OPINIÃO
25/02/2014 13:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

A lista das listas de melhores discos de 2013

Durante o ano de 2013 participei de reuniões para reativar o Toque No Brasil e convivi com uma turma de idealistas que toca colaborativamente o projeto. Gente fina que doa seu tempo para que uma ideia excelente e eficaz se mantenha como um serviço público gratuito, à disposição das bandas, artistas e produtores. Uns oferecem e outros buscam oportunidades para as bandas tocarem, todos se encontram no TNB. Participei de uma curadoria usando o TNB e percebi seu enorme potencial. As bandas criam seus cadastros, com fotos, músicas, vídeos, e usando este cadastro se inscrevem nas oportunidades, que podem ser centenas agora na época do Grito Rock. Os produtores e promotores recebem a lista das bandas que se inscrevem e todos estão ali, prontos para serem avaliados, todos num mesmo lugar, com um mesmo formato... Vocês não sabem o que é selecionar 20 artistas a partir de 500 inscrições para um edital ou um festival usando envelopes com as inscrições, CDs, fotos, uma burocracia infinita.

O TNB é uma cria do Fora do Eixo e sobrevive porque é um calango do cerrado, obstinado. Uma hora destas deveria encontrar um financiamento que funcione. Minha sugestão foi para que o TNB abrisse espaço para doações, na esperança de que os beneficiados enfiem a mão no bolso, num crowdfunding permanente. Mas o desejo é que alguém ou alguma instituição perceba o valor público da ideia.

No ambiente das conversas sobre o TNB estavam alguns personagens que têm uma visão privilegiada do chamado Brasil profundo, produtores de festivais e casas de música, onde circulam artistas de muitos estilos e extrações, onde se forma público para estéticas mais autorais e menos industriais. Conversando com esse povo que circula e partilha seu conhecimento e esperteza de lidar com arte e precariedade, fico mais atento ao que sucede fora da TV, fora da mídia, fora do negócio da música mas perto do público. Em SP, e no Rio, também temos lugares onde acontecem coisas que não se vê na TV, mas que geram resultados. Artistas que se desenvolvem porque existem circuitos de pequenas casas de música onde há curadoria que sabe reconhecê-los e buscá-los para sua programação. Lugares como o Núcleo Contemporâneo, a Casa de Francisca, o Puxadinho, o Epicentro, o Rio Verde, só para lembrar os óbvios.

Pois numa conversa sobre como criar critérios para avaliar estes artistas autorais, apareceu uma ideia para avaliar reputações, reconhecidamente o mais forte valor para os curadores. Sim, curadores prestam muita atenção na reputação das bandas, no que se fala delas, em quem gosta ou defende o artista, no artista que consegue criar público, trazer público. Sim, existem valores estéticos e valores de produção também. O som da banda presta, mesmo que sejam 14 para viajar e hospedar? Apenas um pianista vai ser capaz de segurar a atenção, com o bar aberto? Ser curador, ou programador artistico, envolve uma equação interminavel, mas a reputação é fundamental para a decisão. E listas de melhores do ano são observadas pelos curadores.

As listas de melhores do ano ajudam a reputação dos artistas, claro. São uma declaração pública de importância, uma recomendação. Estes aqui são os que você tem que ouvir. Listas de melhores do ano contam pontos para a reputação de um artista e podem interferir na opinião de todos. Mas qual lista de melhores? A tradição privilegiava a imprensa especializada, a crítica, estas eram listas influentes. A lista da Roling Stone que elegeu Macaco Bong. Mas, hoje, essa multidão de sites de especialistas votando em listas próprias, todo mundo, os blogs de música, os caras que falam dos gêneros, das bandas que passam por suas cidades, todo mundo é sua lista.

Claro que cada um tem influência para seus leitores, o seu público. E cada um puxa sua sardinha para a brasa, rola brodagem e simpatia pelos parceiros. Os bons curadores serão os que percebem as brodagens entre amigos e dão o desconto devido. Da mesma forma, os artistas movidos puramente a jabá, os artefatos comerciais, vêm com CNPJ estampado, não fazem parte do universo dos artistas que se recomenda, dificilmente participam de listas de melhores, fazem parte das listas dos "mais vendidos"! E, ainda, toda lista é parcial, fala apenas dos que conseguimos ou escolhemos para avaliar. São listas de melhores CDs, esta é também a tradição: é uma competição entre produtos iguais, os discos com 12 músicas, fenômeno anual.

Entretanto, os CDs dos artistas de hoje são autorais, refletem 100% o desejo do artista, desapareceu o intermediário que representava o interesse do mercado na hora de escolher repertório, de fazer arranjos comerciais ou parcerias de conveniência. O artista autoral está inteiro dentro do seu disco. Portanto, listas de melhores CDs representam sim os artistas, são listas de artistas melhores do ano.

Faremos uma lista das listas, vamos juntar todas as listas de melhores de 2013 que conseguirmos e vamos ver o resultado. Do grupo inicial que se dispôs a fazer junto, Tassio Lopes, Gabriel Ruiz e Uirá Porã ficaram alguma semanas juntando listas. Depois, segui com Ynaiã Benthroldo mais um pouco e terminei tabulando quase tudo, mas valeu o empurrão. Foi uma captura de listas que chegavam até nós, depois uma captura mais aberta. Procurando por "lista de melhores" no Twitter e no Facebook, apareceram muitas contribuições de amigos e também de dentro dos sites eram recomendadas outras listas de sites amigos. No total são 39 listas numa planilha: cada vez que um artista é mencionado vale um ponto, não interessa sua colocação na lista original. Essa coisa de ser melhor ou pior colocado na lista é importante só para o público daquela lista.

Poucas listas foram descartadas porque eram extremamente fechadas em artistas de um único gênero exótico. O povo do *** vai me odiar. Outras listas saíram fora porque só tinham artista estrangeiro. Em muitas listas não havia separação entre nacionais e estrangeiros, o que é justo, mas só trouxemos os artistas nacionais. Outras listas tinham melhores de várias artes, mas só trouxemos os da música.

Apesar de revisões mil, os erros estão aí para serem apontados, de preferência nos comentários. Agradeço os donos das listas, devidamente identificadas com seus links e espero que a polícia da mente não venha dizer que estou infringindo nenhuma lei ou direito. A planilha está escondida aqui. Mencione a fonte se for usá-la, fará bem para a nossa reputação.

Algumas coisas que ficam evidentes na lista das listas:

Fato notável e inescapável: quase todos estão disponíveis para baixar de graça ou no mínimo para serem ouvidos de graça. Atualize seu repertório, links na planilha.

1) Dois artistas fizeram mais pontos. Um deles praticamente já é reconhecido publicamente como um artista nacional, atingiu o patamar profissional e artístico que permite um certo conforto, o telefone toca pedindo bis. Mas o artista que fez mais pontos não é um artista famoso nem reconhecido fora do círculo dos bem informados. É um legítimo artista com uma altíssima reputação, no momento certo da curva e que este ano irá tocar onde quiser, apesar de ainda desconhecido pela mídia e pela fama. O disco de ambos é de audição crucial, amplos universos se renovando. Apanhador Só, com 25, e Emicida, com 21 menções.

apanhador

2) Os próximos doze atingiram 10 ou mais recomendações. O bloco é notável, tem tudo de todas as cores e juntos formam uma surpreendente jovem guarda que circula pelo Brasil, é amada e nos representa, é definitivamente música brasileira. Pela ordem: Boogarins, Jeneci, Vanguart, Baleia, Bixiga 70, Nevilton, R.Amarante, Bruno Souto, Garotas Suecas, Karol Concá, Passo Torto e Wado. Surpresas? Eu sim.

3) Os próximos 76 artistas tiveram 3 ou mais recomendações. Estão prontos para tocar no rádio, tem alto padrão de produção em sua maioria, e se misturam nomes consagrados como Guilherme Arantes e Arnaldo Antunes com gente novíssima e revolucionária. Três listas pra mim dizem que você está no mapa.

4) Daí temos mais 269 artistas com menos de três indicações. Gente boa que não atingiu o tom em 2013, muita brodagem e carreiras artísticas em formação. A noticia boa é o total de artistas que entra nessa lista das listas. Temos 359 artistas no panorama: que riqueza, que variedade, que fartura! Agradecemos ao Senhor os próximos anos de vacas gordas para a música.

5) Porque será ao vivo.

(Texto publicado originalmente no blog Peripécias do Pena)