OPINIÃO
21/07/2015 16:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A palavra 'golpista' define quem é Eduardo Cunha

Agência Brasil/Flickr
O Presidente da câmara dos deputados, deputado Eduardo Cunha Preside a Sessão Solene em Homenagem aos 50 anos da Rede Globo, ao seu lado, João Roberto Marinho (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Fiquei feliz que, ao contrário do meu texto anterior aqui no Brasil Post, algumas pessoas bateram panelas contra o pronunciamento de Eduardo Cunha na TV aberta. Ao menos, é o que diz o jornal Folha de S.Paulo.

Felizmente, alguém bateu panelas. Mas não temos muito o que comemorar.

Cunha foi acusado pelo empresário Júlio Camargo, delator da Lava Jato, de receber uma propina de US$ 5 milhões da Petrobras. Na última sexta-feira (17), o presidente da Câmara fez um pronunciamento em uma coletiva de imprensa anunciando que rompia com o governo Dilma.

Ele partiu pro ataque. Segundo os irmãos e políticos Cid e Ciro Gomes, este é um "modus operandi" do atual presidente da Câmara.

A declaração perdeu força porque seu partido, PMDB, disse que essa era apenas a opinião de Eduardo Cunha e que permanece na base do governo.

O presidente da Câmara age como um golpista. Culpa o governo Dilma, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e as denúncias das delações premiadas. Independente dos erros na operação Lava Jato da Polícia Federal, Cunha disse a aliados que quer "explodir" a gestão de Dilma.

O próprio doleiro Alberto Youssef diz que sofreu intimidações de pessoas relacionadas com Eduardo Cunha, mostrando a postura antidemocrática.

Eu pessoalmente não gosto muito da palavra golpe. Golpe de Estado remonta a divisão binária da política em esquerda e direita nos moldes da Guerra Fria.

Golpe dos progressistas também é um termo tão mal usado quanto comunismo entre os círculos conservadores. Eu não acredito que Eduardo Cunha seja um golpista apenas por diferenças ideológicas.

Cunha pratica golpismo ao pressionar uma agenda reacionária sem uma discussão apropriada com minorias na Câmara dos Deputados. Os congressistas emendarem uma votação atrás de outra não mostra nenhuma transparência com a população, sejam aqueles favoráveis ou contra a redução da maioridade penal.

A pouca repercussão de suas relações promíscuas com o setor privado na grande imprensa também é sintoma do quão pouco entendemos sobre corrupção política. E como sofremos golpes como os de Cunha o tempo todo.

Eduardo Cunha nem sempre pratica ações ilegais como parlamentar. Em decisões corretas dentro do regimento, mas antidemocráticas por si só, dá-se o nome de "golpe branco".

É dentro da legalidade, mas imoral. A Câmara dos Deputados é uma casa plural dentro da democracia brasileira, e não o recinto para os desejos políticos individuais do senhor Cunha ou de seu grupo de influência.

Não estamos sob "risco dos reacionários fascistas do Brasil". Há conservadores em uma camada significativa na sociedade, sim, assim como também existe uma esquerda política e tendências liberais mais razoáveis.

E existe Eduardo Cunha. Um golpista que age apenas para um senhor.

Ele próprio e seus interesses.

O golpe não é contra o PT. O golpe de Cunha é contra a democracia.

Texto postado originalmente no Medium.

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