OPINIÃO
13/02/2015 16:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Evitando uma tragédia europeia: por que Barack Obama acertou

Em meio à crise florescente, o presidente Obama tem sido a voz da razão e do realismo, pedido um acordo que restaure o crescimento econômico na Grécia e mantenha o país na União Europeia. A mensagem enérgica do presidente reconhece que a crise atual significa muito mais que a permanência de um país na UE. Trata-se de proteger uma economia ainda fragilizada pelos efeitos da crise financeira e de garantir a força da aliança ocidental nestes tempos cada vez mais perigosos.

Desde a vitória de Alexis Tsipras e seu partido Syriza nas eleições gerais gregas, a Eurocrise voltou a ser o centro das atenções, ameaçando não só o futuro da moeda única e do ideal europeu como também a estabilidade econômica e estratégica global.

Fiéis a suas promessas eleitorais e amparados por um crescente apoio doméstico, o premiê Tsipras e o novo ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, juraram dar fim às políticas de austeridade impostas pela União Europeia que levaram o país à depressão econômica e causaram sérios problemas em outros países do continente. De sua parte, as autoridades europeias indicaram intransigência diante da ideia de mudar de curso, uma intransigência que aparentemente continuou na reunião dos ministros de finanças realizada ontem, em Bruxelas. Na reunião, autoridades alemãs supostamente teriam recusado alterações nas condições acordadas previamente, por mais malconcebidas ou comprovadamente fracassadas que tenham sido. Isso acabou com a perspectiva de progressos ou novas discussões nos próximos dias. Uma decisão fatídica pode vir à tona já na segunda-feira.

Em meio a essa crise florescente, o presidente Obama tem sido a voz da razão e do realismo, pedido um acordo que restaure o crescimento econômico na Grécia e mantenha o país na União Europeia. A mensagem enérgica do presidente reconhece que a crise atual significa muito mais que a permanência de um país na UE. Trata-se de proteger uma economia ainda fragilizada pelos efeitos da crise financeira e de garantir a força da aliança ocidental nestes tempos cada vez mais perigosos.

Não há dúvida do fracasso do atual programa de austeridade imposto à Grécia em troca de ajuda financeira. O desemprego oficial está em quase 26%, uma taxa parecida com a dos Estados Unidos durante a Grande Depressão. O desemprego entre os jovens passou de 50%, contribuindo para uma fuga de cérebros do país que pode assombrar a Grécia por décadas. A economia grega encolheu mais de 25%. Milhões estão na pobreza, e os serviços sociais estão destroçados. O fato de o país não ter explodido em ódio e revolta é prova dos ideais democráticos do povo grego.

Tampouco há dúvidas de que a Grécia tenha feito enormes ajustes fiscais nos últimos anos, de longe os mais severos da zona do euro. O déficit está abaixo de 3% do PIB, ante 15% em 2010. O superávit primário chegou a 1,5%. Mas a meta imposta pelos europeus - 4,5% do PIB no médio prazo e 4% no longo prazo - vão estrangular a recuperação econômica. Como notou o presidente Obama, "quando você tem uma economia em queda livre, é preciso ter uma estratégia de crescimento e não simplesmente uma estratégia de arrochar mais e mais uma população cujo sofrimento só piora".

Fatos, razão e equidade pedem um novo acordo, que promova reformas e recuperação econômica e que preserve a União Europeia. Qualquer acordo viável deve respeitar a soberania grega e refletir bom senso econômico. Ele tem de reduzir as metas de superávit primário, como proposto pelo governo grego, para permitir investimentos que aliviem o sofrimento e incentivem o crescimento. O acordo deve mostrar um caminho sustentável para o pagamento da dívida no curto e no longo prazo. E ele deve continuar incitando reformas que reforcem o tecido socioeconômico e o progresso econômico. Nesse sentido, o novo governo grego se comprometeu a combater a evasão fiscal e a corrupção, aumentando a transparência do setor público, aumentando a eficiência do governo e incentivando investimentos estrangeiros que ajudem a construir a riqueza da nação, em vez de esgotá-la.

Para atingir esses objetivos, a escalada da tensão e da retórica, que invariavelmente são amplificadas por uma mídia que favorece disputas e confrontos, tem de ser contida. É necessária uma ponte ou um período de resfriamento para que se chegue a um acordo que estabilize mercados, economia e bancos. As negociações têm de ser cuidadosas e de boa fé. Isso é o que pede o novo governo.

Nesse sentido, a liderança continuada do presidente Obama e do governo americano podem ajudar a trazer as partes para a mesa - e a mantê-las ali até que se chegue a uma resolução justa. O caminho de envolvimento ativo escolhido pelo presidente é do interesse dos americanos por três motivos.

Primeiro, porque a ameaça de desmanche da União Europeia neste momento crítico colocaria em risco nossa recuperação econômica depois dos anos de estagnação que se seguiram à crise financeira de 2007-2008. Ao contrário das visões derrotistas de nomes como Alan Greenspan, a inevitabilidade da dissolução da UE não deveria ser aceita como um fato.

Segundo, porque a saída da Grécia da família das nações europeias seria um retrocesso geopolítico significativo. A Grécia é e continua a ser um aliado de confiança dos Estados Unidos e um parceiro vital na Otan. Localizado no flanco oriental da Europa e na linha de frente do Oriente Médio, o país é uma base essencial para a proteção dos interesses democráticos ocidentais em uma época de volatilidade, conflitos armados e terrorismo na região. Uma saída da Grécia da União Europeia e uma espiral negativa da economia grega podem acabar mal para o Ocidente.

Finalmente, usar nossos recursos para ajudar a Grécia a sair dessa crise econômica e humanitária envia um sinal poderoso do comprometimento dos Estados Unidos com os princípios democráticos. Em nome da liberdade, o povo grego resistiu bravamente à brutal invasão e ocupação nazista, sobreviveu a uma terrível guerra civil com as forças comunistas e depôs uma junta militar que roubou as liberdades do país. Ajudar a Grécia e nossos parceiros europeus a encontrar uma solução conjunta significa honrar essas lutas.

Em 1947, o presidente Harry Truman pediu que o Congresso aprovasse a Doutrina Truman, que salvou a Grécia da ruína e da tirania durante a guerra civil contra as forças comunistas apoiadas pela União Soviética. Ao fazê-lo, ele advertiu: "Se hesitarmos em nossa liderança, podemos colocarem risco a paz no mundo. E vamos certamente ameaçar o bem-estar desta nação". Muito mudou nas sete décadas desde o salvamento da Grécia. Mas a importância de uma Grécia democrática e ligada ao Ocidente ainda é a mesma.

Phil Angelides foi tesoureiro do Estado da Califórnia entre 1999 e 2007 e presidente da Comissão de Inquérito da Crise Financeira, que conduziu a investigação oficial do país sobre as causas da crise financeira americana e global.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.