OPINIÃO
17/04/2015 18:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Hillary, democracia e política: paciência tem limites

Spencer Platt via Getty Images
NEW YORK, NY - APRIL 11: Stickers are handed out to supporters of Hillary Rodham Clinton's yet to be announced presidential campaign at a rally in Manhattan on April 11, 2015 in New York City. It is expected that Clinton will end months of speculation and launch her anticipated 2016 presidential campaign on Sunday with an announcement on social media. Following that it is believed that candidate Clinton will travel to Iowa and New Hampshire, seeking to connect directly with voters in more intimate settings. (Photo by Spencer Platt/Getty Images)

Como a maioria das mães, a minha só tolerava minhas peraltices até certo ponto. Quando a paciência dela finalmente se esgotava, e depois de já ter me dito pelo menos duas ou três vezes para parar de fazer o que eu estava fazendo, ela erguia a voz para dar ênfase maior e soltava uma das poucas frases que sabia em alemão: "Genug ist genug!" (Já chega!).

Como gringo que observa o processo eleitoral americano à distância, minha paciência também está quase esgotada. O que parece estar acontecendo já passou tanto dos limites que devemos ser gratos porque o processo eleitoral brasileiro, apesar de seus muitos inconvenientes, ainda não degenerou a esse nível.

Comecemos pelo anúncio feito na semana passada da entrada formal de Hillary Clinton na disputa pela eleição presidencial de novembro do ano que vem. Na descrição irônica feita pelo Economist, foi um evento "tão surpreendente quanto a notícia de que o 'Cinco de Mayo' [feriado mexicano-americano que lembra a Batalha de Puebla] vai voltar a acontecer no dia 5 de maio". Onze anúncios por e-mail chegaram à minha caixa de entrada no domingo, 12 de abril, competindo por minha atenção com títulos como "O grande anúncio", "Peter: Hillary está dentro. E você?", "Todos apostando em Hillary" e vários outros.

O que os e-mails têm em comum, tirando a reapresentação banal e em tom de falso suspense da notícia nem um pouquinho surpreendente de que Hillary voltará a buscar a candidatura democrata à presidência que perdeu para Obama na última vez, é o fato de todos terem pedido doações de dinheiro e mais dinheiro.

A Associação de Governadores Democratas escreveu: "Hillary Clinton acaba de anunciar sua campanha para presidente, e isso significa uma coisa: 2016 COMEÇA AGORA. DOE AGORA PELA VITÓRIA DEMOCRATA EM TODO O PAÍS!"

É claro que a campanha não começou agora. Ela vem sendo travada sem parar e há muito tempo, com fervor crescente. Mas eu estou chegando ao ponto em que realmente quero gritar "basta!". Desde 2012 já recebi mais de 3,9 mil e-mails, e todos menos um punhado me pediram dinheiro.

Isso não chega a surpreender, quando consideramos que alguns poucos (muito poucos) republicanos ricos, uma fração minúscula e altamente conservadora que não chega a representar 1% do eleitorado americano, comprou a eleição parlamentar do ano passado e hoje controla o Câmara dos Deputados e o Senado americanos, que parecem estar preocupados principalmente em reduzir os impostos pagos pelas pessoas que os elegeram, às expensas dos programas públicos voltados aos que têm menos sorte que eles.

A matemática é simples. Uma redução pequena nas alíquotas tributárias sobre esses indivíduos que já são muito ricos pode facilmente lhes devolver todo o investimento que fizeram na compra do governo dos EUA. Sejam quais forem os montantes de dinheiro da Petrobras e de outras fontes usados pelo PT para se reeleger, são fichinha comparados aos aproximados US$ 2,6 bilhões gastos com publicidade política na TV americana em 2014 - dinheiro esse usado principalmente para inundar os canais de televisão com anúncios que atacaram os democratas.

Enquanto a "corrupção" vem recebendo mais e mais atenção aqui no Brasil, como deveria, o tema parece não preocupar tanto a meus compatriotas. Uma decisão altamente controversa tomada pela Suprema Corte alguns anos atrás (na ação judicial Cidadãos Unidos vs. Comissão Eleitoral Federal) abriu as comportas para doações políticas ilimitadas feitas por empresas, com base no argumento de que as restrições então existentes violavam as proteções à "liberdade de expressão" contidas na Primeira Emenda à Constituição americana. Ironicamente, a "livre expressão" que está sendo protegida neste caso é tudo menos gratuita. Seu preço é altíssimo, tanto que geralmente só pode ser pago por bilionários.

O que poderia ser mais corrompedor que o fato de um candidato precisar de muito, muito dinheiro para se fazer eleger, somado aos favores exigidos para conseguir aqueles cheques polpudos? Parece que a única maneira de combater esse fenômeno é com doações de campanha feitas por pessoas físicas, e é a necessidade destas que motiva o tsunami interminável de pedidos de dinheiro.

Isto precisa parar. Se a democracia vai ser cada vez mais refém de quem tem os bolsos mais fundos, ela é, lamentavelmente, uma ideia maravilhosa cujo tempo já ficou para trás.

No Brasil e nos Estados Unidos, quando é que vamos erguer as mãos, gritar genug ist genug e tomar uma atitude para acabar com isso?