OPINIÃO
06/03/2014 15:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Mídias sociais: inimigas do Estado ou poder do povo?

Da prensa ao telefone à internet, cada uma dessas ferramentas tem sido uma maneira de organizar e ativar - dar às pessoas a voz que elas querem e merecem. Governos que olham para a frente vão escutar essas vozes e dar poder a elas.

John Moore via Getty Images
CAIRO, EGYPT - FEBRUARY 03: An anti-government demonstrator holds a sign during clashes on February 3, 2011 in Cairo, Egypt. Initial protests against the government were organized on internet social media. The Egyptian army positioned tanks between the protesters during a second day of violent skirmishes in and around Tahrir Square in Cairo. (Photo by John Moore/Getty Images)

Em uma série de eventos recentes promovidos pelo Instituto Berggruen, me pediram que falasse sobre mídias sociais e os potenciais bem e mal a elas associados.

Minha visão é bem simples e direta - acredito que as mídias sociais sejam uma ferramenta de libertação e empoderamento. Pode parecer uma visão audaciosa, considerando que boa parte do mundo ocidental usa o Facebook e o Twitter para publicar fotos do que comeram no jantar ou para fazer testes e descobrir que personagem de TV seriam. Mas a liberdade de se comunicar aberta e honestamente é algo que não deveríamos dar de barato. Em países em que a mídia tradicional é uma ferramenta de controle, esses canais, novos e verdadeiramente sociais, têm o poder de mudar nosso mundo radicalmente.

Para mim, as mídias sociais são um dos mais importantes saltos da história humana recente. Elas proporcionam a autoexpressão e promovem entendimento mútuo. Elas permitem a rápida formação de redes e mostram a humanidade que nos une através das diferenças culturais. Elas conectam as pessoas, suas ideias e valores como nunca antes fora possível.

Quanto aos críticos dessa visão, lembro que as mídias sociais estão em sua infância. Essencialmente, estamos nos dias de Alexander Graham Bell falando com seu assistente Watson por um fio rudimentar. Quando realmente aprendermos a usar essa tecnologia e as novas formas de comunicação, sentiremos o real impacto das mídias sociais.

Da mobilização de jovens eleitores aqui nos Estados Unidos às raízes da Primavera Árabe no Oriente Médio, Twitter, YouTube, Facebook e outros tiveram um papel não só importante, mas instrumental. Um exemplo: a Revolução Islâmica no Irã, 35 anos atrás. Desde aquela época, a mídia americana vem pintando uma quadro simplista e cruel do país. Pelos noticiários da TV e outras fontes, conhecemos um país teocrático e antiamericano.

Mas ao longo de alguns meses em 2009, quando milhares se reuniram em Teerã para protestar contra as eleições presidenciais, algo mudou na nossa visão de mundo. Pela primeira vez, jovens americanos estavam se conectando com jovens iranianos - e percebendo que tinham muito mais em comum do que poderiam imaginar. Os americanos se envolveram com o que acontecia no Irã pois laços se formaram pelos relatos em tempo real publicados em celulares e laptops.

Consequentemente, nosso governo começou a ver apoio popular dos americanos pela revolta no país, e depois no Egito, na Líbia, na Tunísia e em outros países. As pessoas nesses países não viram os americanos simplesmente assistindo a tudo de braços cruzados, e sim pela primeira vez engajados em suas batalhas e apoiando seus movimentos. Ao longo de todos esses processos, a mídia tradicional sofreu para se manter a par da poderosa conversa que acontecia no Twitter e nos blogs. Estava nascendo uma forma de comunicação verdadeiramente nova e livre.

Recentemente, vi com meus próprios olhos o medo de certos governos quando seus cidadãos usam essas novas tecnologias. Na China, o governo do presidente Xi Jinping expressou preocupação quanto ao real poder de divulgação de informação das mídias sociais. Centenas de blogueiros ao redor do país foram presos, e as táticas de intimidação subiram de tom. Microblogueiros foram ameaçados com três anos de prisão se postassem informações "falsas" que fossem vistas mais de 5.000 vezes. Será que o governo chinês pode aceitar a ideia de liberdade e empoderamento inerente às mídias sociais? Ou o "gerenciamento" das mídias sociais vai reduzi-las a uma mera versão moderna da mídia controlada pelo governo?

O efeito depressor é palpável - levando alguns à clandestinidade e forçando outros a buscar novas avenidas para se comunicar. O que o governo não percebe é que as pessoas não vão deixar de se comunicar; elas sempre vão encontrar uma maneira. O poder da verdade e o alcance das redes sociais podem ser uma combinação ameaçadora para aqueles que têm algo a esconder.

O importante, agora, é manter essas redes abertas e públicas. Alguns governos veem tanto o potencial quanto o poder dessas redes e estão optando pela repressão. Em alguns cenários, com controles mais extensos e a infiltração de agentes do governo, as mídias sociais podem se tornar uma nova ferramenta de opressão.

Eu conheço o poder das conexões humanas que se formam em torno de interesses comuns. Ela se automonitoram, com suas próprias regras e expectativas. Da prensa ao telefone à internet, cada uma dessas ferramentas tem sido uma maneira de organizar e ativar - dar às pessoas a voz que elas querem e merecem. Governos que olham para a frente vão escutar essas vozes e dar poder a elas. Outros terão medo da voz do povo e continuarão no lado dos derrotados da história.