OPINIÃO
05/08/2014 16:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Muito além do exagero: A eleição americana

Getty Images

Vocês, brasileiros, talvez não percebam como são felizes.

A campanha para a eleição de outubro vai começar logo e ocorre que durante um período de tempo muito limitado, há muitas restrições para garantir um grau de justiça e acesso igual à mídia e todo adulto elegível é obrigado a votar. Enquanto as empresas e os indivíduos podem fazer doações para comitês de campanha e candidatos individuais durante o período eleitoral de porcentagens específicas de sua renda bruta, uma nova resolução aprovada pelo TSE exige a identificação de quem deu, o que e para quem. Dificilmente isso vai acabar com a corrupção generalizada, mas certamente tem algumas coisas que os EUA poderiam aprender.

O sistema gringo não poderia ser mais diferente, de forma drástica. A campanha para a eleição ao Congresso, em novembro, vem se desenrolando desde sempre. É terrível quanto dinheiro não identificado está sendo despejado nesta eleição por um pequeno grupo de bilionários republicanos de direita, decididos a assumir o controle do país para seus próprios fins. É uma forma diferente de corrupção, mas dificilmente mais palatável.

Para levantar dinheiro e atrair votos, os políticos americanos estão usando todos os meios modernos, sem limites, para se conectar aos eleitores, visando-os individualmente por meio de várias técnicas de "grandes dados". Deveria ser emocionante receber um bilhete de Obama pedindo meu apoio, ou de sua mulher, Michelle, ou do vice-presidente, de Bill Clinton ou de Joe Kennedy III, ou de importantes senadores e deputados. Eu deveria me sentir extremamente lisonjeado por eles me chamarem de "Peter" e me dizerem repetidamente como sou importante. Isto é, importante se eu apenas "por favor doar", mesmo que eu já tenha doado quinhentas vezes. É interminável e é tudo sobre dinheiro.

Como escreveu "The New York Times" em 27 de julho, "uma explosão de gastos em publicidade política na televisão - que deverá romper os US$ 2 bilhões em disputas para o Congresso, com um aumento de comerciais de até 70% desde a eleição de meio de mandato em 2010 - está acelerando o aumento de interesses monetários..."

A campanha eleitoral nos EUA tornou-se um negócio "24/7/365". Ontem recebi 18 e-mails pedindo-me, convidando-me e até me ordenando a enviar dinheiro para a campanha do Partido Democrata para estas eleições de meio de mandato. É o mesmo número que recebi na véspera e apenas alguns a mais do que recebo todos os dias há semanas.

Algumas dessas mensagens são urgentes, sugerindo que se eu não fizer mais uma doação o partido não atingirá suas metas de angariação de fundos, e fica implícito que será minha culpa se os democratas perderem o controle do Senado e da Câmara, "condenando a presidência Obama" e enviando os EUA ao inferno. "Faltam US$ 67.518 para nossa meta, e PRECISAMOS mostrar que estamos prontos para... responsabilizar os legisladores de direita por seu extremismo". Eles poderiam estar vendendo óleo de cobra ou um elixir milagroso.

Usando as melhores técnicas de marketing diretas e conduzidas por dados, eles prometem duplicar ou triplicar as contribuições recebidas "nas próximas seis horas". Caso eu não entenda a mensagem, o líder da maioria no Senado, Harry Reid, me escreveu: "Se os republicanos vencerem e tomarem o Senado, o Medicare será desmontado, a Seguridade Social será invadida e os direitos ao aborto serão eliminados". Sua colega Nancy Pelosi, líder da minoria na Câmara, iniciou uma de suas mensagens de forma imperativa: "Peter, assine seu nome". O Comitê da campanha senatorial democrata intitulou o seu "Alerta de Impeachment", referindo-se à confusão jurídica e possível processo de impeachment aberto pelos republicanos contra o presidente Obama, sem mais substância além de fazer manchetes e confusão. Eles precisam de mais dinheiro para revidar esse ataque.

O que todas as mensagens têm em comum é que pedem dinheiro para contrabalançar os enormes gastos dos muito ricos apoiadores dos republicanos que odeiam Obama e desejam comprar o Congresso dos EUA para que possam reduzir seus impostos pessoais e corporativos às custas dos programas sociais existentes, destinados a ajudar pessoas menos afortunadas que eles. Para esses gatos gordos, é um bom investimento.

Certamente existe um certo fascínio em tudo isso. Como marqueteiro, só posso me maravilhar com o excesso, o investimento cada vez maior para comprar cada vez menos dos chamados votos "oscilantes", o das pessoas que ainda não se decidiram e, pelo menos em teoria, não estarão tão alienadas pela nevasca de mensagens cada vez mais virulentas que se recusam a apoiar qualquer partido e apenas ficam em casa no dia da eleição - uma opção que felizmente não existe no Brasil.

Este gringo tenta explicar o sistema americano para seus amigos brasileiros; liberdade de expressão, espírito empreendedor, uma democracia sólida em ação. O problema é que quando sua caixa de entrada é inundada por mensagens políticas, na maioria tolas, especialmente aquelas que simplesmente pedem contribuições monetárias cada vez maiores e mais frequentes, somos obrigados a nos perguntar se o processo democrático perdeu o rumo.

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