OPINIÃO
28/10/2014 15:22 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Carta Aberta à Presidenta Dilma

A senhora diz que está mais serena e madura. Eu acredito nisso, mas, na minha modesta opinião, para ser modelo de excelência mundial em liderança feminina, o seu desafio continua a ser o de transcender a junioridade.

Felipe Dana/AP
Brazil's President Dilma Rousseff gives her acceptance speech during a press conference at a hotel in Brasilia, Brazil, Sunday, Oct. 26, 2014. Official results showed Sunday that President Rousseff defeated opposition candidate Aecio Neves of the Brazilian Social Democracy Party, and was re-elected Brazil's president. (AP Photo/Felipe Dana)

Cara Presidenta,

Por mais esquisito que seja o uso oficial da forma feminina para designar cargos públicos ocupados por mulheres, acato a sua preferência, porque além de estar em conformidade com a lei federal 2.749, de 1956, eu entendo que a questão do vocativo é mesmo delicada.

Às vezes, eu me pergunto como a senhora se sente quando a chamam - jocosa ou carinhosamente - de Dilmão. O meu palpite é de que a senhora prefere essa alcunha, qualquer alcunha, a ser tratada por Dilminha.

De fato, diminutivos não condizem com o seu physique-du-role, mas, se eu estiver certa, não é só isso. Vir ao mundo com o nome da mãe é nascer predestinada a ser eternamente inha, pelo menos em família.

Eis aí outro ponto em comum, para além de sermos mulheres e brasileiras: eu também recebi o nome da minha mãe e sei o quanto pode ser insuportável ser reduzida à miniatura daquela a quem nosso pai resolveu homenagear no cartório.

Complexo de Electra à parte, há quem diga que o nome herdado exerce tamanho impacto sobre a construção da identidade, que pode levar o indivíduo a empenhar toda uma vida na jornada pela diferenciação de seu progenitor homônimo.

A julgar pela sua história, a teoria faz algum sentido. Seu passado, permita-me o coloquialismo, não tá no gibi. Sabe, em menor escala, noutros tempos e à minha moda, também fui uma adolescente da pá virada.

Entretanto, não é para falar de mim que escrevo. É para dizer que aquele discurso da vitória apequenou a senhora. Iniciar, praticamente se posicionando como uma preposta, foi decepcionante. Fez a senhora parecer uma Dilminha. Depois de saudar o Lula, foi difícil conseguir silêncio, não foi?

Provavelmente, a senhora vai dizer que eu não entendo nada de marketing político (o que é verdade, graças a Deus) e que aquele não foi o último discurso da campanha Dilma 2014, mas o primeiro da campanha Lula 2018. Não importa. Eu esperava ter me comovido tanto quanto ou até mais do que com o discurso da posse, mesmo não tendo votado na senhora, em ambas as ocasiões.

Não me leve a mal. Não votei na senhora, em 2010, porque já não confiava na cúpula do seu partido e, agora, porque me sentiria mal de reeleger alguém que, para se reunir com os seus líderes, tem de frequentar a Papuda.

Mas, como vinha dizendo, chorei quando a senhora subiu a rampa pela primeira vez, por tudo o que isso representou para a causa do empoderamento feminino.

Agora, eu espero mais que comoção. Se, no primeiro mandato, eu queria ver uma líder, pelos próximos quatro anos, eu quero ver uma estadista.

Uma estadista não teria desperdiçado a oportunidade de exortar os seus eleitores a respeitarem os veículos de comunicação, quando começaram com aquele grito de guerra bobinho. Além de ser a coisa certa a fazer, seria uma forma de tranquilizar aqueles brasileiros que, como eu, temem ver ameaçada a liberdade de expressão.

A senhora diz que está mais serena e madura. Eu acredito nisso, mas, na minha modesta opinião, para ser modelo de excelência mundial em liderança feminina, o seu desafio continua a ser o de transcender a junioridade.

Sei que aí dentro ainda existe uma menina rebelde. E o que pode ser mais rebelde hoje, Presidenta, senão governar um Brasil inteiro, ao invés de trabalhar por um partido?

Eu e todas as brasileiras a apoiamos a fazer a coisa certa - pelos motivos certos.

Cordialmente,

Coração desarmado.

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