OPINIÃO
16/12/2015 11:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

A truculência do governo Alckmin contra os Jornalistas Livres  nos protestos de secundaristas

A jornalista Laura Capriglione foi abordada por um segurança, que a agarrou pelo braço enquanto ela gravava toda a conversa, desde quando percebeu que não poderia ver a mesma coletiva que os veículos da grande imprensa veriam com o governador Geraldo Alckmin.

Uma pessoa truculenta é usualmente grossa. A palavra não parece se encaixar superficialmente no perfil calmo do governador Geraldo Alckmin.

Mas encaixa. Explicamos neste texto.

A jornalista Laura Capriglione do coletivo Jornalistas Livres entrou escondida em uma reunião num domingo, dia 29 de novembro, com 40 dirigentes das escolas estaduais e o chefe de gabinete do ex-secretário Herman Jacobus Cornelis Voorwald -- que foi derrubado pelos movimentos dos estudantes nas ruas -, Fernando Padula Novaes. Lá dentro, Laura gravou um áudio de 40 minutos com uma verdadeira declaração de guerra dos supostos gestores educacionais.

"Estamos no meio de uma guerra e nós temos que nos preparar para continuar enfrentando-a. Eventualmente perdemos algumas batalhas, mas temos que ganhar a guerra final. Temos que desqualificar o movimento, que é político, partidário, é pra desviar foco de Brasília", disse Padula claramente no áudio, antes das cenas grotescas de agressões e prisões de menores de idade executadas por PMs na semana.

Após o furo de reportagem, Laura e a equipe dos Jornalistas Livres fizeram uma cobertura ao vivo das mobilizações estudantis, denunciando os abusos da PM e até de pessoas que discordavam dos estudantes secundaristas no meio do trânsito fechado. A repressão da Avenida Nove de Julho no dia 1º de dezembro foi registrada ao vivo pelos repórteres que se comunicavam com quem estava nas manifestações.

No 4 de dezembro, o governador anunciou com coletiva de imprensa que suspendia o decreto de fechamento das escolas, mobilização que provocou mais de 200 ocupações por parte dos estudantes e da população insatisfeita.

A segurança do Palácio dos Bandeirantes barrou a entrada de três veículos de mídia, segundo o Portal Imprensa: Jornalistas Livres, Carta Capital e Jornal dos Professores.

Mas o tratamento com Laura foi especial no momento de impedir a sua entrada.

"Por que a gente não pode entrar? Qual a justificativa? Quem proibiu o nosso ingresso? Você pode me dar uma explicação?", pergunta insistentemente a repórter para uma recepcionista com expressão dura.

Em seguida, Laura Capriglione é abordada por um segurança, que a agarra pelo braço enquanto ela grava toda a conversa, desde quando percebeu que não poderia ver a mesma coletiva que os veículos da grande imprensa veriam com o governador Geraldo Alckmin. Tudo isso ficou registrado em vídeo.

Laura fez um desabafo ao Portal Imprensa:

"Disse que era dos Jornalistas Livres e eles afirmaram que eu não poderia entrar. Decidi filmar o ato. Foi quando o segurança ficou apertando a minha mão dizendo que iria quebrar o meu celular. Foi uma agressão. Além disso, me impediram de exercer a minha profissão."

O governo Alckmin soltou uma nota dizendo que Laura Capriglione chegou atrasada à coletiva de imprensa e criticou a jornalista:

"Os horários não estão sujeitos à subjetividade. Estão comprovados pelos registros e pelo circuito interno de segurança do Palácio. Portanto, é mentira que foi impedida de participar da entrevista. Ela simplesmente não chegou a tempo."

Mesmo que ela tenha se atrasado, isso é justificativa para um segurança segurar em seu braço, como mostra o próprio vídeo registrado por Laura?

Por que exatamente os veículos Jornalistas Livres, Carta Capital e Jornal dos Professores, críticos do governador, não conseguiram entrar?

Pois estavam presentes naquele recinto os representantes da grande mídia como TV Globo, TV Gazeta, SBT, Globonews, TV Cultura, Rede TV, rádio Jovem Pan, rádio Bandeirantes, O Estado de S. Paulo, rádio CBN, Portal G1, Folha de S. Paulo e Diário de S. Paulo.

A truculência de Alckmin nesta crise está bem presente com a mídia nestes dias. O governador foi pessoalmente até as sedes da Folha e do Estadão, o que provocou mudanças na cobertura dos protestos.

A capa da Folha de S.Paulo do dia 2 de dezembro não mencionava nada sobre as bombas na Avenida Nove de Julho na noite anterior. Os fatos dessas ações do governador foram noticiados no site DCM graças às fontes de dentro dos jornais.

No dia seguinte, as notícias giraram em torno da abertura do pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff feita por Eduardo Cunha. Em 4 de dezembro, a situação mudou novamente para Alckmin, frustrando a sua operação de abafar notícias ruins nos grandes veículos de comunicação.

Os protestos estudantis se intensificaram, e ele se viu obrigado a suspender o decreto que tentava fechar escolas públicas. A capa da Folha, naquele dia, mostrava a pior aprovação de Alckmin em pesquisas de gestão: 28%.

Seu governo está mostrando mais as garras, e a truculência para quem quer fazer uma apuração crítica das manifestações.

Além de mandar a PM bater em menores de idade, o governo Alckmin agora está agredindo jornalistas e impedindo seu trabalho. Foi exatamente isso que ele fez com a repórter Laura Capriglione.

O jeito calmo de Pindamonhangaba do governador esconde uma certa intolerância com a imprensa livre.

* Texto originalmente postado no Medium

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