OPINIÃO
07/03/2014 19:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

O resgate do meu feminino

Já mudei muitas vezes de casa, de trabalho, de vida, e sou bem desapegada das coisas materiais. Adoro jogar tudo fora sem olhar, só pra ter a sensação de um vazio a ser preenchido e pra me desafiar a não depender de nada. “Se eu não lembrei daquele papel no último ano, nunca mais vou precisar”.

Mas, tenho uma caixinha que me acompanha. Traz alguns “Recuerdos” (nome que já esteve impresso na etiqueta dela) e eles crescem pouquíssimo ao longo dos anos. Não tem nada que lembre muito ninguém que já passou – cartinhas com juras de amor, foto romântica, presente, essas são as primeiras coisas que jogo fora quando uma coisa acaba.

Então minha caixinha Recuerdos é feita daquilo que sobrevive aos tempos. Talvez daquilo que seja eu mesma, independente das circunstâncias. Pois bem, pensando aqui sobre este 8 de março, o Dia da Mulher mais importante dos meus últimos anos – e já conto o porquê – lembrei de uma redação que fiz na 8ª série (9º ano do Fundamental, traduzindo para como se chama hoje). Ela é uma das sobreviventes da caixinha, como mostra a foto. E o papel amarelado denuncia que minha trajetória de lá pra cá foi longa: 20 anos!

redação

O texto em si não tem nada demais, era simplesmente a minha reação ao conhecer a história do Dia da Mulher. Estava tudo correto, então levei o 10. Mas acredito que foi o contexto que fez a redação ficar famosa e ser lida em outras classes por alguns anos (por isso ela acabou guardada). Eu estava em uma escola de freiras e, sem cair num julgamento desrespeitoso, não posso deixar de considerar que a igreja católica é baseada no patriarcado. Era um lugar conduzido por mulheres, com a energia feminina... vivendo sob as regras do patriarcado. O pouco que uma menina de 15 anos pôde levantar de reflexão naquele contexto, em 1994, já foi bastante.

De lá pra cá, levei uma vida que hoje consigo avaliar como desafiadora do patriarcado em vários momentos: casei e tive duas meninas (escolhi menina porque, né, já tem homem demais no mundo ← ATENÇÃO: ironia). Quando achei que era a hora, não hesitei em separar, mesmo ouvindo dos mais conservadores que seria muito difícil arranjar marido depois (eles tinham razão, mas não me arrependi). Continuei sendo mulher mesmo depois de mãe (vira e mexe ainda escuto umas bobagens do tipo “fica tranquila que sempre tem uns solteiros que aceitam mulher com filho”, mas nada disso nunca me fez mudar de postura. No máximo, algumas lágrimas na TPM). E sempre tive protagonismo na minha vida profissional. Em muitos outros casos, provavelmente eu apenas vivi a lógica vigente e tudo bem.

Será que tudo bem mesmo? Claro que não! No meio do ano passado, uma amiga me apresentou a um grupo de mulheres que estava em formação na busca por um mundo mais feminino, que respeitasse seus ritmos e ciclos. E junto com elas entendi que levar a vida bancando o fato de ser mulher numa lógica toda patriarcal pressupõe ter que brigar pra simplesmente ser quem se é. Ou seja, fazer coisas super truculentas e masculinas pra cavar espaço pra ser mulher em paz. Ok, talvez seja necessário mesmo em alguns momentos. Mas e o nosso feminino, onde fica no meio disso tudo? Sufocado, é óbvio.

Evoluímos séculos em cerca de nove meses de grupo (hoje são 111 mulheres conectadas no grupo e cerca de 30 mais ativas) e há quatro meses temos um espaço físico, a Casa de Lua . Uma casa que serve como local de co-working e também abriga várias atividades que nos ajudam a cuidar desse tema. Tem aula de dança, roda de samba, bate-papo sobre a história do feminismo, palestra sobre literatura feminina, atividade para crianças. Um lugar para abrigar essa rede de mulheres querendo entender e respeitar os ritmos e ciclos do feminino.

Depois de 20 anos, fico muito feliz que o dia 8 de março seja de novo relevante na minha vida. Vou passá-lo na Casa de Lua, participando da seleção incrível de atividades escolhidas para o dia e ajudando na organização do evento que é aberto ao público, para que outras pessoas possam também refletir com a gente! Com um orgulho que não cabe em mim, vou levar minhas duas filhas, de 9 e de 12 anos, que felizmente desde cedo têm muito espaço para cuidar do seu feminino. E já estou pensando em algo que possa representar tudo isso e entrar para a caixinha Recuerdos pelos próximos 20 anos.