OPINIÃO
23/04/2015 19:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Como a falta de sororidade atrapalha a sua carreira?

A liderança só vai deixar de ser um lugar frio e solitário para todas nós quando percebermos que sabotar a próxima é a forma mais eficiente de autossabotagem. Quando deixarmos de acreditar que só é possível crescer movidas pela competição, que não podemos dividir o bolo ou ficaremos com migalhas.

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Você já deve ter visto uma mulher alcançar um patamar profissional razoável e, a partir daí, evitar ser promovida. Se perguntar o porquê dos movimentos laterais no organograma, ela provavelmente vai dizer que prefere assim e que mais poder é mais encrenca.

Confesso que esse comportamento me deixa frustrada porque ainda serve de pretexto para as empresas não investirem na capacitação de mulheres para a liderança.

Por outro lado, compreendo quem decide desacelerar a subida, ainda mais quando vejo o quanto ainda podemos ser implacáveis com aquela que resolve se destacar.

Os comentários que li e ouvi sobre a candidatura de Hillary Clinton à presidência dos Estados Unidos ilustram bem esse tipo de reação: "Será que ela segura a onda sem surtar?", "Agora entendi por que ela perdoou a pulada de cerca do marido!" e "Depois do Obama, os democratas precisavam de um homem forte"...

Opiniões políticas à parte, é lamentável que as falas menos encorajadoras partam das mulheres. Em geral, das mesmas que assistem ao Oscar só para postar o look que deu ruim, ao invés de elogiar a atriz que mandou bem no discurso.

No ambiente de trabalho, essa hostilidade - velada ou não - se traduz em um dado pouco animador. De acordo com um estudo divulgado pelo The Wall Street Journal, as empresas com uma mulher entre os cinco cargos executivos de maior remuneração têm 51% menos chances de ter uma segunda mulher entre eles.

Uma interpretação possível: as que chegam lá não ajudam as outras a crescer. E como age uma sabotadora? Centralizando ou "delargando" tudo, motivando pelo medo, fazendo cobranças irreais e usando o feedback para humilhar.

Nesse contexto, ser promovida suscita perguntas do tipo "por que ela e não eu?" e respostas como "é claro que ela deu pra alguém". Passar por tudo isso incólume deve dar uma espécie de orgulho, que vira soberba quando não se reverte no empoderamento de outras mulheres.

Aquartelada em sua posição, essa líder acaba por perdê-la. Afinal, é impossível ser promovida e ser insubstituível ao mesmo tempo, e ninguém desenvolve pessoas enquanto se sente ameaçada por elas.

A liderança só vai deixar de ser um lugar frio e solitário para todas nós quando percebermos que sabotar a próxima é a forma mais eficiente de autossabotagem. Quando deixarmos de acreditar que só é possível crescer movidas pela competição, que não podemos dividir o bolo ou ficaremos com migalhas.

Se você também não se conforma em dizer que prefere trabalhar apenas com homens, saiba que é cada vez maior o número de mulheres substituindo esse script limitador pela prática da sororidade.

Essa palavra, ainda estranha por aqui, significa irmandade. Eu prefiro a versão portuguesa à inglesa sisterhood, para não confundirmos com as associações de estudantes que impõem missões cruéis às neófitas. A ideia é exatamente o contrário!

Sororidade é a capacidade de se irmanar com outras mulheres. Tem a ver com empatia e, como qualquer outra habilidade, pode ser desenvolvida.

Nos próximos posts, vou contar como as empresas têm facilitado o surgimento de comunidades não competitivas de mulheres, algumas para as quais eu tenho tido a honra de palestrar, mas o mais libertador na sororidade é que ela é uma decisão pessoal.

Basta cada uma de nós se comprometer a parar por um segundo e se perguntar - antes da piadinha, do comentário maldoso e da levantada de sobrancelha: a serviço de que está o meu comportamento? E só prosseguir, se ele empoderar a próxima.

Assim, não vai demorar muito e toda mulher vai sentir que é aceita, acolhida e apoiada em suas escolhas, até a de não crescer na profissão... Porque elas serão movidas pelo amor e não mais pelo medo.