OPINIÃO
19/08/2014 17:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

Gringoview: Duas estreias de dança contemporânea

O passado formal e o presente vibrante estão em constante rotação e conflito durante as cenas das obras.

SYLVIA MASINI/DIVULGAÇÃO

Para sua atual temporada curta de agosto no Municipal, o Balé da Cidade de São Paulo estreou duas peças de dança, Antiche Danze, coreografada para a companhia pelo italiano Mauro Bigonzetti, e Cacti, uma obra de Alexander Ekman apresentada pela primeira vez pelo famoso Nederlands Dans Theater em 2010.

O Balé da Cidade tem sido, intermitentemente, o bastião da dança em São Paulo desde 1968. Originalmente criado para apresentar os balés nos espetáculos de ópera das companhias importadas que não podiam trazer seus próprios bailarinos ao Brasil, o Balé da Cidade adquiriu vida própria e se tornou o establishment da dança no Brasil. Enquanto ainda fornece bailarinos para um número cada vez maior de espetáculos de ópera no Municipal, a companhia continua apresentando programas de seu repertório e peças recém encomendadas.

Foto: Sylvia Masini/Divulgação

A primeira das duas obras para esta temporada foi a estreia mundial de Antiche Danze, para as suítes Antiche Arie e Danze de Respighi, de 1922, incorporando música dos séculos 16, 17 e 18, admiravelmente interpretadas pela Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. A música ao vivo é uma mudança muito feliz das partituras gravadas normalmente usadas nos espetáculos de dança, sem dúvida pelo fato de a companhia de dança e a orquestra compartilharem o mesmo guarda-chuva da Fundação Theatro Municipal.

A cortina sobe, mostrando o que parecem ser oito bailarinos imóveis, envoltos em tecido. Quando eles começam a se mover, vemos que esse tecido são as anáguas de suas parceiros agora visíveis, sustentadas diante deles. Logo eles se alinham no que começa como um minueto das cortes antigas, mas rapidamente enlouquece, com os bailarinos rompendo o formalismo, mudando de ritmo e marcando-o com os pés no chão e palmas de maneiras nada antigas. O passado formal e o presente vibrante estão em constante rotação e conflito durante as sete cenas da obra, que termina como começou, com a fila de bailarinos envoltos nas anáguas de suas parceiras.

Talvez seja uma declaração contemporânea de que devemos nos livrar da rigidez das anáguas sempre presentes em nossas vidas, que dificultam o movimento fluido, nos livrarmos de nosso passado e adotar novas formas de movimento, com voos muito rápidos e saltos giratórios, e um Kama Sutra de posições que muitas vezes parecem mais acrobáticas que do balé.

Foto: Sylvia Masini/Divulgação

Cacti é cheia de humor irônico e mais apontada na mesma direção. Imagine a mistura: Franz Schubert, Joseph Haydn e Ludwig van Beethoven entrelaçados em uma obra de 30 minutos para 18 bailarinos com trajes unissex, que aparecem primeiro sobre caixotes de madeira erguidos que se tornam instrumentos de percussão, enquanto o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo executa a partitura clássica ao fundo do palco e às vezes passeia entre os bailarinos. Músicos de câmara e orquestra, os caixotes, a iluminação e uma série de cactos em vasos, até um gato morto que surge do nada, voando, tornam-se parte do movimento. Estão entrelaçados. As caixas escondem os bailarinos que saltam de trás delas, ou são usadas para criar formas estranhas e variadas. As luzes são outro personagem na peça, com sua própria coreografia, chegando a descer ao nível do palco em certo momento.

"Claramente os indefiníveis, anônimos, corpos paralelos no plano horizontal representam os princípios absolutos de paraíso, homem e terra", entoa uma voz imperiosa (em inglês, com legendas projetadas acima), aparentemente zombando da pretensão da declaração e, por implicação, da obra de dança em si.

Com as caixas movidas e usadas para construir um muro irregular, dois bailarinos executam um dueto ao som de um diálogo falado, aparentemente dois bailarinos construindo e comentando um exercício de dança, em um nível metafórico, uma discussão sobre a criação e a vida. É impossível não se perguntar se Cacti é apenas uma grande piada que o coreógrafo faz com a plateia, ou se a piada é uma representação da própria vida.

Ambas as obras são cheias de inteligência na coreografia, encenação e iluminação, de um movimento incomum e "chique", e ambos também usam bem seus bailarinos. Se sentimos falta da fluidez e do lirismo do movimento que tradicionalmente caracterizam a bela dança, que sem os aparatos contemporâneos toca as emoções, mais que a mente, bem, é problema nosso.

Bem-vindos ao novo mundo da dança.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS CULTURA NO BRASIL POST: