OPINIÃO
18/02/2015 16:11 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Por que o papa está errado ao promover o crescimento populacional

Gravidezes frequentes, especialmente em países sem cobertura de saúde universal, são associadas a altas taxas de mortalidade materna. A ajuda de agências externas para reduzir as mortes prematuras de mulheres certamente não é "colonização ideológica".

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VATICAN CITY, VATICAN - FEBRUARY 18: Pope Francis attends his weekly audience in St. Peter's Square on February 18, 2015 in Vatican City, Vatican. Speaking after the General Audience the Pope asked for prayers for our 'Egyptian brothers who were killed in Libya three days ago for the mere fact of being Christians'. (Photo by Franco Origlia/Getty Images)

Na volta de sua viagem às Filipinas, no mês passado, o papa Francisco contou a jornalistas a história de uma mulher que teve sete filhos por cesariana e estava grávida mais uma vez. Segundo ele, isso era "tentar Deus". Ele perguntou à mulher se ela queria deixar sete crianças órfãs. Os católicos têm maneiras aprovadas de regular nascimentos, continuou ele, e deveriam ser "pais responsáveis", em vez de se reproduzir "como coelhos".

Os comentários sobre os coelhos foram amplamente cobertos pela mídia, mas pouca atenção foi dada a outra coisa dita pelo papa: que nenhuma instituição externa deveria impor ao mundo em desenvolvimento suas visões sobre o controle do tamanho das famílias. "Todos os povos", insistiu ele, deveriam ser capazes de manter sua identidade sem ser "colonizados ideologicamente".

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A ironia dessa declaração é que nas Filipinas, um país de mais de 100 milhões de habitantes e 80% católico , o colonizador ideológico tem sido a Igreja. É ela, afinal de contas, que vigorosamente tentou impor à população sua oposição aos métodos contraceptivos, se posicionando contra a oferta do governo de anticoncepcionais aos habitantes de áreas rurais pobres.

Enquanto isso, estudos mostram repetidamente que a maioria dos filipinos é favorável a uma maior disponibilidade de contraceptivos, o que não surpreende, uma vez que os métodos aprovados pela Igreja mencionados pelo papa Francisco são comprovadamente menos confiáveis que as alternativas modernas. É difícil acreditar que, se as Filipinas tivessem sido colonizadas pela Inglaterra protestante em vez da Espanha católica, por exemplo, o uso de contraceptivos fosse uma questão hoje.

A questão maior levantada pelo papa, porém, é a da legitimidade das agências externas na promoção do planejamento familiar em países em desenvolvimento. Há várias razões pelas quais essa atividade é legítima. Primeiro, deixando de lado a questão "ideológica" do direito ao planejamento familiar, evidências avassaladoras mostram que a falta de acesso à contraceptivos é um problema de saúde para as mulheres.

Gravidezes frequentes, especialmente em países sem cobertura de saúde universal, são associadas a altas taxas de mortalidade materna. A ajuda de agências externas para reduzir as mortes prematuras de mulheres certamente não é "colonização ideológica".

Segundo, quando os nascimentos são mais espaçados, as crianças se desenvolvem melhor fisicamente e em termos educacionais. Todos deveríamos concordar que é desejável que organizações de ajuda promovam a saúde e a educação de crianças em países em desenvolvimento.

Mas existe outra razão mais ampla e controversa para promover o planejamento familiar: torná-lo acessível é de interesse dos 7 bilhões de habitantes do planeta e das gerações que, salvo desastre, vão ocupá-lo por milênios no futuro. E aqui é necessário colocar em foco a relação entre mudança climática e controle de natalidade.

Os fatos-chave sobre a mudança climática são conhecidos: nossa atmosfera absorveu quantidades tão grandes de gases que causam o efeito estufa que o aquecimento global já começou, com mais ondas de calor extremo, secas e enchentes. O gelo do Ártico está derretendo, e o aumento dos níveis dos oceanos ameaça inundar áreas costeiras densamente populadas em vários países baixos. Se os padrões de chuva forem alterados, milhões podem se tornar refugiados do clima.

Além disso, uma maioria indiscutível de cientistas acredita que estamos a caminho de ultrapassar os níveis de aquecimento global que disparam reações incontroláveis, com consequências imprevisíveis e possivelmente catastróficas.

A causa do problema costuma ser atribuída aos países ricos e suas altas taxas de emissões nos dois últimos séculos. Eles continuam a ter os níveis mais altos de emissões per capita e têm as condições de reduzi-las com o menor custo social. Não há dúvidas de que, eticamente, os países desenvolvidos deveriam liderar o esforço global pela redução das emissões.

O que não é mencionado com tanta frequência, porém, é o quanto o crescimento populacional pode minar esse esforço.

Quatro fatores influenciam o nível de emissões: produção econômica per capital; unidades de energia usadas para gerar cada unidade de produção econômica, gases de efeito estufa emitidos por unidade de energia; e população total. Uma redução em qualquer um dos três primeiros fatores será anulada por um aumento no quarto. No "Summary for Policymakers" do Quinto Relatório de Avaliação, o Painel Intergovernamental para a Mudança Climática da ONU afirmou que, globalmente, os crescimentos econômico e populacional continuam a ser os "principais motores" do aumento de emissões de CO2 via queima de combustívels fósseis.

Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, 222 milhões de mulheres de países em desenvolvimento não querem ter filhos agora, mas não têm os meios para garantir que não vão engravidar. Oferecer acesso a métodos contraceptivos as ajudaria a planejar suas vidas, diminuiria a demanda por abortos, reduziria as mortes de mães, daria às crianças um melhor começo de vida e contribuiria para uma desaceleração do crescimento populacional e da emissão de gases de efeito estufa, nos beneficiando a todos.

Quem poderia se opor a uma ideia vitoriosa como essa? Os únicos opositores, podemos suspeitar, são aqueles presos a uma doutrina religiosa que buscam impor sobre os outros, quaisquer que sejam as consequências para mulheres, crianças e o resto do mundo, agora e nos séculos por vir.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.