OPINIÃO
08/01/2015 17:03 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

'Na França, terroristas islâmicos e extrema-direita se alimentam mutuamente com seus discursos de ódio e divisão'

Ouvi de dois garotos franceses de origem árabe - 11 e 12 anos - a história de como eles escutaram de dentro do apartamento onde moram, ao lado da redação, o barulho das Kalashnikovs disparando contra os policiais e os gritos finais de Ahmed, que aparece no vídeo. Uma outra senhora moradora do bairro, leitora do "Charlie' desde os anos 60, se posicionava firmemente contra aquilo que presenciava: "É preciso matar todos os fascistas".

REUTERS

A noite de insônia, o corpo moído e a cabeça inquieta pareciam prenunciar o dia que eu viveria - interminável, doloroso, desprovido de qualquer sentido.

Um dia sem grandes expectativas iria se transformar em um dos mais marcantes da minha vida, no momento em que vi na internet a imagem que se repetiria em loop na minha mente: a do policial que, estirado no chão e pedindo por clemência, recebe uma bala na cabeça, aos gritos de "Allahu Akbar" - Deus é maior, em árabe. Ahmed Merabet, também muçulmano, foi uma das doze vítimas do atentado terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo.

Resolvi me dirigir ao local do massacre, no lado leste de Paris, próximo à Bastille. No metrô, era possível dividir os passageiros em dois tipos: os que ainda não sabiam de nada e iam de um lugar ao outro entediados e os que já sabiam do que acontecera mais cedo - faces atônitas, rostos perdidos, as mãos frenéticas digitando nos celulares.

Cheguei ao local do crime a tempo de testemunhar as ambulâncias saírem com os mortos ou feridos, assim como o picadeiro montado com a subsequente aglomeração de jornalistas do mundo todo. Carros e motos de polícia em alta velocidade cruzavam a cidade em busca dos

criminosos.

Ouvi de dois garotos franceses de origem árabe - 11 e 12 anos - a história de como eles escutaram de dentro do apartamento onde moram, ao lado da redação, o barulho das Kalashnikovs disparando contra os policiais e os gritos finais de Ahmed, que aparece no vídeo.

Uma outra senhora moradora do bairro, leitora do "Charlie' desde os anos 60, se posicionava firmemente contra aquilo que presenciava: "É preciso matar todos os fascistas".

Voltando de metrô com amigos, vimos um homem com longa barba, cuja mente parecia estar em outro lugar e que levava uma mochila cheia - do quê? Despertou a suspeita geral. Muitas pessoas levantaram e mudaram de vagão, mas a suspeita se mostrou infundada. Medos individuais que talvez prenunciem uma reação política que começa a ganhar corpo.

A França é o país da Europa Ocidental com a maior comunidade muçulmana - cerca de 9% da população geral. Ao mesmo tempo, nos últimos anos se viram aqui algumas das manifestações mais veementes contra a assimilação dos imigrantes nas sociedades da Europa, assim como as reações mais violentas dos excluídos.

Uma opinião frequentemente disseminada pelo conservadores nacionalistas é a de que os franceses têm um jeito de viver e pensar, e espera-se que aqueles que imigram para cá que se adaptem a essa cultura.

Há tempos a extrema-direita afirma existir a chamada "questão muçulmana": uma suposta ameaça de corrupção dos valores "tradicionais" franceses pelo imenso fluxo migratório árabe e africano, que traria consigo valores que eventualmente se chocariam com os europeus. O discurso se acirrou nos últimos anos com a subida do Front National, partido ultrarreacionário fundado pelo famigerado Jean-Marie Le Pen, que uma vez disse querer vetar jogadores de futebol negros ou árabes na seleção francesa. O partido hoje é liderado por sua filha Marine, com tom igualmente segregacionista, anti-imigracionista e nacionalista. Marine que usa o momento para se alavancar politicamente com um discurso repugnante, que pede sangue e vingança.

Buscando explorar a fantasiosa divisão do país entre os "verdadeiros" e "falsos" franceses, rapidamente o Front Nacional passou de um agremiação folclórica à terceira força política da França, atrás apenas dos socialistas ligados ao presidente socialista François Hollande e da centro-direita representada pelo grupo de Nicolas Sarkozy.

Mas este cenário pode mudar na próxima eleição presidencial, que vai ocorrer em 2017. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, o Front National foi o grande vencedor, com 24,8% dos votos, e os atentados de ontem sugerem que finalmente o partido possa se colocar com chances reais de chegar ao poder.

A liberdade de expressão, o direito à ofensa, a tolerância e a possibilidade de uma sociedade onde diferentes opiniões podem conviver são alguns dos valores que os franceses mais prezam na sua própria cultura - são o legado da França revolucionária ao mundo. Mas é preciso notar que dentro das estruturas de classe e da longa história do colonialismo europeu sobre diversos povos, a troca de informações não é isenta de intenções políticas. Como disse a cartunista Laerte, "não existe piada neutra".

É notória a falta de representação política e midiática dos imigrantes que formam parte considerável da classe trabalhadora francesa. O Charlie Hebdo explorava com inteligência, muitas vezes, as contradições inerentes de diversas religiões e grupos políticos. Mas algumas charges descambam para a criação do estereótipo do muçulmano lunático e violento, reforçado pelos personagens que se assemelham ao falecido Bin Laden.

Rechaço o emprego de violência e condeno o ataque veementemente. Mas consigo entender que tais charges sejam ofensivas para aqueles que já são ostracizados nessa sociedade, que ocupam as mais mais baixas posições no mercado de trabalho e que frequentemente são atraídos, pela falta de oportunidade, para a criminalidade e o tráfico de drogas (60% da população carcerária francesa é formada por muçulmanos).

A maioria dos imigrantes muçulmanos de primeira ou segunda geração ocupa os chamados 'banlieues", conjuntos habitacionais nas cidades periféricas a Paris criados para assimilar o fluxo imigracional que começou a partir da década de 60. O isolamento e a falta de perspectiva de melhorias econômicas e sociais fazem desses locais verdadeiros celeiros para o recrutamento de futuros extremistas.

Na minha visão, terroristas islâmicos e extrema-direita se alimentam mutuamente com seus discursos de ódio e divisão. Neste momento, somente a união, o respeito mútuo e a tolerância podem salvar a França de uma tragédia anunciada.

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