OPINIÃO
19/02/2015 11:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Como é cobrir os escândalos do colapso hídrico e da corrupção dentro da Sabesp

Desvios de verba na empresa fizeram com que um ex-funcionário, provavelmente um diretor, fizesse uma denúncia anônima ao Ministério Público. Corrupção pode ter desviado mais de R$ 2 bilhões.

Meus leitores tradicionais aqui do Brasil Post vão estranhar este texto, porque normalmente eu cubro tecnologia em geral e videogames neste site. No entanto, como jornalista freelancer, também abordo outras pautas, como política nacional, direitos humanos, cultura pop, música e até literatura. De vez em quando, por conta dos meus anos de EXAME.com, também me aventuro na escrita de negócios e economia.

Recentemente fui escalado pelo Diário do Centro do Mundo, o DCM, para cobrir os escândalos do colapso hídrico do sistema Cantareira e a corrupção interna da Sabesp. Estou verificando documentos, averiguando investigações em andamento e conversando com fontes de dentro da Sabesp. Também estou ocupado cruzando informações com escândalos que estão vindo a tona. Todas as reportagens foram financiadas através de uma campanha de crowdfunding, financiamento coletivo dos leitores do DCM, pelo site Catarse.

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) teve um investimento de pelo menos R$ 1,4 bilhão para conter vazamentos de água desde 2008 e em obras emergenciais da Cantareira. A reserva do sistema caiu para até 5% do volume morto e as perdas de água chegaram em 36% nos últimos dois anos, sendo que em 1973 esse percentual estava em 30%. Esses desvios de verba fizeram com que um ex-funcionário, provavelmente um diretor, fizesse uma denúncia anônima ao Ministério Púlico. No documento, ele acusa a Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos (ABENDI), responsável por 38 licitações contra vazamentos, de promover empresas ligadas aos seus diretores como uma "máfia", ou seja, um cartel corporativo.

Este escândalo envolve as mesmas empresas de um desvio de R$ 1 bilhão na cidade de Sorocaba, que é investigado pela polícia civil. Lá não é a Sabesp, mas sim a Saae que teve verba confiscada num cartel. Os dois supostos casos de corrupção reuniriam mais de R$ 2 bilhões.

Além disso, existe também o complicado caso de abertura de capital progressiva da Sabesp. A empresa abriu-se para o investimento privado desde 1994, fez IPO na Bovespa e na Bolsa de Nova York em 2002, mas continua com o governo estadual de São Paulo como acionista majoritário. Na prática, ela não foi privatizada, mas possui capital misto.

A Sabesp, no entanto, fatura vendendo volumes de água, mesmo que seja resultado de vazamentos ou através do esgoto. Quanto mais ela vende, mais suas ações sobem, mesmo que isso esteja secando sua maior reserva hídrica. Não há órgãos competentes que a fiscalizem, exceto pela Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (ARSESP) que só foi criada em 2007. O trabalho deles, que também são nomeados pelo governo do estado, não foi competente o suficiente para exigir que as perdas de água fossem estancadas para evitar o possível colapso da Cantareira.

Os governos do PSDB, que permanecem administrando há mais de 20 anos no estado de São Paulo, estão diretamente relacionados com as ingerências da Sabesp, embora toda a crise tenha sido agravada por uma seca inédita na região sudeste brasileira.

Confesso que tenho um certo receio ao apurar essas denúncias. Porque elas envolvem cifras bilionárias, nomes de pessoas, grandes empresas de engenharia e depoimentos que vazam de uma empresa pouco transparente como a Sabesp. No entanto, eu estou com rodízio forçado de água desde outubro de 2014. Começou faltando de madrugada e hoje fico com as torneiras secas durante o dia. Outras pessoas que conheço estão passando por apuros desde setembro.

Acredito que falta uma sensibilidade maior na cobertura política, empresarial e ambiental no caso da Sabesp. As denúncias que envolvem a Petrobras devem ser investigadas com profundidade, mas a imprensa precisa abandonar a disputa partidária que culpa excessivamente o PT e ir atrás das empresas e dos escândalos que envolvem o PSDB em São Paulo.

O preço da gasolina vai subir, mas as reservas de petróleo não dão sinais de esgotamento no Brasil e até atingiram níveis recordes de exploração da Petrobras. Enquanto isso, a Sabesp praticamente secou sua maior reserva em São Paulo, o que pode causar danos desastrosos ao PIB nacional com êxodo de pessoas.

Um jornalismo rigoroso com o colapso hídrico provocado pelo aquecimento global e pelas ingerências empresariais e governamentais é útil, poderoso e saudável para a sociedade. Quando a imprensa for mais rígida com os desmandos do setor privado, e das instituições que se misturam com o interesse público, todos nós vamos ganhar com boas reportagens.

VEJA TAMBÉM:/

Galeria de Fotos Falta de água em SP vira piada Veja Fotos