OPINIÃO
26/12/2014 18:11 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Como o último filme Hobbit e o game Shadow of Mordor marcaram Tolkien em 2014

Os filmes de Peter Jackson traduzem a mensagem de Tolkien para as novas gerações do século 21, enquanto os games são espaço para novas narrativas

Divulgação

Fui, a convite da embaixada da Nova Zelândia, assistir a estreia de O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos no dia 11 de dezembro em São Paulo. O filme estreou em 37 países e já arrecadou 177,6 milhões de dólares no mundo todo logo no primeiro final de semana. Deste total, 17,9 milhões foram somente das bilheterias de 1037 salas brasileiras.

Neste mesmo ano, em setembro, a Warner Bros lançou o jogo Middle-earth: Shadow of Mordor. Pude experimentar o game durante a Brasil Game Show 2014, além de conversar com o produtor Peter Wyse. O game está recebendo uma boa recepção por sua história criativa baseada no universo Senhor dos Anéis, do escritor de fantasia J. R. R. Tolkien. O jornalista da revista WIRED, Matt Peckman chegou a chamá-lo de melhor adaptação do autor para os videogames.

Longa-metragem que encerra a maior era de adaptações nos cinemas

O filme consagrou uma maneira particular de como o diretor e produtor Peter Jackson adaptou clássicos de literários do escritor J. R. R. Tolkien. Essencialmente, o cineasta neozelandês cria situações de guerra em massa que são enquadradas dentro de efeitos especiais e visuais cativantes para quem assiste aos eventos.

O 3D que você vê no filme foi criado por uma equipe de mais de 1100 animadores da Weta Digital, empresa de animação que trabalhou diretamente com as produções de Peter Jackson nos últimos anos.

A fórmula dá muito certo há pelo menos 13 anos, quando Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel chegou aos cinemas através da New Line Cinema. Jackson provocou o florescimento dos estúdios de animação digital neozelandeses para criar cenas grandiosas de combates de espadas, principalmente a partir do filme Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002). Ele explora a pancadaria, o embate entre exércitos e os seres místicos para ganhar atenção do público.

O problema é que Senhor dos Anéis não é só isso. Tolkien escreveu o livro entre 1937 e 1949 e o publicou em três volumes entre 54 e 56 para falar sobre um grande confronto dentro de seu mundo de fantasia criado em O Hobbit (1937). Neste ano foi revelado pelo filho do autor, Christopher Tolkien, que o cenário de Senhor dos Anéis foi baseado na Roterdã, Holanda, durante a Segunda Guerra Mundial. A vila dos Hobbits destruída por Saruman, o mago maligno, foi inteiramente inspirada na devastação provocada pelos alemães nazistas.

Peter Jackson não tem essa mesma sensibilidade literária nas telonas, mas criou uma estética própria para os personagens de Tolkien. Isso provocou atritos entre o diretor e o detentor dos direitos da obra, Christopher Tolkien.

Muito provavelmente Jackson não poderá filmar mais as histórias do autor britânico por algum tempo. Mas já consagrou seu espaço no cinema mundial ao promover o maior revival literário audiovisual.

Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003) é a oitava maior bilheteria do mundo, com 1,1 bilhão de dólares arrecadados. Perde, entre as adaptações de literatura, apenas para Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, com 1,3 bilhão.

O primeiro Hobbit, Uma Jornada Inesperada (2012), chegou em 1 bilhão de bilheteria e está em 18º lugar, agora pela Warner Bros. Sua continuação, o filme controverso A Desolação de Smaug (2013), atingiu 958 milhões e ficou na 25º posição. A fórmula de Jackson para as telonas é comprovadamente eficiente e é muito provável que A Batalha dos Cinco Exércitos fique entre os 30 filmes mais lucrativos da história.

Peter Jackson fez duas trilogias de clássicos literários e empregou um traço próprio nas adaptações. Os fatos principais retratados por Tolkien estão na história, como o dragão Smaug ambicioso pelo dinheiro e pelo poder na Montanha da Solidão, a jornada sacrificante dos anões até Erebor e a coragem dos humanos em um universo dominado pela fantasia. O Um Anel de Sauron, roubado por Bilbo Bolseiro, também é corretamente retratado como uma conexão explícita entre O Hobbit e Senhor dos Anéis, fato que não é muito bem abordado no livro porque Tolkien não imaginava que iria escrever uma continuação.

Mas Jackson dá uma liberdade a si mesmo para fazer alterações técnicas nos eventos da obra do autor britânico. Ele aumenta a participação dos elfos nas histórias e cria cenas que não existem para dar uma atmosfera mais adulta à saga de O Hobbit, que foi escrita para ser um conto infantil.

Foi uma boa decisão de Peter Jackson não ter ido em frente com o plano de fatiar a história de Hobbit em quatro filmes. Uma trilogia abordou bem a história. Acredito que, no mundo ideal, a narrativa teria sido bem condensada em dois filmes, porque A Desolação de Smaug ficou com adições desnecessárias.

O diretor neozelandês pode não estar em sua fase mais criativa da carreira, mas marca a história do cinema que também está dominada por adaptações dos quadrinhos de editoras como Marvel e DC Comics agora.

Com a crise de Hollywood, que insiste em fazer remakes de filmes consagrados, personagens de histórias em quadrinhos e da literatura de fantasia ganharam as atenções (e o dinheiro) do mundo inteiro nos cinemas.

Dentro deste contexto, o Hobbit e Senhor dos Anéis encerram a saga das maiores adaptações literárias já feitas até hoje entre os filmes de sucesso comercial.

O jogo que explora os personagens malignos de Tolkien

O grande destaque em Shadow of Mordor é seu modo Nemesis, de acordo com o produtor Peter Wyse em entrevista ao site Bonus Stage. Ou seja, o jogo todo funciona como um RPG ao contrário, com inimigos que também melhoram suas habilidades. Se você matá-los, ganha níveis como num jogo tradicional. Se for derrotado, eles evoluem e se tornam generais das hordas de orcs.

Protagonista de Gondor, Talion pode converter monstros para agir como seu exército. A gameplay tem similaridades com Assassin's Creed e Batman Arkham Asylum. Seus combates empolgam. O jogo é de mundo aberto e mostra que Mordor não é apenas um mundo ruim, mas sim um local da Terra-Média que foi corrompido.

Diferente dos cinemas, que estão explorando histórias já consagradas, os videogames estão trazendo novas temáticas. O herói de Shadow of Mordor, Talion, é revivido no jogo por Celebrimbor, um lorde elfo filho de Fëanor que aparece em sua forma espiritual. Os dois, em sua aventura conhecendo o mundo dos orcs, encontram a criatura Gollum que tem admiração pelo Um Anel de Sauron.

A trama épica de Tolkien aparece digitalmente, mas sem necessariamente repetir eventos. A Warner, portanto, faz uma aposta na criatividade.

E o que dá pra entender disso?

O Hobbit e o Senhor dos Anéis são obras literárias do século 20 e que transformaram a fantasia na Inglaterra. São ficções que lidam com lendas nórdicas, germânicas e vikings aliadas com acontecimentos que fizeram parte da vida do escritor e filólogo (linguista) J. R. R. Tolkien.

Os filmes de Peter Jackson traduziram essas mensagens para as novas gerações do século 21, além de terem criado uma indústria milionária de efeitos visuais nos cinemas. Enquanto isso, os games podem ser espaço para novas narrativas, como é o caso de Shadow of Mordor.