OPINIÃO
05/02/2015 18:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Qual é o seu plano B?

O que poucas pessoas parecem estar levando em conta, mesmo as que já têm um plano B esboçado, é como a vida vai mudar dramaticamente para todos. Vamos poder trabalhar como fazemos hoje, mesmo que trabalhemos em casa, ou as empresas ficarão fechadas e os empregos e as atividades que consideramos normais e garantidos se tornarão sem sentido, deixarão completamente de existir ou mudarão tanto que se tornarão irreconhecíveis?

GABRIELA BILÓ/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Chove lá fora, felizmente, não tanto quanto gostaríamos, mas está chovendo e podemos ser gratos por isso.

E se, como meus amigos brasileiros me garantem, Deus é brasileiro, Ela não vai deixar que São Paulo, Rio e grandes partes de Minas sequem por completo, provocando um êxodo forçado de milhões de pessoas das cidades e outras áreas. Depois do Carnaval vai chover muito, muito, dizem os otimistas inveterados, e tudo voltará ao normal: provavelmente vamos todos continuar a gastar e desperdiçar água a rodo.

Gringo como sou, estou protegendo minhas apostas e não contando com um volume suficiente de chuva nos próximos 60 ou 90 dias para acabar com a crise. "Torcer por chuva não é uma estratégia", disse recentemente um comentarista da British Broadcasting Company. Como muitos amigos, estou me esforçando para conservar ao máximo, consumir o mínimo possível de água e traçar um plano "B", só para o caso de ser preciso. Isso é uma estratégia.

Surpreendentemente, nossa água ainda não foi racionada. Temos sorte. Algumas pessoas fora do centro de São Paulo, propriamente dito, não têm água nos canos há um mês. Outras recebem água apenas na base do dia sim, dia não. O que é espantoso é o baixo volume de queixas até agora. O medo é que, não obstante a boa vontade e generosidade naturais dos brasileiros, as reclamações possam crescer dramaticamente e ficarem muito sérias.

Apenas muito recentemente é que as conversas sobre um plano B viraram um tópico favorito no circuito das festas. "O que vamos fazer", pergunta a mulher bonita que toma água mineral com sua vodca com limão, "quando não pudermos trocar a água da piscina, tomar outra chuveirada, ou, pior ainda, quando não houver água da rua e não der para dar descarga?" Ela deixou de mencionar que, como São Paulo é tão dependente da energia hidrelétrica, podemos ficar sem eletricidade suficiente para operar os elevadores, manter escolas e hospitais abertos, empresas em funcionamento. Pode faltar energia até para operar as bombas de combustível para que as pessoas que queiram e possam encher seus tanques e escapar consigam o combustível de que precisam ou possam sacar dinheiro dos caixas automáticos, movidos a eletricidade. E como vamos recarregar nossos iPhones e tablets? Nosso mundo ficará diferente, com certeza.

Lamentavelmente, nossos políticos municipais, estaduais e federais parecem estar fazendo muito pouco em relação à crise, exceto atribuir a culpa a outros, rezar por chuva e formar comitês. O sorridente (sempre sorridente) governador Geraldo Alckmin, cercado pelos membros de seu novo comitê, confirmou que nada foi feito para colocar em ação o racionamento - a politicamente perigosa "palavra R" - e que, de qualquer maneira (passando a responsabilidade adiante), qualquer racionamento será uma decisão "técnica" a ser tomada pela Sabesp. A impressão é que ele não tem plano B e não pensa que precise disso.

["afirma que não há previsão de racionamento, essa é uma decisão técnica que a Sabesp estuda"]

Embora os políticos e especialistas já tivessem previsto esta crise havia meses, ninguém que eu tenha ouvido está falando na hipótese de extração emergencial de água do aquífero Guarani, a enorme reserva hídrica subterrânea do tamanho do Texas e Califórnia somados, boa parte da qual fica no subsolo do Brasil e que, segundo a Wikipedia, poderia abastecer o mundo de água potável por 200 anos . Devem ter uma boa razão para não estar fazendo isso, mas não a compartilharam conosco.

São Paulo tem mais de 20 milhões de habitantes. Para aqueles que têm a sorte de contar com recursos amplos, o plano B, em muitos casos, consiste em colocar a família e o cachorro no carro e levá-los para algum lugar do Brasil onde a água é farta e a família tem um lugar para ficar.

Alguns estão falando em embarcar para Miami, se o fizerem com antecedência suficiente para conseguir um lugar em um avião e puderem pagar os preços, que certamente vão subir. Pessoas mais pobres talvez encontrem um jeito de migrar para as casas de parentes ou amigos em regiões com água, mas o número de pessoas envolvidas é realmente assustador e faz qualquer engarrafamento anterior de feriadão parecer mera brincadeira. Aqueles cuja mobilidade é ainda menor podem ter grande dificuldade em levar adiante qualquer tipo de existência decente.

O que poucas pessoas parecem estar levando em conta, mesmo as que já têm um plano B esboçado, é como a vida vai mudar dramaticamente para todos. Vamos poder trabalhar como fazemos hoje, mesmo que trabalhemos em casa, ou as empresas ficarão fechadas e os empregos e as atividades que consideramos normais e garantidos se tornarão sem sentido, deixarão completamente de existir ou mudarão tanto que se tornarão irreconhecíveis?

Talvez esta seja a grande oportunidade de uma vida ou de um milênio para descobrirmos quem somos de verdade e o que são realmente nossas vidas. Um plano B pode nos ser imposto, mas talvez seja justamente o relâmpago necessário para iluminar nossas vidas e mudar seu foco.

Aconteça o que acontecer com a crise, mesmo que as chuvas cheguem torrenciais, mudanças dramáticas certamente nos aguardam, e é pouco provável que as coisas algum dia voltem à "normalidade" de hoje. É bom você começar a pensar em seu plano "B".

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