OPINIÃO
19/05/2014 18:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

GringoView: A ação nas ruas de São Paulo - festa ou manifestação

A ação está em nossas ruas e calçadas. E, pelo menos por enquanto, parece uma festa, embora ela possa degenerar. Esperemos que não.

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SAO PAULO, BRAZIL - MAY 15, 2014: Demonstrators held a protest against the World Cup FIFA soccer on the afternoon of Thursday, May 15, 2014 in Sao Paulo, Brazil. Protests are taking place in various cities of the country and questioned the high spending on construction of stadiums and fight for better conditions and budget for health and education. (Photo by Victor Moriyama/Getty Images)

É nas ruas de São Paulo que está a ação.

Passeando recentemente à noite pela Avenida Paulista entre manifestantes contra a Copa do Mundo, um amigo indicou como, em geral, todo mundo estava animado, como a maioria das pessoas parecia se divertir muito, andando de skate, parando para tomar um sorvete ou uma cerveja, fumando um cigarro ou conversando com policiais vestidos em seus uniformes normais, e não com o equipamento de Robocop.

Notando minha surpresa diante da falta de tensão no ambiente, meu companheiro disse simplesmente para este gringo curioso: "Basta juntar três brasileiros e você terá uma festa".

Na quinta-feira, tivemos o que foi descrito na imprensa como "um protesto maciço contra sediar a Copa do Mundo da Fifa. Cerca de 1.200 pessoas participaram da manifestação e pelo menos sete foram detidas". Considerando que 68 mil são esperadas no jogo de abertura da Copa, no mês que vem, essa "massa" de manifestantes dificilmente seria percebida no estádio Arena Corinthians, que, esperamos, deverá estar pronto na data.

Talvez a visão deste gringo tenha sido extremamente limitada. Houve manifestações anteriores muito maiores, e é impossível negar que grupos pequenos e isolados agiram com violência queimando carros, destruindo vitrines de lojas, causando sérios transtornos. Quase certamente, as que ocorrerão antes e durante os jogos trarão muito mais pessoas para as ruas e mais violência. Os problemas da corrupção endêmica, subinvestimento crítico em escolas, atendimento de saúde e infraestrutura são sérios e merecem grande atenção. Como o futebol é muitas vezes chamado de "a segunda religião" do Brasil, parece surpreendente que os brasileiros estejam usando os enormes gastos do governo em um campeonato de futebol como foco de seu protesto. Isso deveria enviar um forte sinal para o governo, que deveria estar escutando.

Devemos nos perguntar se está. Uma sensibilidade maior a esses protestos poderia ter evitado que ministros de governo distribuíssem a si mesmos pagamentos e despesas especiais extra - a "Bolsa Copa" - para ajudá-los a participar das festividades. É algo que os manifestantes poderiam ter visado, mas até agora não houve sinal disso.

Uma das alegrias da cultura brasileira é a sensação de alegria sem razão. Não importa o que a vida lhe traga, sempre há um sorriso e uma sensação de felicidade interior. Você pode estar protestando por bons motivos, mas não precisa, como os franceses ou os alemães, ser infeliz por causa disso. Os brasileiros teriam desistido de seu movimento por reformas e decidido desfrutar a festa, em vez de protestar? Quase certamente não: eles apenas têm uma maneira diferente de lidar com a coisa.

No último fim de semana, apenas dois dias depois da última manifestação, São Paulo foi transformada no que a prefeitura chama de "cidade em festa". É provavelmente uma descrição apropriada do que muitos milhares de paulistanos desfrutaram na Virada Cultural deste ano -- a décima maratona cultural anual, com mais de 500 eventos em lugares por toda a cidade. Como a famosa tradição parisiense de dançar nas ruas para comemorar o Dia da Bastilha, o início de sua revolução, a virada cultural é uma celebração baseada na rua.

Criada com o objetivo de usar os espaços públicos de toda a cidade para oferecer eventos culturais gratuitos que envolvam todos os grupos etários, classes sociais e gostos, a Virada serve como caldeirão cultural para uma população diversificada, na maioria escondida em seus próprios bairros, muitas vezes atrás de muros e portões protetores. Ela se destina a oferecer um convite à convivência, e o faz maravilhosamente.

As ruas ficaram cheias de gente em um clima de feriado, participando de todo tipo de evento cultural, desde mais de 50 humoristas stand-up na Praça da Sé à Gang Electro, um dos destaques da atual cena musical contemporânea. Todos correram para apresentações de dança como Acts of Light, da icônica Martha Graham, por estudantes da Escola de Dança de São Paulo, e também para degustar especialidades das mãos de Chefs na Rua, incluindo celebridades gastronômicas como Raphael Despirite (Marcel) e Benny Novak (210 Diner), que levaram a alta culinária de seus restaurantes caros para as ruas da cidade. E comemoraram o samba de São Paulo com os lendários Zeca Pauliceia, Osvaldinho da Cuíca e Demônios da Garoa. Saíram para desfrutar uma cidade onde as coisas acontecem 24 horas por dia, mas muitas vezes escondidas da vista do público, e pareciam desfrutá-la.

A Virada ofereceu uma oportunidade para redescobrir os prazeres das ruas, algo que o urbanista Mauro Calliari comentou em um post recente e excepcional: "E o ritmo da nossa calçada não se parece com um balé, talvez um baião meio truncado, que avança enquanto retrocede."

Passeando entre as multidões, apesar dos habituais batedores de carteira, pequenos criminosos e dos relatos de jornais contando 80 registros de assalto, duas pessoas baleadas, outras duas esfaqueadas e 100 pessoas presas, não parecia haver sensação de tensão, medo ou perigo. Talvez, surpreendentemente, eu não tenha visto muita diferença no tom entre as multidões da Virada e as que participaram das manifestações. A alegria parecia reinar.

A ação está em nossas ruas e calçadas. E, pelo menos por enquanto, parece uma festa, embora ela possa degenerar. Esperemos que não.

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