OPINIÃO
10/09/2015 12:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Cada pequena contribuição faz diferença

Divulgação

O maravilhoso artista e professor Antonio Nóbrega e sua mulher, Rosane, enfrentavam um problema sério. Depois de 22 anos, o espaço na Vila Madalena ocupado pela escola e oficina Brincante seria retomado pelos proprietários do imóvel.

Para gerações de alunos que ali fizeram aulas de dança, artes cênicas e muito mais, o Brincante é uma celebração da cultura brasileira. Foi mais um exemplo da tendência ao despejo de instituições culturais e sociais para alimentar a insaciável especulação imobiliária em São Paulo.

Menos otimista que de hábito, Nóbrega refletiu sobre a paisagem cultural em transformação. "Os sinais não são muito bons", ele disse, porque há "um egoísmo crescente, uma desigualdade cada vez maior. Mais e mais cada pessoa se afasta do 'coletivo' e quer fazer suas próprias coisas".

Essa preocupação foi amplificada quando o Brincante inesperadamente se viu em risco. Para salvá-lo, Nóbrega precisou agir rapidamente, para minimizar o transtorno aos ensaios e aulas.

Mas uma mudança de local e uma reconstrução teriam um custo alto, alto demais até para ser financiado pelo apoio generoso do Instituto Alana. Ainda faltariam R$ 100 mil.

De onde sairia esse dinheiro?

Foi quando a Internet entrou em cena, literalmente.

Nóbrega e seus colegas atrelaram o poder de suas redes sociais para pedir apoio financeiro ao Brincante. E o receberam: em apenas 60 dias, levaram R$ 7 mil a mais que sua meta de R$ 100 mil, graças a 768 apoiadores.

Por um custo praticamente zero, entraram em contato com todos seus amigos no Facebook (e os amigos de seus amigos), todos seus seguidores no Twitter (e os de seus seguidores) e milhares de pessoas solidárias, determinadas a garantir a sobrevivência do Brincante.

Em questão de poucos dias eles difundiram sua mensagem de necessidade de recursos.

Eles começaram não pedindo dinheiro, mas com um evento construído sobre os alicerces de seu trabalho nas redes sociais.

A intenção era dar uma declaração pública forte de que São Paulo queria que o Brincante permanecesse.

Convidaram seus amigos e os amigos deles para "brincar, dançar ritmos brasileiros, construir brinquedos, jogar jogos, ouvir e contar histórias, jogar capoeira e tudo o mais que deixa os brasileiros felizes".

Músicos, dançarinos, atores, palhaços, acrobatas, contadores de histórias foram convidados na web a "levar sua arte para juntos criarmos um especial de domingo".

As pessoas vieram, participaram e no final todas se deram as mãos em uma grande ciranda. Foi muito especial. De acordo com Priscila Cotta, da Agência Fervo, que ajudou o Brincante a organizar a campanha de crowdfunding (financiamento coletivo), "mais de 3.000 pessoas confirmaram presença online, e naquele 3 de agosto do ano passado o Ibirapuera contou 10 mil pessoas presentes".

A campanha de crowdfunding para o novo espaço não poderia ser tão divertida quanto o evento no Ibirapuera, mas os colaboradores, muitos dos quais tinham participado do evento no parque, puderam receber recompensas - físicas e psíquicas - por suas contribuições. As pessoas que contribuíram com valores modestos ganharam adesivos e álbuns virtuais.

As contribuintes maiores foram convidadas para workshops e até a um ano de aulas no novo Brincante.

Como bem sabe qualquer pessoa que tenha assistido ao processo eleitoral nos EUA, onde milhões e milhões de dólares foram levantados para candidatos e questões políticas, o crowdfunding depende de uma base crescente de conhecimentos especializados.

Para isso, Nóbrega recorreu à Agência Fervo para todo o planejamento, fornecimento de recompensas e um trabalho extenso de contatos com os clientes.

Ele também usou a plataforma Catarse, uma de uma série de plataformas em sites na internet que contêm toda a estrutura necessária para crowdfunding e foram projetadas especificamente para essa forma crescente de marketing.

Priscila fala com entusiasmo sobre o desafio de ajudar organizações a entender as minúcias do funcionamento do crowdfunding, como a agência recolhe o dinheiro dos colaboradores e, no modelo mais comumente seguido, se responsabiliza por devolver o dinheiro a eles se a campanha não conseguir alcançar seu objetivo declarado dentro de um prazo limitado, geralmente de 30 a 60 dias.

"Os colaboradores querem ver resultados e querem saber que a meta de sua contribuição foi alcançada", ela explica.

Como é o caso da maioria dos esforços de vendas, incentivos como os que foram dados às pessoas que contribuíram com o Brincante podem fazer a diferença entre sucesso e fracasso.

Cabe às agências conseguir os resultados e livrar as instituições culturais da obrigação de administrar os inúmeros detalhes envolvidos nas campanhas.

Os assessores, como a agência Fervo, recebem honorários nominais, e os provedores da plataforma ganham uma comissão, geralmente de 13%, para cobrir seus custos e, com sorte, auferir um lucro.

Mas a impressão que fica é que o lucro tem importância secundária - o mais importante é ajudar instituições culturais a dar certo e comprovar que o crowdfunding funciona.

Pense um pouco.

Você tem um trabalho maravilhoso. Seu trabalho merece chegar a um público grande.

A única coisa que falta é o dinheiro para dar vida ao projeto e convertê-lo em realidade.

Talvez o crowdfunding possa ser seu bilhete para o sucesso. Lembre-se: cada contribuição pequena faz uma diferença.

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