OPINIÃO
23/07/2014 14:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A Copa acabou, mas ainda não chegou ao fim

No fim, as maiores críticas não foram feitas a aspectos ligados à organização da Copa, mas sim à nossa seleção. E a maior preocupação de muitos brasileiros, hoje, não é o legado da Copa, mas sim o que acontecerá com o nosso escrete.

Matthias Hangst via Getty Images
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JULY 13: Germany celebrate with the World Cup trophy after defeating Argentina 1-0 in extra time during the 2014 FIFA World Cup Brazil Final match between Germany and Argentina at Maracana on July 13, 2014 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Matthias Hangst/Getty Images)

Algumas semanas antes do início da Copa do Mundo, tive a oportunidade de passar por dois aeroportos brasileiros, viajando a trabalho. Na ida, embarquei no aeroporto Dois de Julho (rebatizado de Luís Eduardo Magalhães em 1998), em Salvador, e desembarquei no aeroporto de Viracopos, em Campinas. Na volta, fiz o caminho inverso.

Resultado dessa experiência pré-Copa: se antes da viagem eu dizia que o Brasil passaria a maior vergonha de sua história durante a Copa do Mundo, depois dela passei a ter certeza.

Sim, admito: fui um dos "profetas do apocalipse". Não presenciei o caos aeroviário, mas ambos aeroportos, passando por reformas externas e com a estrutura interna precisando de reparos, confirmaram o que se dizia por aí: quando a Copa começar, o caos vai tomar conta não apenas dos aeroportos, mas de todo o país.

Desde sempre contra a Copa no Brasil - ou seja, desde antes da confirmação de que sediaríamos o evento -, e conhecedor da incapacidade generalizada brasileira, principalmente na gestão pública - nesse aspecto, fui durante algum tempo espectador privilegiado: tive a "oportunidade" de trabalhar durante alguns meses na Secretaria de Comunicação da prefeitura de minha cidade, e posso dizer que não gostei do que vi -, o fracasso da Copa no Brasil era tido como certo, para mim. Hoje, sabemos que tudo foi bem diferente do apregoado meses antes - não apenas por alguns de nós, mas também por boa parte da imprensa nacional e internacional.

A Copa foi um sucesso, e a maior vergonha de nossa história não aconteceu fora de campo, mas dentro dele, com a derrota que nos foi imposta pela seleção alemã, a campeã do torneio. Para quem não sabe (será que existe alguém no mundo que não saiba?), perdemos pelo acachapante placar de 7 a 1.

As maiores críticas não foram feitas a aspectos ligados à organização da Copa, mas sim à nossa seleção. E a maior preocupação de muitos brasileiros, hoje, não é o legado da Copa, mas sim o que acontecerá com o nosso escrete.

É claro que, nos próximos meses, ou a partir de 2015, começaremos a ter que lidar com os elefantes brancos erguidos para o torneio da FIFA - principalmente a Arena Amazônia (Manaus) e a Arena Pantanal (Cuiabá), pois seus estados não têm campeonatos de futebol com apelo para levar muito público a eles -, mas, por enquanto, há muito o que se discutir sobre o nosso futebol, que amarga uma "crise branca" há anos - quem o organiza sabe que ele está afundando, mas faz de conta que não vê.

Calhou de a maior vítima dessa crise ser a seleção brasileira, e justamente quando disputava uma Copa do Mundo no Brasil. Faltou ao nosso escrete, carente de grandes talentos individuais, mais que um bom técnico - Luiz Felipe Scolari, agora, não é um bom técnico; o curioso é que, quando do seu anúncio como treinador desta seleção, ano e meio atrás, era. Faltou qualidade aos jogadores (muitos deles não estavam em boa fase, como Oscar, Paulinho e Fred), faltou preparo psicológico (não só para a Copa, mas na carreira de vários atletas; o único que parece ter algum tipo de orientação é Neymar), faltou planejamento (foram poucos os treinos táticos), enfim, a sensação que fica é a de que faltou levar a coisa mais a sério.

Que essa Copa sirva de lição não apenas para a nossa seleção, mas também para quem faz o futebol do nosso país. Que não apenas nossas derrotas - além da goleada diante da Alemanha, perdermos para a Holanda, por 3 a 0 -, mas também nossas vitórias - mais por falta de qualidade dos nossos adversários, alguma sorte e alguns lampejos de Neymar - nos faça perceber algumas coisas.

A seleção da Alemanha mostrou que um time pode ir muito longe, mesmo sem ter um craque, um gênio. Com organização, planejamento e determinação é possível alcançar resultados incríveis. (A bem da verdade, livros de autoajuda também dizem isso.) E, no que se refere aos alemães, isso não vale apenas para o futebol. A Alemanha é talvez a única nação europeia que conseguiu passar praticamente ilesa pela crise econômica que assola o velho continente há anos e destruiu financeiramente, por exemplo, a Grécia.

Enquanto estiveram aqui, no Brasil, concentrados em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, os alemães foram muito bem recebidos pelos moradores da região. E os atletas agradeceram a hospitalidade com muita simpatia e humildade, o que cativou não apenas os baianos, mas todo o Brasil. Além da simpatia, os alemães demonstraram também generosidade, e fizeram uma doação de dez mil euros para uma comunidade indígena da região.

Uma grande prova da integração que aconteceu entre alemães e baianos está num tweet do escritor Paulo Scott, publicado após a seleção alemã conquistar o título de campeã do mundo: "Que pá de cal no Brasil: seleção alemã celebrando a cultura indígena como uma seleção brasileira jamais faria, jamais fará".

É uma pena perceber que jogadores alemães conseguem ser mais cativantes do que nossos próprios atletas. Sinal de que muitas coisas não estão indo bem, e elas precisam ser melhoradas.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS COPA NO BRASIL POST:

Galeria de Fotos Os melhores memes da Copa 2014 Veja Fotos