OPINIÃO
26/05/2014 12:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Gringoview: Relembrando Dr. Roberto

Apesar de "fazer uma diferença" ter-se tornado um clichê, Roberto realmente se dedicava a isso. Por mais importante que a Abril fosse para ele como empresa, o mais importante era como ele e ela poderiam ser uma força para o bem em um país que ele amava e que chamava de seu.

Estadão Conteúdo

Faz apenas um ano que Roberto Civita faleceu, e, como tantas outras pessoas que o conheceram bem, sinto uma falta enorme dele. Embora possa parecer contraditório, o ano passou muito rápido e muito devagar. Rápido porque o ritmo das coisas hoje não desacelera para ninguém e para nada. E devagar porque a perda de alguém tão especial quanto Roberto não pode ser posta de lado ou simplesmente aceita. Ela está ali com você, todos dias.

Nós trabalhamos e viajamos o mundo juntos, e ele foi meu amigo mais próximo durante quase meio século. Essa grande amizade e seu convite para que eu viesse morar no Brasil, para "ajudar a fazer uma diferença", foram irresistíveis. Foi, como diz a máfia, uma oferta que não eu não poderia recusar.

Apesar de "fazer uma diferença" ter-se tornado um clichê, Roberto realmente se dedicava a isso. Por mais importante que a Abril fosse para ele como empresa, o mais importante era como ele e ela poderiam ser uma força para o bem em um país que ele amava e que chamava de seu, apesar de aqui não ter nascido ou feito seus estudos superiores.

Em um almoço alguns anos atrás, exibindo seu sorriso contagiante, ele disse com um pouquinho de timidez: "O que eu adoro no meu emprego é que posso convidar qualquer pessoa do Brasil para vir almoçar aqui, e ela virá. Que oportunidade única e maravilhosa para descobrir todo tipo de coisas, e talvez até tentar mudá-las um pouco".

Descobrir "todo tipo de coisas" era uma das paixões de Roberto. Sua curiosidade não estaria satisfeita enquanto ele não soubesse o máximo possível sobre uma coisa. Um exemplar do gigantesco Oxford English Dictionary ficava em um suporte especial ao lado de sua mesa, para que ele pudesse verificar a origem de qualquer palavra que lhe interessasse. E, como ele costumava dizer, essa jornada de descoberta, procurar a origem de uma palavra, o apresentou a muitas outras. Era algo maravilhosamente interminável, e o conhecimento nunca poderia ser demasiado.

Quando novos colegas o procuravam com volumosas apresentações em PowerPoint sobre algum assunto, ele costumava colocar o material de lado, olhar o colega no olho e fazer uma simples pergunta: "Qual é a história?" Era isso que ele sempre queria saber, porque, como não se cansava de explicar, se não houvesse história, se não houvesse um coração no que seria apresentado, por que se incomodar? É claro que os fatos eram importantes, e ele era rigoroso ao insistir na precisão dos negócios editoriais da Abril, assim como nas reportagens das revistas. Mas o mais importante para ele era sempre o coração da questão: faria diferença?

Serão necessários muitos anos para julgar quanta diferença Roberto fez no Brasil e nas instituições e na cultura que o definem. Para nós que tivemos o privilégio de trabalhar com e para ele, e ainda mais tê-lo como um amigo, essa diferença é profunda e extremamente respeitada.

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