OPINIÃO
30/06/2014 16:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

GringoView: Amor etéreo

Todo mundo adora contos de fadas, até aqueles com final triste. Eles nos convidam a escapar para o mundo mágico dos espíritos, onde tudo é possível.

Quando encenados com luxo em produções de balé, o público corre para desfrutá-los. Por que outro motivo "O Quebra-Nozes" seria um eterno favorito de Natal, ou "A Bela Adormecida" e "Copélia" teriam sucesso com públicos jovens e maduros?

Agora, no confortável Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, longe de todo o ruído e a excitação furiosa da Copa, a São Paulo Companhia de Dança (SPCD) estreou seu suntuoso "La Sylphide", a remontagem sensível pelo coreógrafo argentino Mario Galizzi da obra-prima clássica de 1832 do mestre do balé dinamarquês August Bourneville. Por todos os critérios uma pedra de toque do balé romântico, "La Sylphide" exige dos bailarinos um alto nível de capacidade artística e técnica. Sua apresentação é um teste supremo para companhias de balé e seus integrantes.

sylphide

A SPCD passou no teste com honras e recebeu o aplauso entusiasmado da casa lotada, o tipo de público amplo e diversificado que a companhia se dedica a desenvolver. Segundo Inês Bogéa, diretora artística e farol condutor da SPCD, "não é frequente vermos balé realmente clássico aqui. Com clássicos como este, poderíamos encher o teatro todas as noites. É muito mais fácil de vender do que obras mais modernas".

Inês é totalmente dedicada a promover sua companhia de dança, a dança em geral e, não por acaso, seu merecido lugar no firmamento da dança no Brasil. Seus vídeos explanatórios que antecedem cada apresentação, colocando-a em contexto e oferecendo uma "história de fundo" para o que veremos no palco, são uma inovação importante, que enriquece a experiência. Se a oportunidade de os amantes de balé serem fotografados no saguão com uma das principais bailarinas vestida a caráter parece um pouco fora do tom para um espetáculo de balé tradicional, a fila de crianças e adultos que querem tirar suas fotos sugere um novo público menos formal. Inês está deliciada com seu sucesso e prometeu que os públicos de São Paulo e de todo o Brasil verão a produção no próximo ano. Não se deve perder.

O que poderia ser mais atraente que essa simples história do infeliz James, um agricultor escocês que, no dia de seu casamento, se apaixona pela visão de uma bela sílfide [uma espécie de fada voadora], e, ignorando a terrível previsão da feiticeira Madge, despreza seu amor da infância, Effie, e foge da festa do casamento para unir-se ao espírito da floresta. É sua paixão pelo desconhecido e seu desejo egoísta de possuir a fada para sempre que causam a morte dela e sua própria ruína. Mas não antes de assistirmos a uma dança maravilhosa.

"La Sylphide", com suas sílfides flutuantes em etéreos vestidos brancos e asas brilhantes, é o sonho de toda menina.

Principalmente no segundo ato, o movimento gracioso das bailarinas é cheio da magia coreográfica do desenho elegante de Bourneville, que criou o padrão da coreografia romântica. O balé no século 19 era sobre a beleza da forma, e em nenhum lugar mais que em "La Sylphide" podemos experimentar a magia dessa forma. A narrativa faz pouco mais que oferecer um motivo para os solos, as danças de grupo e peças de corpo de baile. Enquanto o amor humano de James por um espírito etéreo impele a ação e oferece uma interessante subtrama filosófica, com exceção de alguns solos debravura e o dueto do segundo ato (diferentemente do tradicional pas de deux do bailarino em parceria com a bailarina, James nunca toca realmente a etérea Sílfide), ele não tem que dançar muito, na verdade. Os outros bailarinos homens, de acordo com o balé do século 19, ainda menos.

Quão estreitamente a coreografia de Galizzi recria o original de Bourneville jamais saberemos, nem tem especial importância. A coreografia é uma forma de arte viva e em contínua mudança, adaptando-se a muitas influências, desde o tamanho do palco à capacidade dos bailarinos, para não falar nos orçamentos. Mesmo que existissem vídeos das grandes obras-primas do século 19, simplesmente dançá-las passo a passo, movimento a movimento, garantiria o tédio para os bailarinos e o público.

Assistir a "La Sylphide" faz lembrar a pungente canção de "Chorus Line": "Tudo é lindo no balé. Homens graciosos erguem garotas adoráveis de branco".

Mesmo o final triste encerra uma sensação graciosa. Enquanto James vê seu melhor amigo se casar com Effie e as sílfides, parecendo flutuar no ar, carregam o corpo de La Sylphide para longe, sabemos que, mesmo que alguns de nossos sonhos não se realizem, gostamos de sonhá-los de qualquer modo.

E, não esqueçamos, afinal tudo é apenas um conto de fadas.

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