nacionais.

Seguindo a tal ordem peculiar, na primeira prateleira da estante maior ficaram Murakami, Rubem Fonseca, Orhan Pamuk, William Kennedy e outros. Na segunda, ficaram os mineiros: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Murilo Rubião, Jaime Prado Gouvêa, Humberto Werneck, entre outros - inclusive um intruso: o carioca Vinicius de Moraes.

Feito isso, decidi deixar a ordem de lado e apenas ir guardando os livros. Mas é claro que, vez ou outra, mantendo alguma harmonia. Os do Cortázar, do Will Self, da Carson McCullers, do Calvino e do Bolaño ficaram juntos, por exemplo.

Às vezes parava a arrumação para perguntar se ela lembrava deste ou daquele volume.

"Este trouxemos de São Paulo."

"Mas onde compramos?"

"Não lembro."

"Não compramos, pegamos na redação da Brasileiros. E este aqui?"

"Não lembro também."

"Você me deu de presente!"

"Ah, eu já te dei tantos livros, não tenho como lembrar de todos."

Ela fazia também as suas descobertas.

"Não lembro deste aqui."

"É que eu comprei ano passado."

"E nem me avisou que comprou..."

Dependente literário em tratamento, me comprometi a reduzir a aquisição de livros, mas vez por outra tinha minhas recaídas. Para não aborrecê-la, às vezes comprava alguma coisa e não a avisava. Compreensiva, ela não se chateou. Apenas falou que eu poderia ter-lhe dito, não haveria problema.

Tudo isso fizemos ouvindo música, cantando, dançando - ela, não eu - e com máscaras - cirúrgicas, não de carnaval. Apesar do cansaço, nos divertimos bastante. E ficamos felizes com o resultado, apesar de sabermos que o trabalho está apenas começando.