OPINIÃO
22/03/2014 08:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

A Copa do Mundo no cinema (Grupo A)

Fiz uma brincadeira unindo futebol e cinema. Neste primeiro post, um filme do país de cada seleção do Grupo A. Quem se classificaria na chave do Brasil nesta Copa do Mundo do cinema?

A menos de 100 dias para a Copa do Mundo, todas as atenções já estão voltadas para o Mundial do esporte mais popular do planeta. Pensando nisso, quis fazer uma brincadeira unindo futebol e cinema: relacionar filmes produzidos nos países participantes do torneio com o atual momento de cada seleção.

Neste primeiro post da série de oito, falamos sobre o Grupo A. Então, quem você acha que se classificaria na chave do Brasil nesta Copa do Mundo do cinema?

Ah, e tento não sugerir filmes tão óbvios. Se bem que isso às vezes é irresistível.

CROÁCIA: Os Filhos do Padre (Svecenikova Djeca) - 2013

A desconcertante comédia do cineasta Vinko Bresan combina bem com o atual momento da seleção da Croácia. Mesmo antes de sua participação na Copa do Mundo, o time que enfrenta o Brasil na abertura da competição já se envolveu em uma grande polêmica. Após a vitória que deu a vaga ao país no Mundial (contra a Islândia por 2 a 0, em Zagreb), o zagueiro Josip Simunic tomou o microfone do locutor do Estádio Maksimir e gritou para torcida -- que prontamente respondeu em alto e bom som -- uma saudação nazista. Pelo gesto, o jogador foi suspenso por 10 partidas e ficou de fora da Copa. O país (que se tornou independente da Iugoslávia em 1991) fica nos Balcãs, uma região que é um barril de pólvora étnico-religioso e que já explodiu algumas vezes. Esse balaio de gato cultural é retratado no filme com um humor para lá de ácido, que desce o pau na igreja católica e mete o dedo em feridas ainda não cicatrizadas do país.

Qual a história? Preocupado com a baixa taxa de natalidade de uma pequena -- e muito católica -- ilha do litoral croata, o recém-chegado padre Fabijan conta com a ajuda de dois comerciantes locais para furar todas as camisinhas vendidas na cidade para que comecem a nascer mais gente no povoado do que morrer. O plano começa a dar certo, mas logo as coisas saem do controle do trio, que vê os moradores locais sofrerem as graves consequências dessa ideia maluca.

CAMARÕES: Chocolate (Chocolat) - 1988

A República dos Camarões, como diversos países africanos, sofreu com o imperialismo europeu. O país já foi controlado por portugueses, alemães, ingleses e franceses. E é sobre a relação da população local com o domínio, principalmente da França, que o primeiro filme da excelente diretora Claire Denis fala. Passado nos anos 1950, 10 anos antes da independência de Camarões, a fita tem como personagem central o "garoto" (termo racista para um tipo de ajudante pau para toda obra) Protée, um jovem que "trabalha" na mansão de um casal francês. Forte e orgulhoso, ele personifica o fim da era dos abusos sofridos pelos africanos na mão de seus colonizadores. Assim como o a figura que representa o personagem, a seleção camaronesa foi a primeira do continente a mostrar a força do futebol africano ao resto do mundo. Em 1990, na Itália, os Leões Indomáveis -- liderados pelo veteraníssimo atacante Roger Milla -- surpreenderam o mundo ao bater a Argentina por 1 a 0 na abertura da competição. Eles terminaram o Mundial em sétimo lugar. Já em 2014, outro veterano assume a posição de líder do time, o atacante Samuel Eto'o, mas a equipe -- e o próprio jogador -- não vive seus melhores dias.

Qual é a História? A jovem France volta a Camarões para relembrar sua infância, quando viveu com sua família em uma fazendo no território camaronês controlado pela França. Daquela época, sua maior recordação é a relação que tinha com um dos empregados de seus pais: o jovem africano Protée.

MÉXICO: E Sua Mãe Também (Y Tu Mamá Tambien) - 2001

Chegada a fazer umas molecagens contra o Brasil nos últimos anos, a seleção mexicana vive um dilema às vésperas da Copa do Mundo de 2014: apostar apenas nos jogadores que atuam no país ou dar espaço às estrelas que jogam fora do México, como os atacantes Chicharito Hernandez (Manchester United) e Giovani dos Santos (Villareal)? Na repescagem em que massacrou a Nova Zelândia, a seleção mexicana apostou em um time formado apenas por atletas de clubes da casa, uma afirmação de suas origens. Assim como o espírito dos comandados de Miguel Herrera, os adolescentes Tenoch e Julio, protagonistas do quarto longa do diretor Alfonso Cuarón (atual vencedor do Oscar de Melhor Diretor com 'Gravidade') embarcam em uma reveladora viagem por seu país. Mas será que o escrete mexicano finalmente deixará de ser apenas um moleque travesso para mostrar de vez que seu futebol amadureceu?

Qual é a história? Depois que suas respectivas namoradas embarcam em uma viagem pela Europa, os amigos adolescentes Enoch e Julio tentam impressionar Lucia, a linda e jovem esposa espanhola do tio de Tenoch, Jano. Eles convidam a moça a ir com eles a uma praia que na verdade não existe, achando que ela nunca aceitaria o convite. Porém, desgostosa ao descobrir que seu marido a traiu, Lucia topa a aventura e os dois garotos a levam em uma reveladora jornada pelo México.

BRASIL: Barbosa - 1988

Sendo a Copa no Brasil e com a final já marcada para o Maracanã, a escolha do representante brasileiro não poderia ser outra que não 'Barbosa'. O curta de Jorge Furtado - um mestre no formato, mas que nunca conseguiu decolar com um longa - trata do maior trauma do futebol do país: a final do Mundial de 1950. Mesmo com apenas 13 minutos de duração, o filme retrata com exatidão o clima de desilusão que parece ter impregnado no imaginário nacional depois do gol de Ghiggia, que acabou com o sonho do primeiro título da seleção (que ainda nem usava a icônica camiseta "canarinho"), ainda mais em casa e em plena euforia desenvolvimentista dos anos 1950. De quebra, a película ainda dá uma explicação (bem engenhosa, por sinal) para a falha do goleiro Barbosa, que ficou marcado por toda a sua vida como o grande culpado da derrota para o Uruguai. E pode ter certeza, se o Brasil de Neymar chegar à final da competição, terá de enfrentar, além de seu adversário, o assustador fantasma da tragédia que ficou conhecida como Maracanazzo. Ainda mais se pegar a Celeste Olímpica na final. Seria histórico!

Qual a história? Um cientista de 39 anos constrói uma máquina do tempo para acabar com o maior trauma de sua vida: ter visto, com 11 anos, a derrota da seleção brasileira para a celeste uruguaia na final da Copa do Mundo de 1950 por 2 a 1, de virada. Ele embarca em uma viagem no tempo e vai direto ao maracanã na tentativa de avisar o goleiro Barbosa antes que ele tomasse o segundo gol do Uruguai.

Imagens: Divulgação.