OPINIÃO
15/10/2014 10:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Tempo de eleição

Hoje, em vez do papo interminável sobre futebol, com a chegada da primavera, toda a conversa se voltou para a eleição e a política que a rodeia. Ou talvez seja o contrário: a conversa se concentrou na política que conduz o processo eleitoral.

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Photo combination of Brazilian President and presidential candidate for the Workers' Party Dilma Rousseff (L) and Brazilian Social Democracy Party (PSDB) candidate Aecio Neves during a television debate in Sao Paulo, Brazil on October 14, 2014 ahead of the run-off election next October 26. AFP PHOTO / NELSON ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Houve nos últimos tempos uma grande mudança nas conversas no Brasil.

Hoje, em vez do papo interminável sobre futebol, com a chegada da primavera, toda a conversa se voltou para a eleição e a política que a rodeia. Ou talvez seja o contrário: a conversa se concentrou na política que conduz o processo eleitoral.

A presidente Dilma Rousseff vai aumentar o Bolsa Família como meio de conseguir mais votos? Aécio Neves conseguirá convencer os eleitores de que vai preservar o Bolsa, diminuindo a força de Dilma? Marina Silva se unirá a Aécio e, se o fizer, seus milhões de seguidores irão junto? Que impacto o escândalo de corrupção na Petrobras terá na votação final?

São perguntas interessantes e divertidas de discutir enquanto houver cerveja no copo. Da minha perspectiva de gringo, o mais interessante é que o tom desta eleição parece comparativamente civilizado e positivo quando comparado ao circo de três picadeiros que está ocorrendo nos Estados Unidos.

Eu recebo entre 25 e 30 e-mails por dia dos democratas americanos pedindo contribuições. Eles têm títulos gritantes como "Alguma coisa, Peter?"; "Golpe paralisante"; e "pessoalmente" do presidente Barack Obama "É isso aí, Peter J." Tudo o que eles parecem querer é dinheiro para combater o grande dinheiro que os combate. Eles são terrivelmente exíguos sobre o que os candidatos farão se forem eleitos, além de manter os outros caras (republicanos) fora.

Sim, os candidatos brasileiros atiram uma certa quantidade de lama um contra o outro no tempo limitado que lhes é dedicado na TV e durante os debates. Mas é infinitesimal comparada com o bombardeio nuclear dos anúncios de TV que saturam as ondas aéreas americanas. Em vez de mensagens contínuas em todas as mídias, placas "sanduíche" com imagens dos candidatos brasileiros (às vezes ao lado do adversário) aparecem junto das ruas, e imagens do tamanho de cartas de baralho com os números dos candidatos enchem as calçadas toda manhã quando saio para caminhar com meu cachorro. Ele os fareja mas não parece se interessar muito.

A maior diferença entre o processo eleitoral na 'Gringolândia' e aqui parece ser o uso de tecnologia sofisticada para alcançar potenciais eleitores, e a injeção de bilhões de dólares nas campanhas americanas. Um artigo fascinante sobre a ActBlue, organização que lidera a captação de fundos para os democratas, mostra como "coletando informação, e não apenas dinheiro, o grupo de captação de fundos online democrata utilizou a tecnologia para facilitar as doações"

Teria política se tornado apenas mais um "produto" para as grandes empresas levantarem a quantia máxima de dinheiro para "meta final"?

Desde que uma recente decisão da Suprema Corte dos EUA permitiu que somas ilimitadas fossem doadas por indivíduos anônimos para apoiar candidatos ou programas políticos, os muito ricos vêm se mostrando especialistas em "comprar" eleições federais e estaduais. Em julho, o colunista do "New York Times" Nicholas Kristof ("An Idiot's Guide to Inequality") escreveu que "o 1% mais rico dos Estados Unidos hoje tem mais dinheiro que os 90% embaixo".

Talvez eu esteja sendo cínico. Os megacontribuintes dizem que tudo se trata de ideologia, e sem dúvida isso é marginalmente verdade. Mas ao considerarmos que as reduções de impostos de alguns meros pontos percentuais, aprovadas no Congresso pelos amigáveis receptores dessa generosidade no financiamento eleitoral, poderiam facilmente fazê-los recuperar em impostos mais baixos os bilhões que investem, perguntamo-nos sobre seus verdadeiros motivos.

Talvez seja por isso que estou ficando um tanto nostálgico pela volta do papo de futebol.

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