OPINIÃO
12/12/2016 18:45 -02 | Atualizado 12/12/2016 18:45 -02

Manifesto-convite pela integração e pelo diálogo

Kelly Simpson

Casa da Mãe Joanna e Projeto Salomé são projetos feministas independentes, com crenças e táticas em comum. A #CDMJ promove educação e comunicação sobre gênero em várias frentes, e o projeto Salomé realiza imersões com jovens negras sobre empoderamento feminino. Os dois projetos prezam o diálogo com escuta generosa e comunicação não violenta, para que não apenas as mulheres escrevam suas próprias histórias, mas também para que estas histórias encontrem ouvidos abertos.

O feminismo sempre pontuou o quão dificilmente as mulheres são ouvidas, e o feminismo negro sempre adicionou que mulheres negras tendem a não ser ouvidas e respeitadas inclusive por mulheres brancas. Produzir conhecimento apesar do (ou a partir do) silenciamento, infelizmente é algo com que estamos acostumadas, e por mais que acreditemos que brigar por espaço de fala por meio de disputas narrativas seja necessário e pertinente, estamos seguras de que esta não é a única estratégia possível.

Existe um modo de fazer política que é menos festejado e recomendado do que deveria, e que pode ser bastante eficiente. Ele é o diálogo.

O título deste texto, bem como a forma como ele foi escrito e compartilhado, são indicativos da proposta que visamos com ele fazer. A decisão de denominá-lo um "manifesto-convite" se dá pela impossibilidade lógica que seria chamá-lo apenas de "manifesto", visto que nossa intenção não é fazer (apenas) um exercício retórico de persuasão, mas também (e mais importantemente) um chamado para a possibilidade de produzir integração a partir do diálogo.

Compreendemos que o diálogo não é a única solução para todos os problemas sociais que enfrentamos. Sabemos também que nem sempre é fácil fazer com que o diálogo aconteça: as relações de poder e os sistemas históricos de opressão que informam interlocuções precisam ser levados em consideração; sem isso, certas tentativas de estabelecer diálogo não passam de estratégias para relativizar opressões estruturais.

Por conta disso, ao propormos diálogo, insistimos que a escuta seja compreendida como ação tão ou mais importante desta interação quanto a fala. É apenas com escuta generosa que podemos de fato dialogar - e, se o diálogo não for uma boa estratégia, mas estivermos nos escutando ativamente, ao menos saberemos disso juntas...

Disputar narrativas é uma ação essencial do ativismo por justiça social e aprimoramento dos direitos humanos. Mas dada a facilidade com que narrativas são cooptadas e resignificadas, acreditamos que disputá-las não seja suficiente. Além do mais, os textos que compõem narrativas em disputa sempre podem conter falhas argumentativas, e estas podem vir a dar margem para uma série de interpretações igualmente falhas. Nestes lapsos de compreensão podem surgir muitos desentendimentos que, por sua vez, podem gerar animosidade.

Falhas argumentativas ou de compreensão não são, necessariamente, falhas de caráter. Esperamos que as limitações da linguagem não limitem nossa capacidade de enxergar nossas interlocutoras em toda sua complexidade. A escuta verdadeira precede a empatia necessária para compreender o mundo a partir do ponto de vista da outra.

Somente conhecemos a outra quando nos abrimos para a sua verdade, e através do diálogo essa abertura pode acontecer. Produzir e compartilhar conhecimento que substancie a luta por direitos humanos é ação das mais importantes. Mas a vida também requer compreensão e acolhimento.

A resistência exige resiliência, mas também consciência. O cuidado que tomamos (ou não) umas com as outras é ligado ao cuidado que tomamos com nós mesmas. O autocuidado (assim como o cuidado), a autocompaixão (assim como a compaixão) e o questionamento das nossas certezas são ferramentas essenciais para a descristalização de nossas leituras de mundo.

Assim, se me permito ser cuidada, acolho melhor o cuidado que vem de fora; se me permito escutar, acolho melhor a voz que vem de fora; se me permito aprender, acolho melhor o ensinamento que vem de fora, e assim por diante. Precisamos nos permitir a não ter certeza, pois são nas incertezas que notamos nossa consciência. Se abrirmos nossas leituras de mundo com o propósito de tê-las ampliadas, é essencial reconhecermos a humanidade que há nas outras.

É preciso permitir a fala - a nossa e a das outras. Pessoas com medo de falar podem cristalizar seus preconceitos, sua indiferença. Para escutar, é preciso poder falar - e vice-versa. Eis a importância do diálogo como ação política. Ouvir e falar são ações igualmente importantes para percebermos que nossas leituras de mundo podem - e devem - mudar.

Muita gente não tem o ataque nem a defesa como focos de luta, e sente a necessidade de encontrar algum outro lugar onde fazer seu ativismo. Nossa proposta é que esse lugar seja o diálogo. Acreditamos ser preciso, e possível, construir pontes pra além das divergências. Não somos as mesmas pessoas que éramos ontem, nem seremos as mesmas pessoas amanhã.

O discurso da denúncia é importante, pois a denúncia comunica abusos, revela violências escondidas e desconstrói apagamentos sistêmicos. Por essas e outras, é preciso seguir denunciando. No entanto, também é preciso reconhecer que, se a denúncia destrói o que é necessário, ela não necessariamente constrói algo novo.

Para a construção do novo, apostamos no poder da parceria e da colaboração. Nenhuma feminista jamais será perfeita, e acreditamos que depositar a responsabilidade pela luta feminista apenas nos ícones visíveis do movimento seja uma estratégia perigosa e limitante. Torcemos pelo desapego ao mito da heroína feminista, e com esse manifesto-convite visamos fomentar a construção de ainda mais agentes responsáveis pela transformação que queremos.

Precisamos compreender nossas limitações e acolher as limitações da outra. E do outro: não há a possibilidade de extinguirmos machismos ou racismos sem que homens e pessoas brancas acolham suas próprias dificuldades e barreiras de compreensão.

É preciso que homens e pessoas brancas reconheçam seu papel na manutenção e propagação de sistemas de opressão, para que então possam refletir sobre suas ações e as de seus pares. Podemos, individualmente, não ser culpados por um problema. Mas ao nos vermos como parte de um sistema maior do que nós, podemos tomar responsabilidade pela mudança.

Essa tomada de responsabilidade passa pela compreensão desta responsabilidade. O discurso da denúncia fomenta disputas acerca de culpa. Mas, se a culpa paralisa, a responsabilidade mobiliza.

O diálogo que propomos abarca uma tomada de responsabilidade pela troca que se dá entre a fala e a escuta. Sabemos que falar é uma ação política. Precisamos lembrar nossos interlocutores que escutar também o é. Somente assim o diálogo transformador poderá acontecer.

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