OPINIÃO
18/09/2015 17:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Eu tenho orgulho de não ser patriota

Ainda que isso seja difícil de ser compreendido, ter um amor fanático pela bandeira, pelo hino, pelas cores de uma nação não é necessariamente uma coisa positiva.

Robert Churchill via Getty Images

O que é mais ofensivo para você: queimarem uma bandeira ou queimarem um livro? Me perguntaram isso uma vez e eu respondi "livro" sem pensar duas vezes. Mas ainda demoraria anos para que eu entendesse o porquê da resposta ter sido tão óbvia para mim.

Nunca me identifiquei muito com o Brasil. Sempre achei a sociedade extremamente machista, e isso me incomodava. Os valores do País também não faziam sentido na minha cabeça: o porquê de o futebol ter tanta importância e o porquê de as pessoas terem tanta dificuldade em aceitar temas progressistas como os direitos gays e o aborto em um País que se vende como liberal, festivo e totalmente aberto para o resto do mundo.

Quando mudei para o exterior, senti o inevitável choque cultural ao escolher Londres como minha casa: a estrutura de transporte público, segurança, sistema de saúde. O estilo de vida de quem ganha pouco. Ralar em um restaurante e não ser "diminuído" por isso (mas ser, sim, criticado por amigos brasileiros que pensavam que eu estava "desperdiçando a minha vida").

Outros valores, outra sociedade, outra estrutura...

E me tornei ainda mais crítico ao Brasil. Mas não era complexo de Odete Roitman ou Carlota Joaquina: a questão nunca foi que tudo é ruim no Brasil ou que País não tem jeito. Não é a síndrome do vira-lata de que no exterior tudo é melhor.

É o desespero de saber que existem recursos no Brasil e não há, na prática, algo que justifique de fato a violência e a miséria. É tudo obra da corrupção, a busca pelo poder que impede que problemas básicos sejam solucionados porque vai ter sempre alguém no meio do caminho para não deixar a situação mudar.

Muitas coisas também mudaram por aqui nestes seis anos em que vivo na capital do Reino Unido. O governo do partido conservador "abriu as pernas" para a entrada de bilionários que aumentaram tanto a especulação imobiliária que hoje em dia é praticamente impossível para um trabalhador médio comprar uma casa própria na capital.

Grande parte dos benefícios foi cortada, a burocracia aumentou e o tamanho da população ignorante e dos filhos de imigrantes pouco integrados à sociedade britânica também cresceu.

E a guinada à direita por parte da população aliada a situações políticas específicas deu a reeleição a esse governo que mantém a economia forte com medidas de austeridade (aquelas beneficiam principalmente quem tem muito dinheiro). Soa familiar?

A decepção com o governo inglês se juntou ao ressentimento que tenho com o Brasil e produziu meu estalo: a raiz do meu sentimento de não pertencer a lugar nenhum. Mas o fato de isso ser uma coisa boa.

Por que eu deveria lutar por um País que recebe os meus impostos e a minha força de trabalho se ele não me dá o suficiente em troca? Por que eu devo me orgulhar de ser parte de um lugar se não tenho controle sobre o que acontece com ele e com quem está dentro dele?

Ainda que isso seja difícil de ser compreendido, ter um amor fanático pela bandeira, pelo hino, pelas cores de uma nação não é necessariamente uma coisa positiva. A sociedade precisa inverter o jogo e tratar o conceito de país, e o governo, como algo que precisa tanto da população quanto a população precisa deles.

Nessa esteira de patriotismo vazio, algumas pessoas, seja por ignorância ou por mediocridade, tentam desqualificar a opinião de um estrangeiro, ou pior ainda, de um brasileiro vivendo no exterior, pelo fato de "ele não morar lá". Como se fosse preciso morar em um lugar para entender os problemas e atacar ou defender determinado político ou partido...

Na verdade são exatamente o distanciamento e a possiblidade de conhecer outras realidades que podem abrir a cabeça para pensar em soluções ou analisar a situação.

Os próprios Estados Unidos são constantemente acusados de serem arrogantes praticamente pelo resto do mundo todo, e muita gente sabe que o poder que o país exerce sobre o mundo não vem do sentimento de patriotismo. O patriotismo só ajuda a sustentar aqueles que estão no poder a continuar exercendo sua influência por meio do consumismo.

A falta de empatia e compaixão da Europa com os refugiados é fruto do quê? Do medo de que o próprio país não tenha a capacidade de lidar com esses "não-brancos problemáticos" (o sentimento dos extremistas) que vão" roubar os recursos" e "acabar com a nação".

Mas eles esquecem se de olhar para o passado, quando os brancos europeus também precisaram buscar refúgio para fugir da guerra, quando os detentores dos meios de exploração tomaram posse de terras alheias.

Na minha visão, o conceito de nação já está longe de ser algo positivo e divide a raça humana em grupos determinados pelo lugar onde nasceram, como se alguém pudesse se responsabilizar por isso.

Não somos todos iguais: você nasceu mais embaixo desse bolo de magma e terra que dividimos desigualmente.

Que fique claro que isso não significa que eu ache que não possamos elogiar, gostar ou enaltecer determinadas culturas ou características comuns a uma sociedade. A determinação geográfica e a cultura histórica que forma a maneira como um povo se comporta não precisa ser ignorada.

Você pode gostar do fato de muitos brasileiros serem afetuosos, do fato de os ingleses serem pontuais, da música brasileira ser muito rica em variedade de sons, de uma sociedade, um grupo ou um território produzir algo de bom ou reproduzir algo admirável.

Mas a questão é que também podemos encontrar beleza na variedade, na mistura, na mutação (e isso é exatamente o que formou a riqueza cultural brasileira).

Viver fora do país me abriu os olhos para os problemas estruturais e a ganância que nos deixa escravos de pertencer a uma determinação territorial estúpida.

Ainda que o sonho de John Lennon de imaginar que não há fronteiras possa parecer utópico ou as ideias de José Saramago de que estaríamos melhor governando a nós mesmos possa parecer anarquista, o que eu sinto é que nos aproximamos de um ponto onde as coisas terão que ser destruídas para serem reconstruídas.

Como sou otimista por natureza, prefiro não pensar em bomba-relógio. Prefiro torcer para que estejamos em um casulo e que o que saia de lá de dentro seja bonito e sobreviva.

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