OPINIÃO
09/02/2014 13:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Se homofobia fosse um esporte da Olimpíada de Inverno, a Rússia seria candidata à medalha de ouro

Getty Images
An activist holds a flag displaying a placard with a slogan over the face of Russian President Vladimir Putin during a demonstration against Russia's anti-gay legislation on the day of the opening ceremony the Sochi Winter Olympic Games in Hong Kong on February 7, 2014. Gay rights activists around the world have called for a boycott of the Sochi Winter Olympic Games in protest against a law banning the dissemination of so-called 'gay propaganda' to minors. AFP PHOTO / Philippe Lopez (Photo credit should read PHILIPPE LOPEZ/AFP/Getty Images)

Depois de um breve período de liberalização pós-comunista nos anos 1990, a Rússia está andando em marcha-à-ré no que diz respeito às minorias sexuais. Nem sequer os terríveis e autoritários tempos soviéticos eram tão explícita e abertamente homofóbicos quanto a Rússia do presidente Vladimir Putin.

O ato mais ultrajante da escalada homofóbica é a lei antigays que entrou em vigor no verão de 2013. Ela proíbe a promoção de relações sexuais "não-tradicionais" para jovens menores de 18 anos. Na verdade, a lei tem sido interpretada como uma criminalização de qualquer campanha de apoio ao movimento LGBT, tenha ela sido vista por um menor de 18 anos ou não.

Um rapaz que ergueu um cartaz onde se lia "a homossexualidade é normal" foi preso com base na nova lei, apesar de não haver provas de que um jovem de menos de 18 tivesse visto o manifestante ou o cartaz. Outro foi detido por causa de uma bandeira com as cores do arco-íris. Professores estão sendo afastados por serem gays ou lésbicas. Entidades de apoio a crianças como a Children-404, que oferece apoio e aconselhamento a adolescentes gays e lésbicas com tendências suicidas, sofrem assédio e ameaças de ações judiciais.

A nova lei antigays russa é verdadeiramente draconiana. Agora é crime mostrar a homossexualidade como algo "interessante" ou " atraente". Também é crime sugerir que homossexualidade e heterossexualidade são igualmente válidas. Isso significa que é proibido oferecer para jovens gays informações sobre sexo seguro e prevenção contra o HIV. Organizações do movimento gay que tenham membros com menos de 18 anos, ou atuem em sua defesa, estão sujeitas às penalidades da nova lei. Na prática, o Estado está forçando, com ameaças ou sanções legais, a omissão ou o abandono da juventude LGBT. Independentemente de sua sexualidade, qualquer pessoa que ajude um jovem gay pode ser processada de acordo com essa sórdida nova lei.

A legislação representa uma sanção oficial para uma atmosfera de homofobia generalizada. Ataques a gays são cada vez mais comuns. Ultranacionalistas estão atraindo jovens gays via internet para torturá-los e humilhá-los - e depois fotos e vídeos do abuso são publicados em redes sociais. A atmosfera é de terror. Pelo menos dois jovens gays foram assassinados. A polícia faz pouco, ou simplesmente não faz nada.

Muitos russos que eram abertos em relação a sua sexualidade voltaram para o armário por medo de prisão, ataques violentos ou demissão. Contra a vontade, eles se sentem forçados a moderar o discurso e a escolher outras roupas, cortes de cabelo e maneirismos quando estão em lugares públicos, para evitar problemas com a polícia ou com gangues homofóbicas. Eles sabem que o risco da violência ou da cadeia está por toda a parte.

Ultranacionalistas de extrema direita, neonazis, o movimento jovem que apoia Putin e a Igreja Ortodoxa Russa estão por trás desse recrudescimento na repressão aos gays. Muitos querem que a homossexualidade volte a ser um crime e pedem a passagem de outra lei, que tiraria os filhos de pais LGBT. Ao aprovar a nova lei antigays, o governo russo dá sem apoio tácito, ou até mesmo aprovação, desse ambiente de caça às bruxas.

Os ataques à comunidade LGBT não acontecem isoladamente. Eles são parte de um amplo ataque à liberdade dos russos. Concentrar-se nos gays é um erro. Significa isolá-los e marginalizá-los. Por isso muitos deles tentam transformar a luta pelos direitos da comunidade LGBT em uma luta pelos direitos humanos de todos os russos. Uma aliança entre héteros e homossexuais está sendo forjada.

O que se passa na Rússia não acontece do outro lado do mundo, num país com uma herança cultural muito diferente. Tudo isso está acontecendo às portas da Europa - em uma grande nação, que muito contribuiu para a civilização, especialmente nos campos da arte e da cultura.

A Rússia quer ser parte da família europeia. Ótimo. Mas a lei antigays é uma clara violação das cláusulas de igualdade e livre expressão tanto da constituição russa quanto da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, um documento que a Rússia assinou e prometeu cumprir. Tudo o que a população LGBT da Rússia está pedindo é que a o país honre sua própria Carta e a convenção europeia.

Infelizmente, a vasta maioria dos russos apoia a nova legislação. Boa parte da população acredita que a homossexualidade deveria ser ilegal, e os homossexuais deveriam estar na cadeia. Uma minoria de tamanho razoável acredita que os homossexuais merecem a morte. Essa histeria homofóbica coletiva é baseada em preconceito, medo e ignorância e é inflamada pelo presidente Putin e seus aliados para desviar a atenção de problemas de outra ordem, como corrupção, roubo dos bens do Estado, abandono da população rural e tensões étnicas e religiosas.

Se homofobia fosse um esporte da Olimpíada de Inverno, a Rússia seria candidata à medalha de ouro.

Para saber mais e fazer doações para as campanhas de Peter Tatchell: (www.petertatchellfoundation.org)