OPINIÃO
18/03/2014 06:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

GringoView: Fugindo do carnaval, um ritual anual

Fugir do carnaval é tanto um exercício mental como logístico. O segredo da minha fuga hoje é encontrar um lugar especial no meio da natureza, onde o único samba esteja na TV (e a recepção não seja das melhores).

Fugir do carnaval é tanto um exercício mental como logístico.

Um colega e bom amigo brasileiro estava convicto de que a melhor -- na verdade, a única -- maneira de curtir o carnaval era com um copo de uma boa pinga ou garapa em uma mão e o controle remoto com o dedo no botão de desligar a TV na outra. Essa era sua tática de fuga.

Alguns de vocês devem concordar com minha visão talvez repisada: para ter sucesso nessa fuga você precisa ter o poder do não -- você não vai pensar como costumava ser legal:

  • Ser espremido nas ruas estreitas de Olinda;
  • Esperar e suar em intermináveis filas para chegar perto dos trio elétricos de Salvador;
  • Lutar para dormir com a batida incansável do frevo que toca a noite toda em Jeri;
  • Lembrar de qual escola de samba você gostou mais quando, depois de algumas horas e muita cerveja, tudo virou uma grande mistura ondulante de peitos e bumbuns, decorados com mais penas que todos os pássaros da Amazônia -- e sorrindo, sempre sorrindo.

Nem sempre foi assim. Dez anos atrás, o carnaval visto de um camarote VIP no Rio era espetacular, pelo menos na primeira noite. Eu adorava seguir os bonecos gigantes chacoalhando sobre as massas de Olinda e cantei até ficar rouco com as bandas que costuravam as multidões de baianos pelas ruas de Salvador.

Como tanto da nossa vida moderna, talvez o carnaval tenha se ritualizado e comercializado demais. A paixão na comemoração dos últimos dias antes da Quaresma talvez esteja dando lugar à rotina e à possibilidade de ser visto por dez segundos na TV.

Anos atrás na estrada de terra que era a rua principal da Praia do Forte, um pequeno grupo de locais sambava enquanto um ritmista e seu primo, um guitarrista, tocava violão com os dedos ensanguentados. Aquilo foi real e inesquecível, uma expressão do carnaval do coração. Me pergunto se ainda existe algo assim.

Para este gringo, é tudo uma memória cada vez mais distante. Hoje, o segredo da minha fuga do carnaval é encontrar um lugar especial no meio da natureza, onde o único samba esteja na TV (e a recepção não seja das melhores) e a melhor maneira de curtir é ver o sol se por e nascer de novo ao som do silêncio e do canto dos passarinhos.

Sugestões para a fuga do ano que vem são bem-vindas.