OPINIÃO
17/07/2015 16:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Gringoview: uma semana em São Miguel dos Milagres

São Miguel dos Milagres, no canto norte de Alagoas, é um lugar que geralmente passa despercebido. Fica a duas horas de carro de Maceió, na costa leste do Brasil, passando por canaviais e imensos eucaliptais cuidadosamente plantados.

arquivo pessoal

Para um gringo começar a entender o Brasil, ajuda muito se ele se afastar de São Paulo. Quando vivemos e trabalhamos nesta grande metrópole, é fácil pensar que este é o verdadeiro Brasil. É preciso viajar para longe dos lugares mais comuns e populares para perceber o quanto da essência do Brasil real perdemos nas grandes cidades.

Essa visão prosaica pode ser modificada dramaticamente com uma semana em São Miguel dos Milagres, no canto norte de Alagoas, um lugar que geralmente passa despercebido. Fica a duas horas de carro de Maceió, na costa leste do Brasil, passando por canaviais e imensos eucaliptais cuidadosamente plantados.

Uma década atrás, na última vez em que alguém fez a conta, o município tinha aproximadamente 6 mil habitantes.

Os moradores se sustentam tradicionalmente principalmente com a pesca nas muitas lagoas naturais formadas do lado interno dos recifes de corais quando a maré está baixa, e também no mar além dos recifes. Mas a pesca é um trabalho muito árduo, e embora algumas das pessoas mais velhas continuem enquanto podem, seus filhos têm pouco interesse nisso e procuram uma vida mais fácil, quando conseguem. Para ajudar a preservar os estoques de peixes, o governo paga os pescadores para não pescar por seis meses ao ano, e os costumes antigos estão desaparecendo rapidamente. Na verdade, a pescaria diária muitas vezes nem chega a suprir a demanda da própria comunidade e suas pousadas.

"É preciso lembrar que, apesar de todo o hype, este ainda é um país de terceiro mundo, incrivelmente cheio de oportunidades, mas com desafios imensos também", fala o israelense Tsachi Greenhut, que, com sua esposa Jessy, brasileira de origem libanesa, criou em São Miguel dos Milagres a pequena e deliciosa Pousada da Amendoeira, composta de nove bangalôs confortáveis situados a passos de distância da bela Praia do Toque, com palmeiras a perder de vista. O que a torna "deliciosa" não é apenas a comida, verdadeiramente excepcional, mas também a atenção extrema e a qualidade amorosa investidas em cada detalhe do estabelecimento.

Tendo morado em Tel Aviv, Boston e Costa Rica, Tsachi e Jessy definiram duas prioridades em sua vida conjunta: queriam viver com simplicidade e conforto, "o mais perto possível da natureza, e de modo sustentável", e queriam "devolver à comunidade em que vivemos pelo menos tanto quanto recebemos dela". Ter encontrado uma pousada já existente em São Miguel dos Milagres "foi apenas um golpe de sorte", diz Jessy. Em vez de procurar impor um "estilo" pré-concebido, eles simplesmente deixaram seu próprio compromisso com a ideia de que "menos é mais" ser contagiante e conferir ao lugar um caráter singular e de alta qualidade.

Jessy gosta de cozinhar. Em vez de procurar e contratar um "chef", ela descobriu que entre os funcionários da pousada, todos moradores locais, havia pessoas talentosas e dispostas a aprender, pessoas que hoje preparam toda a comida e que são incentivadas a acrescentar toques próprios. Não há bufê; tudo é preparado a pedido, e, pelo fato de Jessy dar preferência a pratos muito saudáveis e adorar surpresas, delícias incríveis e inesperadas aparecem, sempre com apresentação linda, mas nunca pretensiosa.

Cada um dos 22 funcionários da pousada é um "sócio" que tem participação igual no sucesso do empreendimento. Isso não é apenas da boca para fora. Os funcionários atuam como equipe estreitamente unida, com um esprit de corps incomum. Tsachi se orgulha muito do treinamento dado a cada funcionário.

"Toda a publicidade do mundo não vale tanto quanto um sorriso sincero", ele diz.

Dar algo de volta à comunidade não se resume a gerar empregos. Com o declínio da pesca, e com pouco senão o setor turístico pequeno mas crescente a oferecer empregos, ele e Jessy se propuseram a fazer uma diferença positiva na comunidade. Como gringos, precisavam conquistar aceitação, algo que não vinha com facilidade.

"É claro que nossa atenção principal vai para a pousada", diz Tsachi, "mas nada seria possível sem um esforço grande para trabalhar com a comunidade como um todo. Foi por isso que ajudamos a organizar o Instituto Yandê, uma ONG, para atender a três comunidades, e agora dedicamos quase tanto tempo e esforço a isso quanto à pousada." Promover a leitura entre crianças e adultos, o ensino de informática e treinamento vocacional são metas chaves. "Se você puder ampliar o universo cultural dos moradores, ajudá-los a preservar as tradições locais e oferecer uma maneira de ganhar receita adicional com a produção de artesanato local, estará contribuindo."

Uma estadia nesta pousada excepcional é incrivelmente tranquila, e é impossível não se deixar envolver pelo ambiente contagiante, mas que em momento algum parece se intrometer. Deve haver muitos outros lugares como este em várias partes do país, longe dos pontos mais conhecidos e populares, distantes das grandes cidades e que, como diz o Guia Michelin, sem dúvida alguma justificam a viagem.

Conheça o local:

Galeria de Fotos Longe dos lugares mais populares Veja Fotos