OPINIÃO
05/12/2014 19:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

GTA pode ser feminista?

O texto não aborda exatamente a cena brasileira de games, mas é um assunto que envolveu a comunidade nacional nesta semana.

A notícia partiu do site Player2. "Loja cede a pressões feministas e retira GTA V das prateleiras". De acordo com o texto, lojas da rede Target na Austrália tiraram o jogo violento por pressão de uma petição online de 41 mil pessoas que sofreram abuso sexual.

2014-12-05-gtav.jpg

GTA é uma franquia em que você assume um papel de um fora-da-lei que pode roubar carros, matar e andar em um mundo aberto a várias possibilidades. Um dos aspectos do jogo mais agressivos com mulheres que já foram abusadas, e hoje militam pelo feminismo, é que você pode transar com uma prostituta e matá-la dentro do game, como é possível com qualquer outro personagem. De uma certa forma, é uma cultura de agressão ao feminino.

O "mindset", a mentalidade, de Grand Theft Auto é machista desde sua concepção em 1997, há 17 anos. A crítica válida do jogo é contra a sociedade americana e seu modo de vida do "self-made man". Fora isso, o game explora estereótipos já conhecidos do bandido.

A série deu uma mudança de ares, para abarcar minorias, somente no DLC Ballad of Gay Tony de GTA IV (2010). O jogo mostrava casas noturnas e personagens abertamente homossexuais, mas nunca se abriu na questão feminina.

Quando GTA teve uma protagonista mulher? Você lembra?

A notícia gerou uma discussão de cerca de 471 comentários nas redes sociais. O cômico do debate é que apenas uma menina se manifestou sobre a proibição na Austrália, ressaltando que é contra a censura do jogo nas lojas mas à favor de um debate mais sério sobre a violência feminina dentro de GTA.

O assunto não é nada novo. Anita Sarkeesian aborda a visão de "mulher como objeto" em seus vlogs. Mesmo assim, os homens insistem em dizer que a questão é secundária no assunto.

Especialmente levando-se em conta a forma como GTA foi criado. Do ponto de vista de game design, para muitos "GTA não vai mudar".

Não vai mesmo?

GTA não precisa de muito para "se tornar feminista". Basta talvez não naturalizar a agressão contra a mulher.

Basta, talvez, dar espaço para que as mulheres se identifiquem com alguma heroína dentro deste universo de crime.

A menina que se manifestou durante o debate teve seus argumentos refutados constantemente e sempre por interlocutores homens. Nenhum deles era mal-intencionado e nem a agrediu, mas achei curioso como o mundo masculino sempre encontra meios de se defender.

Inclusive nos videogames.

Texto publicado originalmente no site Geração Gamer.