OPINIÃO
04/04/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

GringoView: Magia negra

Uma noite, voltando de uma festa, num momento de frivolidade, minha mulher ficou na ponta dos pés e deu um beijo bem na boca do Chico Rei. No exato instante do beijo, eu...

Todos os meus amigos brasileiros dizem que o Brasil é cheio de magia negra, mas eu nunca acreditei muito nisso. A única magia negra que me enfeitiçou foi aquela cantada pelo Frank Sinatra.

Histórias de rituais solenes de macumba e espíritos do candomblé deixaram este gringo tão cético quanto as de visões de óvnis e a invasão do planeta por homenzinhos verdes. Até mesmo vestir branco no Ano Novo, pular ondas e deixar cestas com velas e presentes para Iemanjá pode ser charmoso, mas não é exatamente mágica. Aquela fita amarela de Oxum no meu pulso, com os dizeres Lembrança do Senhor do Bonfim e devidamente amarrada com três nós e seus respectivos desejos pode ter ajudado na minha sorte - ou não.

Isso antes do Chico Rei aparecer na minha vida.

Algum tempo atrás, visitando uma mina abandonada em Ouro Preto, vi numa parede perto de onde se compravam os ingressos o que parecia um grande (mais de um metro e meio de altura) retrato de Chico Rei, decorado com um colar de pele, jóias e lantejoulas. Parecia um exemplo perfeito de arte naïf brasileira, uma expressão que só poderia ter vindo do coração.

A moça do balcão me explicou pacientemente que Chico Rei fora um chefe tribal no Congo quando seu povo foi escravizado e trazido para o Brasil para trabalhar nas minas. Major Augusto, o dono da mina, tinha passado a admirar Chico Rei. Quando o ouro estava acabando, ele ofereceu a ele e aos seus homens a liberdade, se eles extraíssem o ouro que restava. Eles conseguiram e, por isso, o líder tribal foi batizado de "rei". Desde meados do século 18 ele é reverenciado como um emancipador dos escravos.

A pintura foi feita para a procissão anual da Nossa Senhora do Rosário. Disse à moça do caixa que deixá-la pendurada do lado de fora acabaria estragando a obra. Tentei comprá-la, para preservá-la e exibi-la com o cuidado que ela merece. Mas nada disso adiantou. A obra foi um presente da artista e não estava à venda. Em busca de outras obras-primas, finalmente achei a artista, na favela de Ouro Preto. Ela não tinha nada para mostrar e disse que não era artista: decorava panos de prato e disse que fez a pintura simplesmente para homenagear Chico Rei.

Alguns meses depois consegui enfim comprar a pintura, que foi para um lugar de honra em meu apartamento. Aquele sorriso maravilhoso de Chico Rei recebia a mim e meus convidados assim que a porta era aberta. Enchia o apartamento de luz e calor.

Uma noite, voltando de uma festa, num momento de frivolidade, minha mulher ficou na ponta dos pés e deu um beijo bem na boca do Chico Rei. No exato instante do beijo, ouvi um estalo: a pequena figa de madeira que estava num colar no meu pescoço explodiu em sete pedaços. Alguma coisa mágica estava acontecendo.

A figa tinha sido talhada por um amigo artista de Embu. Ele me disse para usá-la para sempre, pois ela carregava muita magia. Também fui avisado: se eu a perdesse ou quebrasse, a boa sorte daquela figa se perderia para sempre. Juntei diligentemente todos os pedaços que estavam na minha camisa.

O que fazer?, perguntei a amigos, que por sua vez consultaram especialistas em macumba e candomblé. Como sempre acontece quando consultores estão envolvidos, recebi duas respostas conflitantes. Uma disse que eu deveria levar os pedaços para o mar e fazer uma oferta a Iemanjá. Outra disse que eu deveria colá-los de volta com cuidado e voltar a usar a figa religiosamente. Mas eu deveria entender a seriedade do recado dado por Chico Rei: ele é muito poderoso e não deve ser motivo de piada.

Continuo cuidando do Chico Rei, e ele segue em seu lugar de honra, sempre cercado de flores frescas e velas. O que sobrou da figa está no meu colar.

Magia brasileira? Agora eu acredito. E você?