OPINIÃO
31/07/2015 09:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O egoísmo heterossexual perdeu a guerra

A batalha contra os direitos LGBT já foi perdida. Só é preciso continuar lutando para que fundamentalistas que assumem cargos públicos não consigam fazer o País regredir. Agora é uma questão de tempo até que quem esteja na luta consiga "aplicar" a igualdade nas legislações ao redor do mundo. Só espero que eu ainda esteja vivo no dia em que a maioria das pessoas deixe o egoísmo e a ignorância de lado e aceite que todos temos o mesmo direito de amar.

Pekic

Um adolescente inseguro de 15 anos caminha pela escola onde ele estuda e escuta de alguém com quem ele nunca falou na vida: "viado filho da puta!". Durantes muitos anos, essa foi a minha rotina - normalmente não tão agressiva, mas com um monte de gente questionando a minha sexualidade, seja através de piadas, insinuações ou xingamentos. Isso afetou profundamente a minha personalidade - a ponto de problemas de ansiedade que eu tenho com 30 anos de idade refletirem coisas que aconteceram há mais de quinze anos, em um tempo em que nem eu entendia a minha sexualidade mas que sofria preconceito por ser mais sensível e ter interesses diferentes da maioria dos meninos (e na verdade as conversas tipicamente femininas eram tão entediantes quanto as masculinas).

Na faculdade, imaginei que as coisas seriam melhores. Até foram, mas eu ainda fui chamado de "o viado da turma" e percebi exatamente o motivo de alguns colegas de classes e do estágio manterem distância - sem pegar intimidade, sem formar laços de amizade e fazendo piadas ou comentários pelas minhas costas. Sem falar no meu primeiro emprego, onde uma das minhas funções era a de apresentador e diretores da emissora de TV onde eu trabalhava não queriam que a minha orientação sexual ficasse explícita no vídeo porque isso "poderia afetar a audiência".

Com o tempo, as coisas evoluíram. Ex-colegas de faculdade ou da escola amadureceram e me pediram desculpas, agora que não precisam mais posar de macho para se autoafirmarem. A culpa de um dia ter feito mal a alguém inofensivo ficou lá dentro de alguns deles e o fato de eu ter me assumido, saber me impor e ter uma posição corajosa frente ao mundo, e sem guardar rancor, também ajuda na maneira como essas mesmas pessoas me respeitam agora (e isso só se aplica aos menos agressivos, já que os mais radicais ainda devem estar se debatendo sobre o desejo reprimido que os faz homofóbicos).

Com os direitos gays avançando na maioria dos países ocidentais, é evidente que cada vez mais gente se acostuma com isso e começa a entender que homossexuais devem ter os mesmos direitos que heterossexuais que pagam os mesmos impostos (e contribuem da mesma forma para a sociedade). Não existe argumento válido para que o casamento entre iguais não aconteça (e não me venha citar a Bíblia se você vive em um Estado laico).

Até politicamente, a maioria dos partidos conservadores ao redor do mundo já abandonou o combate aos direitos LGBT como parte da agenda - até porque os eleitores gays são numerosos. As exceções, claro, são alguns políticos americanos radicais e os políticos hipócritas brasileiros que insistem em capitalizar no combate às minorias para ganhar o apoio da parcela mais preconceituosa e ignorante da população, muitas vezes cega por um apoio irrestrito à igreja opressora que determina como eles devem viver suas vidas (e cuidar da vida dos outros).

Combater os direitos homossexuais, especialmente o do casamento, é uma forma óbvia de mascarar o próprio preconceito, usando os argumentos mais absurdos, se atendo a detalhes técnicos risíveis ou tentando listar as coisas que "seriam mais importantes", como se defender uma causa significasse necessariamente deixar de defender outra.

E a prova disso é a necessidade de se justificar quando recebem críticas: para "provar" que não homofóbicos, usam os argumentos cretinos de que "conhece vários gays" ou "já até dormiu na mesma cama que amigos gays", como se fosse uma grande virtude aceitar dividir a cama com alguém que tenha outra identidade sexual. Também é aí que aparece o famoso "hoje em dia, tudo é fobia" ou "agora tudo é bullying". A verdade é que sempre foi bullying, sempre foi homofobia e sempre foi preconceito: a diferença é as pessoas começaram a se impor e lutar contra esse tipo de comportamento.

Quando se fala em combate a homofobia, a coisa fica ainda pior: o primeiro sentimento desprezível a vir à tona é o egoísmo, de simplesmente achar que não vale a pena salvar uma vida sequer se isso significa proteger uma parcela da população na qual eles (os que criticam) não estão inseridos, como se fosse um "privilégio" (enquanto o verdadeiro privilégio é não ter a sua vida ameaçada por causa do gênero pelo qual você se apaixona). E o outro sentimento é a arrogância de achar que pode decidir sobre a vida de alguém se ela não lhe diz respeito. Eu gostaria de saber em que lugar está escrito que você, heterossexual, pode decidir se eu, homossexual, sou normal o suficiente para me casar. E também de decidir que a "liberdade de expressão" é mais importante que o combate à homofobia. Ou seja: o seu direito de chamar alguém de "viado" é mais importante do que o meu direito de não ser espancado.

Sem contar quem começa a separar em uma rivalidade que não existe - "eles" querem isso, "eles" fazem aquilo, sendo que a raiz do problema é exatamente o contrário: se lugares e serviços especializados para gays continuam surgindo, é porque é fruto da necessidade. Significa que os lugares e serviços abertos a todos ainda estão longe de tratar todos da mesma forma. O que queremos, na verdade, é que esse muro invisível que nos julga como "eles" deixe de existir e dê lugar a respeito a aceitação.

Ainda há muito trabalho a ser feito, mas a batalha contra os direitos LGBT já foi perdida. Só é preciso continuar lutando para que fundamentalistas que assumem cargos públicos não consigam fazer o País regredir. Agora é uma questão de tempo até que quem esteja na luta consiga "aplicar" a igualdade nas legislações ao redor do mundo. Só espero que eu ainda esteja vivo no dia em que a maioria das pessoas deixe o egoísmo e a ignorância de lado e aceite que todos temos o mesmo direito de amar.

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