OPINIÃO
15/04/2014 12:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

GringoView: Viagem musical

As improvisações e experimentações e o brilhantismo técnico de Egberto transpiram a confiança suprema de um grande artista. Sentimo-nos levados para seu mundo privado de explorações, e suas mãos ágeis nos guiam por lugares em que nunca estivéramos antes

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Egberto Gismonti me levou, junto com algumas centenas de outros sortudos amantes da música, numa incrível viagem ao coração da música de verdade. Esse extraordinário artista, compositor, instrumentista e cantor abriu a série de shows "Instrumental no Conservatório" deste ano, na elegante Sala do Conservatório, na Praça das Artes, em São Paulo, diante de uma casa merecidamente cheia. (Aqui, o programa dos shows).

E que abertura. Sob aplausos emocionados, Egberto, com uma bandana laranja na cabeça, seu cabelo grisalho arranjado no tradicional rabo-de-cavalo descendo por suas costas, pegou um de seus dois violões de múltiplas cordas feitos sob encomenda, e a viagem teve início.

"Música" não tem definição. Como a ouvimos é algo extremamente pessoal. Para a maioria das pessoas, uma canção ou composição instrumental ressoa em nossa mente e a expectativa é que a frase que estamos escutando vai ter uma resolução tonal reconfortante: vai "parecer" certo. Talvez por isso compositores modernos como John Cage não sejam tão convidativos. Suas composições não parecem certas, por mais que sejam intelectualmente interessantes. Queremos sentir nossa música, não pensar nela.

As improvisações e experimentações e o brilhantismo técnico de Egberto transpiram a confiança suprema de um grande artista. Sentimo-nos levados para seu mundo privado de explorações musicais, sem duvidar por um segundo sequer, por mais longe que ele esteja do nosso caminho tonal, que suas mãos ágeis vão nos guiar por lugares em que nunca estivéramos antes. Os ritmos que ele cria como rajadas de vento parecem perseguir uns aos outros até perderem o fôlego, quando então se acalmam e as notas melódicas individuais assumem o controle.

Eles são familiares, mas de difícil definição. A própria forma musical de Egberto desafia as definições. Uma gravação de 1977 com Naná Vasconcelos, Dança das Cabeças, ganhou prêmios internacionais de música pop na Inglaterra, música folclórica nos Estados Unidos e música clássica na Alemanha. Tente colar rótulos convenientes em sua música: eles não vão pegar. Procure ecos de Heitor Villa-Lobos em suas composições e, por mais que este grande compositor tenha influenciado Egberto, você não vai ouvir nada além de um eco.

O que você vai ouvir é uma diversidade musical extraordinária, em um momento as variações desinibidas e extravagantes que você esperaria em um show de jazz, no outro um simples frevo, ou samba carioca, ou um batuque de índios da Amazônia, tudo misturado em uma expressão altamente pessoal da herança musical brasileira que ele acumulou com sua profunda experiência com os vários povos do Brasil. Não há superficialidade. Egberto sempre joga longe as folhas caídas e cava fundo nas raízes de sua cultura.

A experiência de viver um mês com a tribo Yawaiapitì, na Amazônia, um raro convite que resultou de duas semanas que ele passou na floresta tocando sua flauta até que o chefe da tribo lhe desse as boas-vindas. Ele prontamente concordou em disseminar os valores da tribo, e seu entendimento dessa cultura primitiva, da qual a música é parte vital no dia-a-dia, tornou-se parte de seu trabalho.

Ouvi-lo tirar sons inimagináveis do violão, às vezes fazendo que eles pareçam mais uma orquestra que um único instrumento, uma mão batucando ritmos mutantes do lado do instrumento enquanto a outra evoca melodia das cordas, é inesquecível. Quando ele deixa o violão de lado e vai para o piano, combina a mesma destreza extraordinária, no que parece ser uma busca interminável pela essência da música. Temos sorte de compartilhar dessa busca, sentir essa paixão musical. Apesar das dissonâncias, da exploração de lugares estranhos, tudo sempre parece certo. Que ele tenha comprado de volta das gravadoras os direitos sobre suas gravações está totalmente de acordo com seu caráter.

Numa pausa uma mulher pede que ele toque Palhaço, certamente uma de suas músicas mais conhecidas. Ele sorri e pede que ela espere: ele garante que ela não vai ficar desapontada. Então ele volta ao piano e começa a tocar, nos levando em outra viagem de improvisação musical, incluindo uma visita a algumas frases de Palhaço - o suficiente para a plateia sorrir em reconhecimento, mas sem diminuir a originalidade da peça.

Quando o concerto terminou e o último bis tinha sido tocado, restou uma sensação de feliz exaustão. Foi uma viagem musical única e uma experiência muito especial.