OPINIÃO
30/10/2014 16:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Grandes perguntas em um mundo globalizado

Imagine a coragem que é necessária para que um bailarino sozinho desnude sua alma no palco durante 80 minutos contínuos, preenchendo o espaço real e o metafórico com movimento e significado, mantendo seu público fascinado em uma jornada de autodescoberta.

Como um gringo que vive neste mundo globalizado, com muitas culturas que constantemente se chocam umas com as outras, sou constantemente obrigado a perguntar: quem sou eu? Onde me encaixo? Que influências me fazem ser o que sou?

Essas perguntas existenciais são fundamentais em dois dos mais marcantes e bem-sucedidos eventos cênicos dos últimos meses, o trabalho de dança-teatro de Akram Khan "DESH", a última atração da Temporada de Dança 2014 do Teatro Alfa, e Jogos de Cartas, de Robert Lepage, no Sesc Santo Amaro, em São Paulo. Tanto Akram Khan como Robert Lepage surpreendem com sua brilhante encenação multimídia, mas eles são muito mais que showmen espetaculares. O público de São Paulo tem muito a lhes agradecer e muito a pensar a respeito.

Imagine a coragem que é necessária para que um bailarino sozinho desnude sua alma no palco durante 80 minutos contínuos, preenchendo o espaço real e o metafórico com movimento e significado, mantendo seu público fascinado em uma jornada de autodescoberta.

Nascido na Grã-Bretanha de origem bengalesa, Akram Khan se destaca entre os coreógrafos modernos contemporâneos como um artista de talento único. Seu primeiro trabalho solo, "DESH" (pátria), é uma mistura surpreendente de história pessoal e busca pela compreensão de suas origens em um mundo mágico de histórias infantis de Bangladesh, em forte contraste com o país ruidoso e ininteligível de hoje.

Uma máquina estranha e indefinível no palco parece ser uma coisa eletrônica gigante que simboliza nossa crescente dependência da tecnologia. Ela precisa da ajuda de um call center para funcionar adequadamente. Mas, como todos já experimentamos, para nossa angústia, por mais que ele tente não há comunicação com o técnico do call center, só frases padronizadas vazias que não solucionam o problema e salientam a frustração do mundo moderno.

Como ele pode unir o lindo sonho da infância em Bangladesh com a dura realidade da vida moderna na Inglaterra? A que lugar ele pertence?

Que Akram Khan possa conjurar ambos os mundos e se mover com facilidade entre um e outro nos deixa maravilhados diante da enorme versatilidade de sua visão e seu talento. Brilhantemente apoiado por uma mistura do ruído agressivo de uma metrópole moderna, música assombrosa e surpreendentemente lírica e diálogos criados por Jocelyn Pook, cenários totalmente inesperados e incríveis de Tim Yip, o famoso diretor de arte de O Tigre e o Dragão, e iluminação infinitamente evocativa de Michael Hulls, não há um só mau momento.

Em um perfil em The Guardian, Robert Lepage é descrito como "o alquimista do teatro imagístico moderno... um dos diretores mais desafiadores e quiméricos de nosso tempo". Um diretor de teatro, cinema, ópera e Cirque du Soleil, Lepage parece sempre forçar os limites do possível. Sua companhia de produção multidisciplinar, ExMachina, é um viveiro de experimentação e seu trabalho tem enorme demanda em todo o mundo.

O diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Miranda, escreveu:

"Para o Sesc, a realização dos dois primeiros espetáculos de Jogos de Cartas cumpre a função de possibilitar ao público o contato com a produção artística contemporânea, pautada na pesquisa de linguagem teatral, configurando o meio para o desenvolvimento de uma visão crítica sobre o mundo."

Ele é apresentado em um palco especialmente construído com partes que se movem para cima e para baixo e giram. Alçapões no chão permitem mudanças de cenário mágicas, sem interferir com a ação, e projeções em uma tela giratória aumentam o fascínio.

"Copas", a segunda parte da tetralogia monumental do Jogo de Cartas de Lepage, consegue nos transportar da grande exposição de Paris de 1848, onde todo mundo se maravilha diante da nova tecnologia, até nosso mundo moderno, radicalizado e muitas vezes insensível. O que poderia ser uma simples história de amor entre um motorista de táxi canadense imigrante da Argélia, Chaffik, e a estudante de cinema filha de mãe quebequense e pai diplomata australiano, Judith, torna-se o veículo para explorar todas essas questões de identidade real.

Como pode o taxista muçulmano se encaixar no mundo estável e preconceituoso dos pais de Judith, que vivem no mundo já fraturado entre os canadenses ingleses e franceses, e o que pode Chaffik esperar quando ele volta para o mundo de sua família agora exilada no Marrocos, o resultado de atos terroristas de gerações anteriores contra os franceses na Argélia? Mundos demais: demasiadas perguntas sem respostas.

Em uma cena excepcional, a ação recua e avança entre um jantar com a família de Chaffik e um com os pais de Judith. Transportados entre o Canadá cristão e a África muçulmana, experimentamos o calor natural da família do rapaz e a estigmatização social quase brutal do menino árabe pelos pais da garota.

Sem paralelo, mas não sem relação, vemos o famoso mágico francês Jean-Eugène Robert-Houdin, enviado à Argélia pelo governo francês para desafiar os supostos poderes sobrenaturais dos marabouts que ameaçavam a dominação política da França, confrontar dramaticamente o desconhecido árabe e partir sem resolver a questão: houve comunicação verdadeira entre o mágico francês e o místico árabe, ou é tudo superficial?

Se os dois 80 minutos passam rápido, Copas parece um tanto prolongado, precisando de podas. Não obstante, é uma viagem incrível na confusão terrível de um mundo perturbado e o efeito que ele tem sobre todos nós. Como em "DESH", quando a brilhante teatralidade da apresentação termina, o que resta são as difíceis perguntas de nosso tempo. Como vamos enfrentar a vida em um mundo que mal podemos compreender, em terras em que todos somos estranhos?

Cada um de nós deve formular suas próprias respostas.

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