OPINIÃO
14/03/2016 17:33 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Buscar motivação pode estar acabando com sua produtividade

Poike via Getty Images
Tired businesswoman in the office

Se motivação levasse a alguma coisa, o dia dois de janeiro seria um dia muito mais importante do que é. Grandes ideias nascem no último dia do ano, soluções geniais para todos os problemas da humanidade que, ninguém, esse tempo todo, teve a chance de colocar em prática. Já o primeiro dia do ano serve para cuidar da ressaca e colocar alguma coisa num no papel, tentando, talvez salvar algumas das ideias da noite anterior.

O dia 02, portanto, é o dia em que a aventura humana na terra seria, enfim, resolvida. Só que não é bem o que acontece, não é?

Estar motivado parece muito importante pelo simples fato de parecer que várias coisas estão sendo feitas, mas não estão. Motivação está para ação assim como ler sobre gastronomia está para ser um chef de cozinha. O problema todo é que nosso cérebro nos faz acreditar que basta querer fazer uma coisa para que ela aconteça. Ou que, no mínimo, possa acontecer.

E para mentes mais preguiçosas (como a minha), isso é quase a mesma coisa que fazer algo de verdade. O sentimento de felicidade e bem-estar é o mesmo. "Eu vou fazer isso" acaba se tornando tão verdadeiro quanto "Eu fiz isso".

Um dos grandes erros da famigerada resolução de fim de ano é a grandeza das nossas tarefas. Já vi muitos "vou emagrecer", "vou parar de fumar", "vou escrever um livro". Nunca vi "vou cortar o açúcar nos dias pares", "vou fumar um cigarro a menos a cada semana", "vou escrever 500 palavras por dia."

Sabe quantos livros foram escritos após uma promessa de escrever um livro no dia 31 de dezembro? Zero. Absolutamente nenhum. Escrever 500 palavras por dia (este texto, por exemplo, tem 823) me parece muito mais convidativo no segundo dia do ano, que um livro. Um livro é totalmente adiável até setembro, que já está próximo demais de janeiro para ser terminado.

Muitas das conquistas que eu tive foram através de coisas que fiz em momentos que eu não poderia estar menos motivado. As mudanças na minha carreira, a aposta na minha vontade de escrever, parar de fumar... nada disso veio através de motivação, pelo contrário.

Um dia eu entrei no consultório de um médico com o qual faria minha primeira consulta. Depois dos procedimentos de praxe, ele me disse logo de cara que eu tinha que para de fumar. Antes de regime, antes de qualquer coisa, eu precisava parar, urgentemente. Nada era mais importante que aquilo, naquele momento. Uma das coisas que eu gostava nos médicos endocrinologistas, até aquele dia, é que nenhum deles me mandava parar de fumar, todos diziam que emagrecer era primordial. Detalhe: eu adorava fumar. A última coisa que queria era parar de fumar.

Ele me passou um remédio, contra ansiedade, e me disse para fazer alguns exames e voltar em dois meses. Contra a minha vontade, comprei o remédio. Contra a minha vontade ele fez efeito e, gradativamente, fui diminuindo o número de cigarros. Quando voltei ao consultório, dois meses depois, já era um ex-fumante. De fato, o sou até hoje e, mesmo "adorando fumar", não fumo há dois anos e oito meses.

Eu não queria parar, mas eu precisava. A minha ação não foi largar o cigarro, no fim das contas o remédio fez isso por mim. A minha ação foi comprar e tomar o medicamento, todos os dias. Eu precisava fazer uma coisa e eu fui lá e fiz. Provei para mim mesmo que é possível hackear minha mente procrastinadora, preguiçosa e satisfeita.

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O mesmo aconteceu com meu livro.

Tive a ideia de compilar algumas dezenas de crônicas que eu havia escrito e formatá-las como em um livro. Como também tive minha vida de designer, poderia tranquilamente lidar com a diagramação e com a capa. Tudo que eu precisava fazer era: ler meus mais de 400 textos espalhados pela internet; escolher algumas dezenas; reescrevê-los ou reeditá-los; revisá-los; diagramar todos eles; criar uma capa; formatá-lo para as lojas de ebook.

Me senti a pessoa mais empolgada do mundo quando tive essa ideia. E não preciso descrever como foram os seis meses que demorei para fazer tudo aquilo em uma semana. Eu parei de querer fazer uma coisa para ir lá e fazer.

Se alguém tentar lhe vender coisas motivacionais, não compre. Palestras, livros, cursos... nada disso vale o seu tempo. Ao invés de se motivar, ou deixar que motivem você, a fazer coisas, apenas vá lá e faça.

PS.: Se quiser saber mais sobre meu livro, veja os links aqui embaixo. Ele também tem um site.

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