OPINIÃO
25/11/2015 16:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

GringoView: Grafite ou Arte Urbana?

Passeando com meu cachorro um dia desses, fiquei espantado com o desenho de um homem que emprestava beleza a um muro feio e decadente. Ele não estava lá na noite anterior.

Passeando com meu cachorro um dia desses, fiquei espantado com o desenho de um homem que emprestava beleza a um muro feio e decadente. Ele não estava lá na noite anterior.

Virando a esquina, outro desenho me chamou a atenção. Era obviamente do mesmo artista. A esquina ganhou vida e me fez sorrir. Não eram simplesmente pichações. Eram a expressão de um artista talentoso fazendo declarações poderosas para quem passasse diante delas. Decidi encontrá-lo e saber mais sobre ele.

Por coincidência, estava lendo The Lost World of the Kalahari (O mundo perdido de Kalahari, em tradução livre), de Laurent Van Der Post, uma aventura nos desertos do sul da África em busca da antiga cultura dos primeiros habitantes da região. Ele escreve:

"Nos penhascos de uma baía profunda deparamos com a maiores das obras-primas... a uma distância de uns 15 metros e a 4 metros de altura, a pintura de uma cena movimentada do mundo animal".

David Lewis Williams escreveu na National Geographic: "Pinturas rupestres não eram somente representações da vida; também eram repositórios dela."

Essas pinturas eram grafites primitivos nos muros das cavernas ou obras de arte exibidas com grande sensibilidade artística na tela da natureza?

O que vemos em toda parte é uma invasão do nosso espaço urbano ou o desejo de alguns artistas de enriquecer nosso ambiente, ou de pelo menos se expressar?

Temos de nos perguntar onde termina uma coisa e começa a outra?

Num lance de sorte excepcional, achei o artista cujas obras tanto admirei. Seu nome é Thiago Bender, e ele tem 38 anos .

Um paulistano gentil e comprometido que fica enrolando sem parar a ponta do seu bigode Salvador Dalí, Thiago se descreve como um "artista ambiental" e diz, lembrando involuntariamente os primeiros africanos, que seu trabalho é "uma declaração política, um reflexo das nossas memórias coletivas arquetípicas e das maneiras de nos relacionar com a Terra".

Seus primeiros trabalhos foram o que ele chama de "Arte da Terra", usando a natureza para fazer algo belo, mesmo que instantes depois as ondas apagassem tudo. "É como voltar no tempo, para nossas origens", diz ele. "Em pouco tempo você tem o nascimento, a maturidade e a morte. É muito revigorante."

Thiago odeia a feiúra que vê a seu redor em São Paulo. Não só a pobreza e a impotência das pessoas que dividem o espaço urbano de forma desigual. Quando questionado por que se concentra em figuras simples, ele ri e diz que "você tem de voltar pras coisas antigas para criar o novo". Para Thiago, um pilar de concreto onde alguém pendurou um anúncio de "Compro ouro" está pedindo para ser transformado, uma maneira leve de dar prazer aos olhos (e se livrar da placa). Ele tem certeza de que essa é uma maneira de "restaurar e revitalizar os bairros".

Ele admite que muito do grafite que cobre as superfícies de São Paulo é feio. Mas defende as pichações, dizendo que tudo já é tão feio, mesmo. E os jovens sem acesso a educação rabiscam seus nomes da única maneira que sabem, no estilo tipográfico que todos conhecemos.

Curiosamente, Thiago diz que a tipografia que se vê nas pichações do Rio é diferente, porque lá a educação é diferente.

Não é fácil viver como artista, segundo Thiago. Ele diz que há de 3 a 5 mil artistas em São Paulo, e cerca de 800 pichadores que profanam prédios.

Para estes, diz ele, a situação é muito ruim, e a expressão agressiva é simplesmente um reflexo da agressividade concreta e inerente a seus ambientes.

Muito preocupado com o meio ambiente, Thiago diz que jamais desenha em muros "limpos", apenas naqueles em que seu trabalho vai acrescentar beleza.

A polícia não o incomoda, diz ele. "Eles apreciam a beleza", afirma Thiago.

Além da pintura, ele dedica alguns dias da semana para fazer esculturas ou outros objetos com garrafas ou latas usadas.

As peças são vendidas. "Materiais reciclados são obras de arte expressivas, únicas e acessíveis para o público. Imagine o impacto para a imagem de sustentabilidade de uma empresa como a Coca-Cola se milhões de latinhas fossem recicladas por artistas em vez de poluir o ambiente?", diz ele.

"Por que o lixo não pode virar arte?" Para provar seu argumento, num evento de grafite no Morro Doce, no fim do ano passado, ele criou uma maravilhosa figura usando como matéria-prima as latas de spray vazia dos grafiteiros.

Thiago Bender é especial, mas ele diria que há vários artistas como ele, tentando embelezar o cenário urbano.

Parafraseando David Lewis Williams, talvez a arte urbana seja mais que apenas representações da vida.

Talvez sejam um repositório dela.

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