OPINIÃO
25/03/2018 19:36 -03 | Atualizado 25/03/2018 19:36 -03

LinkedIn deveria ser LinkedOut

"Cheguei até a cogitar abandonar o LinkedIn de uma vez por todas como uma das minhas resoluções de ano novo."

Juanmonino via Getty Images

Da primeira vez eu pensei que tivesse sido um erro dos dedos gorduchos desse gringo batendo nas teclas erradas ou clicando meu mouse sem o devido respeito pela utilíssima criatura. Mas, à medida em que continuou acontecendo, e o LinkedIn continuou impermeável aos meus pedidos de explicação quanto à intencionalidade das ocorrências, na escala emocional eu passei de levemente irritado a consideravelmente irado. Cheguei até a cogitar abandonar o LinkedIn de uma vez por todas como uma das minhas resoluções de ano novo.

Eis aqui o porquê.

O que você acharia se recebesse essa mensagem na sua caixa de entrada dizendo que você tinha "aparecido em 3 buscas?

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Assim como eu, você poderia se sentir lisonjeado por estar sendo procurado por razões de negócio, por prazer, pelo que quer que seja. E, com certeza, você ficaria curioso em desvendar a identidade desses pesquisadores espertos. E então, assim como eu, você clicaria na caixinha, certo? E eis aqui o que apareceria na sua tela.

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Gozado...Eu me lembro distintamente que o LinkedIn me disse (no email pessoal de abertura 'Notificação. Não responder') que eu tinha aparecido em 3 buscas essa semana. Será que os outros dois pesquisadores se perderam?

Mais ou menos uma semana depois, Liz, do LinkedIn Sales Solutions me diz que o meu fã clube de 90 dias, considerando um periodo de sobreposição, cresceu em 400%. Mais uma boa notícia, se for mesmo verdade.

None

UAU, agora é que eu quero mesmo saber quem são essas pessoas.

O único probleminha é que para ver essas 13 pessoas eu tenho que me inscrever no Sales Navigator Professional por um período de experiência de 30 dias "grátis"se você não notificá-los da desistência. E para ganhar o período de experiência gratuito eu preciso dar meu meu cartão de crédito e um monte de outras informações para o LinkedIn. E porque isso? Para facilitar, aparece uma explicação sedutoramente redigida prometendo uma experiência de assinatura sem percalços. Mas, apesar dessas garantias, quando nem a CIA e o FBI conseguem manter sigilo de informações, quem dirá o LinkedIn?

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Como disse um personagem do dramaturgo Tom Stoppard, "Construir o suspense é uma arte". O LinkedIn parece ter dominado essa arte, levando (ou não levando) o curioso a descobrir quem realmente está interessado em lhe oferecer um novo emprego maravilhoso.

E como se não bastasse, eis o que acontece a seguir.

Eu levei pau em matemática na escolar mas, apesar de um grande esforço, não consegui descobrir de onde veio o número 267.

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É obvio que , assim como muitos filhos do Silicon Valley, o crescimento do número de 'assinantes' sejam eles pagantes ou não, é o KPI chave. Isso ajudaria a explicar o 'switch selling' exacerbado, que irrita não só a mim mas a muitas pessoas que apreciam os serviços do LinkedIn mas não a chateação.

'Consiga as assinaturas' é um mantra digital padrão dos financiadores que bancam o Silicon Valley. E, sendo que o LinkedIn pertence agora à Microsoft, seus contadores estão, sem dúvida, focados nisso e nos dados que cada assinatura traz. Escrevendo para o 'Forbes', Grant Feller declarou sobre o LinkedIn: "Eles sabem onde as pessoas trabalham, sua habilidades, quem foram seus colegas de escola, e quais são seus interesses. O LinkedIn sabe mais sobre as pessoas do que a Microsoft.

Atualmente é virtualmente impossível avaliar se essa estratégia está valendo a pena. Depois que a Microsoft pagou a absurda quantia de 26,2 bilhões de dólares por uma empresa essencialmente sem lucros com ações em queda, os números não estão mais disponíveis. Na época, a CEO da Microsoft Satya Nadella definiu o acordo como a peça chave de sua estratégia para os "serviços de cloud e software". Isso também faz da Microsoft um dos principais jogadores na cada vez mais competitiva Olimpíada das redes sociais. Mas será que isso justifica a pentelhação?

A questão é: devemos todos ser LinkedIn ou LinkedOut? Algo para se pensar nas resoluções de ano novo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.