OPINIÃO
02/12/2014 12:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02

'Sinto uma devastadora preguiça de dezembro'

Sinto uma devastadora preguiça deste mês. Preguiça do Papai Noel vestindo aquela roupa quente e a barba que deve abrigar uma fedentina azeda e insuportável. Preguiça de ver aqueles pinheiros cheios de bolas coloridas e alguns pedaços de algodão despedaçados para imitar a neve.

Eric Audras via Getty Images

Sinto uma devastadora preguiça deste mês.

Preguiça do Papai Noel vestindo aquela roupa quente e a barba que deve abrigar uma fedentina azeda e insuportável.

O Papai Noel dos trópicos deve sentir tanta raiva de ficar por aqui, sentado o dia inteiro naqueles shoppings cafonas, que no dia vinte e quatro sai vazado e sequer se preocupa em deixar presentes para as crianças mais pobres.

Deve-se avisar o bom velhinho para tomar certos cuidados este ano. Dessa vez, não são os punks que desejam chutar o seu traseiro. Caso ele, inadvertidamente, cruze um protesto em defesa do retorno dos dinossauros ao poder, ele pode tomar uma surra por usar aquela roupa toda vermelha. E não adianta dizer que o traje é uma referência à Coca-Cola, porque a turma anda meio intransigente ultimamente.

Preguiça de ver aqueles pinheiros cheios de bolas coloridas e alguns pedaços de algodão despedaçados para imitar a neve. Sinceramente, quando chega dezembro eu só penso nos coqueiros e no sol ardente e revigorante.

Preguiça dos amigos secretos. Eles agora estabelecem faixas fixas de preço. Com um mínimo e um máximo que se deve gastar na "lembrancinha". Tem comissão organizadora e tudo. O valor mínimo tem como objetivo que ninguém saia prejudicado, recebendo um presente supostamente ruim. Já o valor máximo é para que os outros não se sintam constrangidos por terem comprado um presente modesto ao seu amigo secreto. O valor máximo visa também evitar outros problemas como o assédio sexual oculto, o puxa-saquismo com o chefe e também não "inflacionar o mercado", impulsionando os preços para cima a partir da histeria coletiva.

O pior é quando alguém nos primeiros dias de dezembro te pergunta: "Vai participar do amigo secreto?".

Por dentro todo mundo responde: "paaaatcha que pariu".

Mas inevitavelmente concorda com a brincadeira, pois ficar de fora evidenciaria como somos azedos, anti-sociais, intolerantes, metidos, arrogantes, mãos-de-vaca. Tudo isso junto numa só recusa. Por isso aceitamos.

Proponho que para os próximos anos haja o "Meu amigo sou eu". Todo mundo compraria um presente para si mesmo. Depois, todos se encontrariam para mostrar como é legal o seu auto-presente. Sairia todo mundo feliz, com o presente que realmente gostaria de ter recebido. Porque ninguém conhece mais a gente do que nós mesmos.

E as festas de confraternização? Sinceramente, de festa eu sempre gosto. Mas é muito irritante ver duas pessoas que se odeiam se abraçando ao som de: "We are de Champions, my friend".

E aquela pessoa rígida, travada, que se leva muito a sério, super apegada ao próprio poder, tentando no último dia do ano passar uma imagem mais irreverente e descontraída dançando "conga conga conga"?

E quando as pessoas se odeiam? Nessa época ficam obrigadas a desejar o melhor umas às outras, demonstrando um acréscimo de solidariedade para logo no começo do ano voltarem à rotina do maldizer.

Sei que nem todo mundo é chato como eu. Aliás, o fato de se assumir como chato é libertador, pois nos livra da pretensão de estar correto enquanto todos os outros estariam errados.

Esbaldem-se nos shoppings, disputando durante horas uma vaga no estacionamento. Visitem as lojas em meio às crianças gritando e fazendo birra.

Meus amigos e parentes devem achar que sou mão-de-vaca. Nunca rola um presente bacana. Mas não é nada disso. A questão não é o dinheiro. Se eu tenho nem ligo de gastar. Acontece que eu odeio loja. Não por acaso os dezembros me causem um nível elevado de irritação.

Antecipadamente agradeço a compreensão de todos.

Texto publicado originalmente no blog do Rafael Castilho.

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