OPINIÃO
29/05/2015 18:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

GringoView: O circo chegou à cidade

divulgação

Este gringo que vos fala não chegou exatamente a fugir para trabalhar no circo, essa grande evasão para o mundo mágico dos artistas cênicos. Mas me envolvi com o circo e virei "viciado", viajando com o premiado Big Apple Circus, de Nova York, e me tornando membro de seu conselho de direção.

Talvez seja por isso que "Circos - Festival Internacional Sesc de Circo", a terceira edição deste festival anual maior e melhor - possivelmente o maior festival de circo do mundo -, que começou no Sesc Pinheiros em 28 de maio, seja um prazer tão grande. O festival vai continuar até 7 de junho, com 28 espetáculos nacionais e internacionais de dez países, além do Brasil, apresentados em 15 unidades do Sesc. Também haverá workshops e seminários. Ao todo, o festival promete oferecer experiências excepcionais e imperdíveis.

O historiador do circo Dominique Jando escreveu: "Existe algo de primordial e excitante em deixar os detalhes prosaicos da vida para trás, decidir-se a seguir o destino de quem tem coração de cigano e sair da cidade de carona num caminhão de circo". Jando entendia aquela qualidade especial que define uma comunidade circense.

Ela é diferente de qualquer outra; possui um éthos e uma disciplina muito especiais. Pelo fato de que, ao término das apresentações em uma cidade, o circo tem que dobrar sua tenda, guardar todos seus equipamentos nos caminhões e partir para a cidade seguinte para ali rapidamente montar tudo outra vez, as funções e hierarquias são tradicionalmente muito rígidas no circo. Quanto maior o perigo do número apresentado, mais alto é a posição que o artista ocupa nessa hierarquia, mas todos os membros da trupe precisam trabalhar juntos perfeitamente para criar aquela magia especial.

O que hoje conhecemos como "circo" é algo que evoluiu continuamente desde suas origens no século 18, quando se baseava principalmente em façanhas equestres com cavaleiros realizando proezas cada vez mais difíceis. O picadeiro no qual os cavalos galopavam foi inventado para permitir que o público acompanhasse toda a ação, algo que teria sido impossível se eles se andassem em linha reta. O tamanho do picadeiro - hoje definido internacionalmente como tendo diâmetro de 12,8 metros - era perfeito para o passo dos cavalos. Para tornar as performances hípicas mais interessantes, foram introduzidos acrobatas, malabaristas, equilibristas, trapezistas e os palhaços que tinham feito parte tão importante do entretenimento teatral e das cortes elizabetanas.

Embora esses circos itinerantes ainda existam e possam realmente deixar as plateias fascinadas, eles são muito diferentes do movimento do "novo circo", lançado nos anos 1970 na Europa com o Circus Roncalli, nos Estados Unidos com o The Big Apple Circus e no Canadá com os espetáculos assombrosos do Cirque du Soleil e outras trupes novas.

O circo tradicional nos convida a mergulhar em um mundo mágico, ficar maravilhados com a coragem e as habilidades incomuns dos artistas, com animais treinados realizando truques emocionantes e o humor dos palhaços misturado a um ambiente festivo de cores, luz e música. Havia serragem no chão, algodão-doce e o cheiro distinto dos animais. Era fácil imaginar-se fugindo de casa para entrar na trupe.

O movimento do novo circo substituiu muito disso e, com graus variados de êxito, quer tornar-se algo mais que mero entretenimento. Hoje o circo muitas vezes transmite uma mensagem.

O espetáculo que abre o Festival do Sesc, "ACELERE", do Circolômbia e com direção do brasileiro Renato Rocha, tem como ponto de partida a diversidade étnica dos colombianos e a aceleração cada vez maior do mundo atual. Ao som de hip-hop e rap, somos apresentados a uma paisagem que remete ao enfrentamento entre as gangues em "West Side Story", com os artistas individualmente e em grupos aparentemente preparando-se para uma briga. À medida que os empurrões se intensificam, a ação se funde em levantamentos acrobáticos e números cada vez mais difíceis. É como se a trupe estivesse usando seus talentos acrobáticos e circenses para nos obrigar a perguntar se nós, como os artistas, estamos fazendo uso máximo de nossos talentos.

Há uma tradição circense forte segundo a qual, se você erra seu número quando está se apresentando - se deixa cair uma bola ao fazer um malabarismo ou se cai do trapézio para a rede -, você refaz o número para acertar. Com isso em mente, nas duas vezes em que foram cometidos erros no espetáculo, os números foram repetidos. O resultado foi uma mensagem metafórica poderosa sobre nunca desistir.

A que se deve essa atenção toda do Sesc ao circo?

Ecoando as palavras de Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, Carolina Garcez, curadora do festival, comenta: "Assim como acontece com os festivais anuais de teatro e dança do Sesc, queremos satisfazer o desejo expresso do público pelo circo e sua linguagem especial, que une as pessoas. O interesse pelo circo é crescente, e nossa missão é atender à nossa base, proporcionando a ela uma diversidade de experiências culturais." O circo pode ser visto como uma linguagem universal, física e não verbal, acessível a todos, independentemente de suas origens ou seus quadros de referência.

Ainda é cedo para dizer se o "novo circo" acrescenta algo ao velho ou lhe subtrai alguma coisa. Acabaram-se o picadeiro, a serragem e o ambiente adorado e ligeiramente maltrapilho que caracterizava os circos itinerantes. No lugar deles temos um proscênio, som hi-fi, movimentos coreografados e show-business muitas vezes altamente sofisticado - mais técnica que coração, por mais bem executado seja.

Não podemos todos fugir para entrar para o circo, mas durante este festival podemos escolher a segunda melhor opção, indo ao Sesc mais próximo e compartilhando a alegria das apresentações.