OPINIÃO
04/03/2016 14:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Sobre Delcídio, a 'delação', a mídia e Lula na Lava Jato

A Justiça terá que explicar se houve ou não delação premiada de Delcídio Amaral, enquanto a ISTOÉ, e não só sua repórter, terá que explicar como chegou às conclusões da apuração, além de todos os envolvidos e mencionados, incluindo o ex-presidente Lula. Para parte da população, nutrida por 14 anos de ódio irracional alimentado por colunistas de opinião da imprensa mainstream, o PT, Lula e Dilma já são culpados. Mas a imprensa não tem o direito de fazer este jogo sujo da política.

Flickr/Agência Brasil

Vamos contar os fatos na ordem cronológica.

O senador Delcídio do Amaral, do Mato Grosso do Sul, ex-tucano e atualmente petista, foi preso no dia 25 de novembro de 2015. Ex-líder do PT no Senado, seu encarceramento foi fonte de inúmeros rumores sobre uma suposta delação premiada que ele daria à Operação Lava Jato de Sérgio Moro.

Sites suspeitos como O Antagonista chegavam a fazer posts tentando prever quando o vazamento ocorreria. No dia 3 de março deste ano ele foi liberado, segundo o jornal O Globo, por fazer um acordo por uma delação premiada, mas sem detalhes de seu conteúdo.

A delação supostamente caiu nas mãos da revista ISTOÉ que publicou ontem uma reportagem de capa, às pressas, afirmando que o conteúdo do depoimento de Delcídio cita Lula e Dilma como políticos diretamente envolvidos no propinoduto da Petrobras.

Lula teria se beneficiado do esquema e Dilma, na posição privilegiada de presidente, teria tentado intervir.

O documento teria 400 páginas.

O segundo fato de 3 de março foi ainda mais grave.

O próprio senador Delcídio Amaral, com ajuda de advogados, nega a legitimidade dos documentos expostos pela ISTOÉ.

Alguns veículos de mídia, incluindo o próprio Antagonista, tentam colocar a carta do político em dúvida, afirmando que ele não nega que fez delação premiada.

Mas a própria mensagem é clara sobre a reportagem.

Para quem não leu:

"O Senado Delcídio Amaral e a sua defesa vêm se manifestar sobre a matéria publicada na Revista IstoÉ na data de hoje. À partida, nem o Senador Delcídio, nem a sua defesa confirmam o conteúdo da matéria assinada pela jornalista Débora Bergamasco. Não conhecemos a origem, tampouco reconhecemos a autenticidade dos documentos que vão acostados ao texto. Esclarecemos que em momento algum, nem antes, nem depois da matéria, fomos contatados pela referida jornalista para nos manifestarmos sobre fidedignidade dos fatos relatados. Por fim, o Senador Delcídio Amaral reitera o seu respeito e o seu comprometimento com o Senado da República".

No mesmo dia, o Jornal Nacional e o Jornal da Globo repassam as denúncias da revista sem dar a devida ênfase à declaração de Delcídio que retira, no mínimo um pouco, a autenticidade dos documentos divulgados.

As ações em sequência soam como uma manobra da mídia mainstream brasileira, que está em um conflito aberto contra as políticas do PT, seja como representante da esquerda ou como responsável pela crise econômica.

Eis que, na manhã do dia 4 de março, às 6h da manhã, a Polícia Federal bate na casa de Lula com mandato coercitivo para depoimento.

O ex-presidente é investigado por propriedades no Guarujá e em Atibaia que seriam reformadas com dinheiro de empreiteiras como a Odebrecht e a OAS, incriminadas na Lava Jato.

A manobra da mídia não considera, por exemplo, o caso de um triplex da família Marinho, dona da Globo, denunciada em sites de esquerda com participação de empreiteiras dos escândalos.

Também não é investigado o esquema da Lista de Furnas, estatal mineira, que teria criado uma movimentação de caixa dois, dinheiro não contabilizado, para campanhas de candidatos do PSDB, como Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra.

O propinoduto de Minas Gerais estaria conectado com a Lava Jato, de acordo com depoimento prestado pelo doleiro Youssef.

Há também os casos de Eduardo Cunha, que também virou réu na Lava Jato, e do histórico Paulo Maluf, que foi condenado a três anos de prisão pela Justiça da França por lavagem de dinheiro.

Nenhum dos casos citados merece o mesmo destaque que o de Lula, que merece sim uma investigação e, no entanto, chegou a gerar a comoção de antipetistas pela sua prisão imediata.

Não se sabe a autenticidade da reportagem da revista ISTOÉ e é saudável desconfiar de uma capa tão antecipada.

Luís Costa Pinto, ex-repórter da revista Veja no impeachment de Fernando Collor, entrevistou o irmão do ex-presidente e comentou algo relevante sobre a publicação.

"Na capa da edição, o título 'Delcídio Conta Tudo' e uma foto do senador do PT do Mato Grosso do Sul com ar soturno e a cabeça levemente inclinada para baixo. A ambição, inconfessa, contudo evidente e descarada, é remeter os mais velhos à histórica capa de Veja 'Pedro Collor Conta Tudo', de autoria central minha, mas fruto de um amplo e espetacular trabalho de equipe - repórteres, editores, correspondentes e diretores - num formato de redação e de publicação que já não existe mais. Não existe. Mimetizar a força de uma capa por similaridades gráficas é mais que equívoco: é má fé".

A Justiça terá que explicar se houve ou não delação premiada de Delcídio Amaral, enquanto a ISTOÉ, e não só sua repórter, terá que explicar como chegou às conclusões da apuração, além de todos os envolvidos e mencionados, incluindo o ex-presidente Lula.

Para parte da população, nutrida por 14 anos de ódio irracional alimentado por colunistas de opinião da imprensa mainstream, o PT, Lula e Dilma já são culpados.

Mas a imprensa não tem o direito de fazer este jogo sujo da política.

Porque mídia serve para o povo, para os leitores, e não para meia dúzia de gatos pingados poderosos em Brasília, no Rio ou em São Paulo.

Jornalismo, em tese, é serviço público. Não é privado.

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