OPINIÃO
07/01/2015 18:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Quando as metas de ano novo são uma armadilha

Correndo o dedo pelo feed de notícias, parei numa foto que não era nem de praia nem de neve. Também não era de picolé importado nem de suco detox. Era a a lista de metas para 2014 que a minha amiga dizia não ter conseguido cumprir. Nem um itenzinho.

didmyself/flickr/creative commons

Correndo o dedo pelo feed de notícias, parei numa foto que não era nem de praia nem de neve. Também não era de picolé importado nem de suco detox. Era a a lista de metas para 2014 que a minha amiga dizia não ter conseguido cumprir. Nem um itenzinho.

Intrigada pela confissão corajosa, continuei a ler o post:

Dessa vez, eu não vou desdenhar do que eu não consegui. Não vou me fingir de empolgada com novos projetos. O ano acabou, mas meus sonhos não. Isso me irrita, mas não vou fazer chuva de papel picado com eles só porque é 31 de dezembro.

A autora do relato escapou de uma armadilha comum: a síndrome de Lisandra.

Lisandra era uma prima da minha mãe que se dizia feliz, até o marido se aposentar. Quando o tédio e as diferenças começaram a pesar, ela deu um jeito de reproduzir a dinâmica antiga, quando eles frequentemente tinham de se mudar por causa do trabalho dele.

Em três anos, o casal trocou o apartamento em São Paulo por uma chácara no interior, desfez o negócio, foi morar na praia, voltou para a cidade e, depois de perder dinheiro e saúde, cada um terminou na casa de um filho.

Viver mudando de lugar foi o jeito (pouco sustentável) que a Lisandra encontrou de tapear a insatisfação e de estar sempre começando.

Muitas de nós fazemos como a Lisandra, quando chega o fim do ano e a musiquinha pergunta "e o que você feeez...?". Nós preferimos mudar de metas a sanar as causas pelas quais elas não deram certo.

Se você engrossou o coro do "termina logo, 2014!", é possível que tenha feito, da virada, um pretexto para esconder, de você mesma, alguma pendência.

É desconfortável assumir a responsabilidade pelas cartas de cobrança que não pararam de chegar, pela calça jeans que não voltou a servir, pela paixão que não se soube reacender...

Mas o perigo de atualizar as metas a cada primeiro de janeiro é que o confronto com o nosso histórico de navegação a esmo só é adiado até o próximo momento-chave: quando uma pedra no rim estraga a viagem, o cara pede um tempo, a demissão vem por telegrama ou quando batem as idades cheias (os trinta, os quarenta, os cinquenta).

Nessas horas é que nos damos conta do quanto a obsessão pelo novo nos tem privado do prazer de comemorar a conclusão ou a permanência das coisas que valem a pena.

Afinal, quando o bacana é startup, quem tem coragem de continueup?

Quantos da sua rede se separaram no último mês? E quantos, do nada, surgiram "em um relacionamento sério"? Virar o ano com o mesmo status ou completar mais um na mesma profissão ficou tão obsoleto como pendurar o celular no passante da calça.

O desafio de 2015 - para mim e para você - é o desafio da moça do começo desse texto: manter uma decisão, se ela ainda fizer a sua alma vibrar. Porque sucesso tem menos a ver com um evento novo e muito mais com um processo nascido de uma promessa feita por você e para você.

Se os objetivos de 2014 eram os de uma vida inteira, não finja que desistiu deles. Apenas saiba que encarar um sonho antigo, sem desanimar, demanda entender por que ele ainda não aconteceu. Algumas pistas:

1. Faltou consagração: Escolhi essa palavra porque é preciso tornar sagrado o tempo de cuidar do seu sonho. É preciso trabalhar por ele, religiosamente, 15, 30, 60 minutos por dia. Decida já a forma de autossabotagem favorita que vai abrir lugar para o que interessa.

2. Faltou apoio: Fale sobre o seu sonho com alguém confiável, competente e capaz de ajudar com informação, contatos, suporte emocional ou qualquer outro recurso. Não subestime ninguém. O mundo está cheio de anjos em potencial.

3. Faltou orgulho: Seu sonho pode ser antigo como um celular sem touchscreen, mas ele é o protótipo do seu futuro. Se a turma acha bobo casar de véu e grinalda, dê um block na turma e siga todas as páginas de casamento que você quiser, porque se você tiver vergonha da sua meta, ela não vai acontecer.

4. Faltou coragem: Nada atrasa mais o sucesso grande do que os sucessos pequenos. As coisas que já conquistou tornam você mais resistente a correr riscos necessários. Se estiver nesse ponto, pense no propósito inicial. Lembra que ele não continha o medo, só o amor? Guie-se por ele.

P.S.: O melhor plano B ainda é investir direito no plano A. Feliz 2015!

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