OPINIÃO
07/05/2015 19:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Uma questão nada risível

É tudo barulho e mais barulho, mais bateção de panelas diante de janelas ou mais assinar de petições antes de se acomodar no sofá para assistir à novela ou ao reality show mais recente. Nossa angústia existencial mitigada, podemos voltar às nossas rotinas normais. Se Peter, Paul e Mary ainda estivessem escrevendo canções, em vez de perguntar onde foram parar todas as flores, eles poderiam estar perguntando onde foram parar todas as petições? Talvez estejam sendo recicladas em algum lixão eletrônico secreto.

MARCELO D. SANTS/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

A má notícia é que não há boas notícias.

Sou obrigado a admitir. Sou viciado em notícias, especialmente notícias do que está acontecendo em meu país natal, a Gringolândia. E, a cada edição nova do NYTimes, The Economist, The National Memo e outros órgãos diversos, não consigo encontrar nada que sequer dê a entender que existe a possibilidade de alguma luz no final do túnel. E, porque vivo e trabalho no Brasil e sou feliz por isso, sou obrigado a perguntar o que é realmente tão diferente entre lá e aqui.

Posso ouvir vinda de lá fora a novidade popular importada da Argentina: o panelaço e o som raspado de reco-recos assinalando o protesto popular contra um programa político na TV. A atividade na rua continua normal, e ninguém parece estar prestando muita atenção. Apesar do barulho, um casal assiste com carinho à sua filhinha experimentando seu novo patinete, algo que não é fácil, em vista do estado precário da calçada. É altamente improvável que Dilma ou seus ministros estejam ouvindo, não importa quantas panelas sejam batidas.

Imagine a reação dos brasileiros se, como acontece comigo, suas caixas de entrada de e-mail fossem inundadas com pedidos diários para assinarem petições -petições que têm tantas chances de fazer alguma diferença, mesmo que mínima, quanto uma chuvarada ocasional de um dia tem de resolver a crise da falta d'água. Aposto que a maioria dos brasileiros soltaria uma gargalhada sonora e pressionaria a tecla "deletar".

Mas não meus conterrâneos gringos. Eles parecem acreditar que assinar uma petição de um ou outro tipo vai fazer uma diferença. Eu me pergunto por que, com poucas exceções, ninguém jamais diz se a petição chegou ou não ao seu alvo pretendido ou se teve ou não o efeito desejado. Como participar de um panelaço, firmar um abaixo-assinado faz o sujeito se sentir bem, mas será que tem algum outro efeito além desse?

Veja alguns exemplos das petições que fui convidado a assinar na semana passada.

A petição intitulada "acrescente seu nome para combater esta nova teoria conspiratória" descreve o fato de o governador republicano do Texas estar enviando tropas armadas para "monitorar" exercícios militares normais dos EUA, temendo uma conspiração maligna do malévolo Obama para dominar o Estado do Texas e desarmar o populacho armado. "Exija que o Congresso mantenha o financiamento da NASA e leve adiante as pesquisas sobre mudanças climáticas", suplicam ambientalistas que temem, com razão, que os negadores das mudanças climáticas acabem com todas as provas científicas de que nós, humanos, estamos destruindo nosso universo. "Acrescente seu nome para defender com os democratas o salário mínimo horário de US$12", exorta o Comitê Senatorial da Campanha Democrata - uma finalidade nobre e que certamente valerá votos ao partido, mas que tem pouquíssimas chances de elevar o salário mínimo horário, nem em dois dólares que seja. "Acrescente seu nome hoje para dizer à Suprema Corte que os americanos são a favor da igualdade", brada a senadora por Nova York Kristen Gillibrand, em apoio ao casamento gay - como se a Suprema Corte americana pudesse ser influenciada por um abaixo-assinado, não importa quantas assinaturas possa ter.

É tudo barulho e mais barulho, mais bateção de panelas diante de janelas ou mais assinar de petições antes de se acomodar no sofá para assistir à novela ou ao reality show mais recente. Nossa angústia existencial mitigada, podemos voltar às nossas rotinas normais. Se Peter, Paul e Mary ainda estivessem escrevendo canções, em vez de perguntar onde foram parar todas as flores, eles poderiam estar perguntando onde foram parar todas as petições? Talvez estejam sendo recicladas em algum lixão eletrônico secreto.

Tudo isso seria risível, não fosse um desperdício tão grande de esforço e emoção que poderia ser usada melhor para mudar coisas, mesmo coisinhas práticas de monta menor, como calçadas quebradas ou ruas esburacadas, ao invés de simplesmente erguer nossas vozes na esperança improvável de que alguém aí fora esteja ouvindo.

O voto não é, na realidade, a grande petição, a grande oportunidade de fazer nossa voz ser ouvida e contada? Aqui todo o mundo é obrigado a votar. Nos Estados Unidos não existe essa obrigatoriedade. Em 2012, na eleição presidencial mais recente, apenas 58% dos eleitores devidamente cadastrados foram votar. Talvez estivessem ocupados demais assinando petições.

Então aqui vai minha proposta modesta. Deveríamos todos assinar uma petição para levar as panelas de volta para a cozinha, que é seu lugar de direito, e não responder a mais petições sem sentido. Em vez disso, talvez devêssemos começar a efetuar aquelas mudanças pequenas que poderão converter notícias más em notícias boas.

E isso não é uma questão risível.

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