OPINIÃO
17/07/2014 14:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Gringoview - Do avesso: lost in translation

Divulgação

Nunca vou me esquecer de um dia em 1984 em que eu caminhava pelo Washington Square Park em Nova York com um dos meus filhos e vimos um grupo de meninos negros colocar caixas de papelão abertas sobre o piso de pedrisco.

Aparentemente apenas andando, um dos meninos de repente deu um mergulho para o centro do papelão, pousou sobre uma das mãos e, usando-a como eixo, começou a girar o corpo no ar. Foi mágico ver cada um dos garotos dar novos saltos e giros, mergulhos e cambalhotas, uma espécie de jogo de "eu posso fazer tudo o que você faz, mas melhor e diferente".

Essa exibição improvisada do que mais tarde foi chamado de "break dancing" e "street dancing" era dez vezes mais excitante que a apresentação de balé que eu tinha visto na noite anterior. Era uma expressão completamente livre e energética dos garotos desfrutando os movimentos e truques que tinham aprendido sozinhos ou com os outros. Era apenas para eles e qualquer pessoa que quisesse ver, e totalmente sem a pretensão de uma apresentação cênica.

Mais ou menos na mesma época, o grafite de Nova York estava se transformando de uma pintura com spray insensata e destrutiva na criação de imagens sofisticadas e muitas vezes carregadas de

mensagens, que surgiam em muros e cercas. Eu não conseguia tirar da cabeça as figuras em tamanho natural que pareciam sombras, sem expressão e extremamente ameaçadoras que começaram a aparecer nas paredes dos prédios perto de onde eu morava. Eram obviamente a assinatura de um artista brilhante.

A dança de rua e o grafite eram "arte" no sentido mais amplo, a expressão não literal da experiência urbana, imediata, envolvente e totalmente real.

O que trouxe à tona todas essas memórias foi a apresentação no Sesc Pinheiros, numa noite destas, de Crackz, uma obra de dança apresentada pelo aclamado Grupo de Rua de Niterói, uma companhia fundada em 1996 por Bruno Beltrão e Rodrigo Bernardi. Por meio de grupos como este, a dança de rua, com sua combinação imprevisível de movimentos de artes marciais semelhantes à capoeira, dança "disco" e acrobacia foi tirada das ruas e tornou-se material legítimo de apresentações. O Grupo de Rua de Niterói já se apresentou em 30

países e mais de cem cidades. Mesmo na tradicional Inglaterra, o importante crítico de dança do Financial Times, Clement Crisp, escreveu: "Bruno Beltrão e seus dançarinos de hip-hop brasileiros exibem uma arte e técnica milagrosas".

Não por acaso, o coreógrafo escolheu Crackz como título para sua obra. O dicionário Webster define "crackz" como "remendos para programas de software que contornam dispositivos de proteção contra cópias". Sempre interessado no mundo cibernético, ao criar Crackz o coreógrafo desafiou seus bailarinos a buscar na internet movimentos que pudessem incorporar à peça, acrescentando um novo vocabulário de dança. Podemos ver a aleatoriedade da internet na "estrutura" geral, ou na "antiestrutura" da obra.

Como todos os seus trabalhos de dança, este é uma mistura eclética de hip-hop, street dancing e breaking, com um aceno para algum movimento de dança moderna mais tradicional. É tudo construído sobre as bases do que parece ser um desejo sincero de explorar os mitos da paisagem urbana, acentuado pelo tipo de iluminação que se poderia encontrar nas ruas de uma favela. Ambientado aos ritmos altos e ásperos da música sintetizada que foi "raspada" e regravada, o movimento tenta parecer espontâneo, uma série de surtos de energia de cada dançarino ou em grupos.

A questão é: o que perdemos quando tentamos "capturar" algo como espontâneo e real como a "street dance" ou o grafite e reproduzi-lo nos limites da apresentação cênica, galeria de arte ou museu? Como algumas plantas exóticas que não podem ser levadas para dentro de casa ou aves engaioladas, as energias naturais que lhes dão sua essência muitas vezes desaparece.

É a missão do verdadeiro artista capturar essa essência de uma maneira não literal, ajudar-nos a ver e ainda mais a sentir a beleza irrestrita.

A obra-prima coreográfica de Jerome Robbins, a brilhante disputa das gangues em West Side Story, não pretende ser espontânea e real. É a expressão artística da realidade, não uma tentativa de recriação. Podemos sentir a energia mesmo que o vocabulário do movimento seja familiar. Por mais excitante que seja experimentar a técnica e a energia dos jovens dançarinos de "Crackz", essa emoção logo é transformada pela consciência de que estamos vendo uma tradução de certa forma "engaiolada" de uma realidade vibrante, e não a original.

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