OPINIÃO
12/03/2014 14:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

GringoView: primeiro post

Havia algo indescritivelmente maravilhoso no Rio, completamente diferente da atmosfera militarmente suspeita de Buenos Aires e da indiferença sonolenta de Caracas. Era um sinal de boas-vindas.

O que um gringo como eu está fazendo num lugar desses?

Você bem que poderia perguntar.

O que é essa magia louca do Brasil que quase meio século atrás me seduziu quando me vi na ala de desembarque do caótico aeroporto internacional do Rio, na época um prédio gigante e coberto de azulejos, mais parecido com um mictório público?

Os anúncios para os passageiros eram incompreensíveis porque o som quicava de uma parede para a outra, brigando com a música e com a conversa em alto volume. (Não é de espantar que, quando o novo aeroporto foi inaugurado, no começo de 1977, as autoridades contrataram a sedutora Iris Lettieri e sua voz suspirante para fazer os anúncios. Hipnotizados pela voz, os passageiros chegavam a perder seus voos.)

Mas havia algo indescritivelmente maravilhoso ali, completamente diferente da atmosfera militarmente suspeita de Buenos Aires e da indiferença sonolenta de Caracas. A injeção de adrenalina do Rio era o melhor sinal de boas-vindas.

O caminho de táxi até a cidade, num Fusca sem o banco do passageiro da frente, só melhorou toda a loucura. A Bossa Nova que gritava no rádio do carro era a trilha perfeita para ver pela primeira vez o Rio e sua beleza de tirar o fôlego. Me perguntava se aqueles primeiros marinheiros portugueses, admirando as praias virgens e os morros que as cercam, também não teriam sido vítimas do mesmo encanto.

Meu anfitrião, um diplomata brasileiro que conheci em Londres quando nossas filhas brincavam no mesmo parque, estava intrigado. Ele viu que eu estava me apaixonando e, com a reserva de um diplomata experiente, não entendia o que era tão especial para mim. É que ele estava perto demais daquilo tudo.

O que mantém acesa a chama da minha paixão pelo Brasil?

Com tudo o que mudou nessas décadas, algumas coisas definitivamente para melhor, muitas outras, para pior, o que é que ainda me fascina e me delicia? Com certeza não é a corrupção, que parece poluir todos os aspectos da vida pública, nem a burocracia labiríntica, que complica as coisas mais simples, nem também o trânsito - o que eu posso fazer a respeito dele além de arrancar os cabelos que me restam? E xingar?

Por que um americano educado, viajado e essencialmente solto para vagar pelo mundo escolheria o Brasil para criar raízes?

Descobrir por que é a razão da existência deste GringoView. Talvez seja possível enxergar de relance o que é a cultura brasileira através do prisma de um pequeno observador que vem de fora.

Espero que você participe dessa jornada e me avise quando eu errar o caminho.