OPINIÃO
04/06/2014 17:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Fila sem fim

Parado em uma fila de táxi aparentemente interminável na saída do Shopping Cidade Jardim em uma tarde recente, chuvosa e com ameaça de manifestação, toda a conversa ao meu redor era sobre a próxima Copa - o que não surpreende, sendo o Brasil.

Mas não era sobre quantos gols o brilhante Neymar poderá marcar (ou quanto ele está ganhando para posar de cueca para publicidade de moda), se o goleiro veterano Julio César ainda tem condições de fazer suas históricas defesas ou mesmo se o treinador Luiz Felipe Scolari tem a estratégia certa para vencer mais uma Copa para o Brasil. "Se você acha que esta fila é um pesadelo" - disse o amigo cansado e frustrado à minha frente, que também esperava havia mais de uma hora - "imagine como será entrar e sair dos estádios de futebol e aeroportos - na verdade, de qualquer lugar, durante a Copa".

De repente, todo mundo ali ao redor ficou muito animado. "Como pudemos ser tão idiotas" - disse uma mulher, balançando a cabeça - "de investir tanto dinheiro em infraestrutura inútil para o futebol, quando vemos nossas escolas e hospitais desmoronando, nossas estradas em ruínas e nossa água acabando?". "Pense em quanto dinheiro de corrupção esses políticos estão levando nesses grandes projetos", disse outra. "Espero que o Brasil perca na primeira etapa. Isso mandaria um recado para o governo."

Esperar que o Brasil seja tirado da Copa no início pareceu, para este gringo, algo entre heresia e traição. Mas era um tema recorrente. Naquela pequena amostra de brasileiros, nenhuma voz se levantou em defesa da Copa ou para sugerir que os jogos possam não ser um desastre. No entanto, embora as manifestações fossem responsáveis pela impossibilidade de conseguir um táxi, meus colegas de fila nada disseram contra elas. Um disse que o que não entendia era por que os brasileiros só pareceram se manifestar e se queixar quando já era tarde demais. "Nós temos o que merecemos", disse ele com resignação.

Em minha experiência limitada, os brasileiros geralmente são excelentes respeitadores do protocolo das filas, mais parecidos com os britânicos do que com os americanos, os alemães ou, como uma pessoa comentou horrorizada, "Deus nos livre dos russos". O que significaria a chegada de visitantes atraídos pelo futebol e como eles poderiam ser bem recebidos, mas seus excessos "controlados", tornou-se um tema quente. Todos os estereótipos nacionais embutidos, os "punks" holandeses bêbados e de cabeça raspada puxando brigas, os alemães ignorando as filas e assaltando as cercas do estádio para entrar antes do início do jogo, os italianos, bem-educados, mas ruidosos, todos entraram borbulhando na conversa. Já que a turma do futebol estava chegando de qualquer maneira, como os habitantes locais poderiam reagir? "Fugir", "deixar a cidade", "ir para a praia", "ficar em casa e assistir ao caos pela televisão" foram algumas das estratégias.

Quando eu cheguei ao primeiro lugar da fila e um táxi finalmente encostou, os membros da fila tinham formado pequenos grupos que iam em direções semelhantes e alegremente dividiriam a tarifa. Depois que deixei meu colega passageiro, cujo destino chegou antes do meu e empurrado de volta parte do dinheiro que ele generosamente ofereceu, o táxi estava parado, esperando que o trânsito impossível da Marginal andasse.

"Está animado com a Copa?" - perguntou o motorista. "Não muito" - respondi com honestidade. "Eu vou tirar férias" - disse ele. "Acho que eu poderia ganhar um dinheiro extra, mas não vai valer a pena."

Pense nisso: a Copa toda vale a pena?

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