OPINIÃO
07/05/2015 17:08 -03 | Atualizado 13/05/2019 12:10 -03

Três lições de liderança que aprendi sendo mãe solteira

Se, por um lado, é maravilhoso não ter que aturar sogra, mãe e pediatra dando conselhos completamente díspares sobre a hora certa de introduzir as frutinhas na dieta do bebê, por outro, criar um filho sozinha significa não ter com quem compartilhar o ônus de todas as escolhas.

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"Padecer" é a primeira resposta do Google para a busca "ser mãe é". A referência ao dito popular sinaliza uma tendência a encararmos a maternidade sob o prisma das perdas: de sono, liberdade, espaço no mercado do trabalho, libido e dinheiro.

Em torno de uma mãe solteira, os rumores são bem menos otimistas. "A sua vida acabou", é o que ouvimos de pessoas próximas. Ainda bem que eu nunca levei essa previsão a sério.

Longe de mim sugerir que alguém tenha filhos se faltam recursos. Engravidar aos 19, no primeiro ano de faculdade, órfã de pai e responsável por uma mãe com problemas psiquiátricos não foi fácil. Mesmo assim, preferi acreditar que filhos podem ser motor e não freio.

Vinte anos depois, dois diplomas universitários, três especializações, um livro publicado, alguns passaportes carimbados, histórias de amor para contar e projetos empolgantes pela frente, hoje vejo que a minha jornada com o Pedro valeu por um MBA.

O que aprendi e pode servir para mulheres que lideram foi:

1. Abrir mão do hipercontrole

A preocupação em não terceirizar a criação do meu filho estava me levando para o extremo oposto: o microgerenciamento. Eu achava que só eu no universo entendia aquele chorinho e sabia enxugar aquelas dobrinhas.

Até que, acabada a licença maternidade, tive de deixá-lo na creche e voltar à faculdade (me julguem!) porque o nosso futuro dependia daquilo.

Quando entreguei o meu bebê à cuidadora, eu fiquei oca por dentro. O coração estava sereno porque ele parecia protegido ali, mas o lado mais inconfessável do meu ego passou o dia esperando a diretora ligar dizendo que ele estava chorando - e com febre - (eu avisei que era o "lado mais inconfessável") por causa da minha ausência.

Não, isso nunca aconteceu. Ele voltava rosadinho, risonho, com a barriguinha e o sono regulados. Inventamos rituais só nossos, possíveis somente porque nenhum dos dois chegava esgotado no fim do dia. Eram aqueles os momentos que faziam de mim a insubstituível mãe do Pedro, então passei a ver vantagem em não ter de dar conta de tudo.

E o que isso tem a ver com liderança? Naquele ano, eu tinha decidido fundar e administrar um jornal de bairro sozinha. Quando me livrei da fantasia da polivalência, deleguei a publicidade e a distribuição, focando a parte editorial, que era o meu ponto forte e também o que definia a identidade do negócio.

A recompensa logo veio sob a forma de dinheiro e tempo para mim e para o meu filho.

2. Explicar os porquês

Mesmo quando foi preciso escolher entre voltar para casa de metrô ou comprar um pão de queijo, eu participei ao meu filho as questões difíceis. Na medida do que ele podia assimilar, claro.

Percebi que ele encarava melhor os perrengues, se eu explicasse os porquês da privação temporária e planejasse uma experiência bacana para quando tudo aquilo acabasse.

Não são só as crianças: todo mundo precisa de porquês! Líderes que ignoram isso e adotam o silêncio para evitar palpites ou blindar os colaboradores acabam dando lugar à paranoia e afastando a equipe na hora em que ela deveria estar mais coesa.

Ser transparente funcionou também quando liderei uma equipe de psicólogos desestimulados porque viviam recebendo com atraso. Prover uma visão clara da situação, além de uma perspectiva animadora, fez deles meus aliados.

3. Decidir rápido

Se, por um lado, é maravilhoso não ter que aturar sogra, mãe e pediatra dando conselhos completamente díspares sobre a hora certa de introduzir as frutinhas na dieta do bebê, por outro, criar um filho sozinha significa não ter com quem compartilhar o ônus de todas as escolhas.

Significa não contar com a prudência que vem do consenso, ter mais risco de errar e menos compreensão quando isso acontecer.

É não ter outra instância antes ou depois de você para atenuar ou corrigir um equívoco, como a escolha da escola cuja pedagogia não contempla o jeito de aprender do seu filho.

No âmbito profissional, vejo líderes que mais parecem sócias de institutos de pesquisa: viciadas em enquetes. Acontece que nem sempre há tempo para gerar consenso. Em situações críticas, é preciso agir na "golden hour", ou seja, a tempo de reverter a adversidade em força.

Ser mãe sozinha me ensinou a pesar argumentos racionais e emocionais com agilidade. Levei 15 dias entre a decisão e a mudança para o interior, porque lá meu filho poderia voltar para a escola particular. O mesmo aconteceu quando aceitei escrever um livro em três semanas e, três meses depois, estava dando autógrafos em Portugal.

Talvez você goste de saber que a segunda opção do Google para "ser mãe é" corresponde a "uma dádiva". Pelas razões que acabou de ler e por tantas outras que continuo a descobrir, essa é a definição que escolhi. Qual é a sua?

P.S.: Aproveito o tema para convidar você a participar do 1º Encontro On-line de Mães Solteiras. O evento é gratuito e está cheio de conteúdo para quem é ou se sente uma mãe sozinha. Basta se inscrever clicando aqui .

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